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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Hoje fui almoçar com um amigo de infância que já não via há um par de anos, apesar que ele dá aulas numa universidade em Lisboa e eu, embora não trabalhe aqui em Lisboa faço parte da minha vida aqui. Ele soube da minha doença e ligou-me. É que ele também tem um cancro. O dele é pior que o meu. Mais raro e mais difícil de tratar embora nesta doença não haja certezas nem garantias, cada um reage de maneira diferente e tudo pode acontecer. A ele deram-lhe quatro anos de vida, há dez anos e, ainda cá está. Ele nunca teve náuseas com os tratamentos e o cancro dele não causa dores. Eu tenho essas duas coisas. Ele não pode comer saladas, eu devo comer saladas; eu não posso comer marisco, ele pode comer marisco; enfim... estivémos a trocar experiências como os álcoolicos anónimos 🙂 e a trocar ideias acerca de como ir tomando decisões de modo a não comprometer, dentro do possível, a qualidade de vida. Depois trocámos ideias sobre os alunos, porque ele também gosta muito de dar aulas e o que é interessante é que gostamos de dar aulas pelas mesmas razões (apesar da área dele ser muito diferente da minha, enfim, aparentemente, porque certas ciências, chamadas, duras, sempre foram muito próximas, e são, da Filosofia, embora muitos que nelas trabalhem não saibam disso): ajudar os outros abrindo-lhes portas para que possam expandir-se e encontrar o seu lugar na vida. Um professor é um professor e é indiferente que dê aulas na escola primária ou na universidade. Apesar do trabalho ter contornos diferentes, a tarefa é a mesma: encarar os alunos como pessoas em desenvolvimento e tentar ser uma ponte ou uma porta para outras dimensões, alargar-lhes os horizontes e dar-lhes ferramentas de autonomia. Depois, as dificuldades que ele sente são as mesmas que eu sinto: os alunos são educados pelos jogos de vídeo, pelos smartphones e pela wikipédia e estão habituados a respostas rápidas e curtas, soluções e resumos da internet e é difícil pô-los a pensar porque lhes falta leitura e sem leitura não há vocabulário, não há conceitos, logo, não há ferramentas para trabalhar o pensamento. Mas é isso: um professor, quando é um professsor, é um professor, se é que me faço entender.
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