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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Só hoje tive um bocadinho de tempo para retomar o livro do Varoufakis. Vou na parte em que estão em vésperas das eleições, já toda a gente sabe que o Tsipras vai ganhar e que ele vai ser o ministro das finanças (ele fez questão de se submeter ao voto explicitando o programa de negociações que defendia). Tendo isso em conta, é chamado à embaixada alemã onde o embaixador lhe explica, tim-tim por tim-tim, como deve exercer o cargo quando tomar posse e o que fazer. É lindo! Mesmo :)


Dijsselbloem é uma “marioneta” do “ventríloquo” Schäuble.
Eurogrupo é um sítio ótimo – se fores um psicopata.
Draghi é um economista brilhante, mas frustrado.
Gravações secretas? Eu era o único com sentido de ética no Eurogrupo.
Confiei cegamente em Tsipras. Fiz mal.
Ex-ministro das Finanças grego respondeu às acusações de que está a enriquecer à custa das conferências onde tem participado e publicou uma lista dos seus compromissos e dos honorários.
Então o homem não pode ser empreendedor e ganhar a vida? É obrigado a fazer voto de pobreza? Mas ele está a enganar alguém? Está a explorar os que menos têm? Criticam-no mais a ele que aos que vivem em Roma no meio de grande opulência, sendo que esses sim, fizeram voto de humildade, de pobreza...
O Varoufakis deve confundir a cabeça dos eurocratas: o homem diz que é marxista mas critica toda a História e terror dos marxistas, dos comunistas soviéticos e dos que ainda vivem nessa realidade (não é por acaso que não o topam); é contra a ruptura dos sistemas e a favor da mudança gradual; é a favor do capitalismo e do empreendorismo mas contra o imperialismo financeiro e ganancioso dos bancos; prefere os americanos e a mentalidade americana aos europeus porque, como ele diz, com os americanos pode-se ter uma conversa ao contrário do que se passa com o eurogrupo que é um sistema fechado que ele compara em termos de dogmatismo, cegueira e poder à estrutura medieval que tentou travar o impulso da ciência; gosta de discutir e criticar ideias, inclusive as suas e rejeita a razão da autoridade em favor da autoridade da razão.
De facto, percebe-se a dificuldade que têm em lidar com ele... nem o conseguem encaixotar numa categoria, nem o conseguem subornar com o poder. Precisávamos de mais pessoas assim para fazer uma aliança que ultrapassasse as fronteiras nacionais e fosse uma força de mudança.
(e não, o PS em Portugal não é uma força de mudança, é a continuidade deste sistema)
Former finance minister Yanis Varoufakis on Greece’s economic crisis
Entrevista de Varoufakis à revista australiana, The Monthly, logo após o referendo mas só agora publicada.
(...)
"Para alguns, estes programas de austeridade são o trabalho de uma vida, o seu pequeno bebé. É como o Frankenstein: é um monstro mas é o teu monstro"
“É a forma de Schäuble conseguir extrair concessões da França e da Itália, é esse o jogo desde o início. O jogo é entre a Alemanha, França e a Itália”, avalia. “É uma estratégia para influenciar Paris e Roma, especialmente Paris, para aceitarem a criação de um modelo disciplinador e teutónico para a zona euro.”
Sobre os restantes peões neste jogo político, Varoufakis não tem grandes dúvidas: “É uma mistura de indiferença e interesses próprios. Para alguns destes, os programas de austeridade são o trabalho de uma vida, o seu pequeno bebé. É como o Frankenstein: é um monstro mas é o teu monstro. Têm as carreiras dependentes disto. Veja que o Poul Thomsen, que liderou o programa grego do lado do FMI entre 2010 e 2014, foi promovido a líder do departamento europeu do FMI por causa deste trabalho. Quando esta gente olha para os efeitos do que fizeram – como haver pessoas a procurar comida em caixotes do lixo e o desemprego explosivo – entram em funcionamento todos os seus mecanismos de auto-racionalização: ou dizem que não havia alternativa ou que a culpa é de quem não fez suficientes reformas.”
