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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Eu percebo que os médicos façam todos as mesmas perguntas quando olham para a minha ficha clínica e vêem lá escrito, 'adenocarcinoma do pulmão': ainda fuma? Foi fumadora? Quantos cigarros fumava? Com que idade começou a fumar? Quando respondo às últimas duas perguntas fazem uma expressão de choque e alguns de censura [porque não me conhecem, pois se conhecessem sabiam que sou literalmente aquele verso de Ricardo Reis, Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes] que já me irrita. Porque é que não se chocam antes com a corrupção que destrói o país ou com o canibalismo da banca? Um deles, depois de fazer essa expressão de choque disse-me a seguir, 'ah, mas não se sinta culpada'... um bocadinho tarde para dizer isso, não(?), depois dessa cara... de modo que vou começar a dizer meias verdades que é o mesmo que mentir e quando me perguntarem quantos cigarros fumava digo, humm... aí um maço ou algo mais ('algo mais' pode ir até ao infinito, não é verdade?); e quando me perguntarem com que idade comecei a fumar digo, lá para a adolescência (a adolescência vai dos 10 aos 20 anos, não é verdade?). Ou isto ou então digo, 'olhe, se quer que eu diga a verdade tem que ser capaz de fazer poker face de modo que comece já a ajustar a sua expressão facial para o modo de, 'impassível, nada me choca' e se não é capaz de fazer isso avise já para eu começar a mentir.
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