De salientar que Poul Thomsen, o premiado pelos programas de resgate na Grécia, foi também o líder da missão do FMI a Portugal, Fundo que também recebeu Vítor Gaspar, ex-ministro português, oferecendo-lhe um ordenado de 23 mil euros mensais livres de impostos.
Salários milionários dos técnicos. Além de Vítor Gaspar, a existência das troikas assegura também ordenados chorudos a centenas de “técnicos”, “consultores” e “especialistas” que orbitam à volta destas instituições. Disso mesmo deu conta Yannis Varoufakis na conversa com a “Monthly” agora publicada.
“Temos uma coisa chamada ‘Hellenic Financial Stability Facility’, uma ramificação do ‘European Financial Stability Facility’, fundo que recebeu 50 mil milhões para recapitalizar a banca grega. Este é dinheiro que os contribuintes gregos pediram emprestado para impulsionar a banca mas, enquanto ministro das Finanças, não me deixaram escolher o CEO e nem sequer podia participar nas relações do fundo com os bancos. O povo grego, que nos elegeu, não tinha assim qualquer controlo sobre como é que este dinheiro foi e é usado”, começa por apontar Varoufakis.
Depois de estudar a lei que criou estes mecanismos, “descobri que só tinha um poder sobre estes, que era o de determinar o salário desta gente. Percebi que os salários destes funcionários eram monstruosos para os padrões gregos. Num país com tanta fome e onde o salário mínimo foi cortado para 520 euros, esta gente ganhava qualquer coisa como 18 mil euros por mês”, revela.
Assim, “decidi exercer o meu único poder e usei uma regra muito simples: se as pensões e os salários caíram em média 40% desde o início da crise então decretei um corte de 40% nos salários destes funcionários. Mesmo assim ficavam com um salário elevadíssimo. Sabe o que aconteceu? Recebi uma carta da troika a dizer que a minha decisão tinha sido anulada pois não estava devidamente justificada. Ou seja, num país onde a troika insiste que as pessoas que vivem com 300 euros por mês devem viver com 100 euros por mês, recusaram o meu exercício de corte de despesas e anularam os meus poderes enquanto ministro para cortar os salários desta gente.”
Os problemas gregos. Na longa conversa tida com a “Monthly”, Varoufakis aborda também os problemas que levaram a Grécia até ao ponto actual. “Cleptocracia” é como o antigo ministro define o Estado grego.(...)
via msn finanças
'Só negociamos com pessoas de gravata que gostamos. Tirem-nos da frente essa pessoa que nos faz frente e nos critica porque não os suportamos e não estamos dispostos a ter que falar com eles [fazem-me lembrar uma ou duas pessoas que conheço que também usam prepotência para disfarçar a incompetência].
Naturalmente que herr Schlaube, depois de lhe ter dito na cara tantas vezes que havia de ter que engolir as palavras quando assinasse tudo como os outros [Irlanda, Portugal e Espanha] e queria ver como ia depois explicar ao povo que tinha assinado a austeridade, não quer agora perder a face diante dele e ter que encará-lo.
Que gente esta que manda em tantos países a partir das suas salinhas de chá...
Manobras defensivas são a alma do xadrez já que impedem catástrofes posicionais ou garantem a solidez de uma posição. Neste jogo do mundo a Alemanha joga com as brancas e há muito que convenceu os países da Europa a uma autofagia de peças cruciais. A Grécia joga com as pretas que como se sabe são a posição defensiva. Só que existem jogadores que são muito bons a jogar com as pretas: são inventivos, corajosos e tenazes.
A Grécia acaba de atingir a Alemanha num dos seus orgãos vitais: o sector energético. A Alemanha que era o distribuidor único do gás que vinha da Rússia (a Merkele negociou com a Rússia ter o monopólio da distribuição de gás na UE para lucrar à custa dos seus 'parceiros'), teve o primeiro golpe com a resposta de Putin à crise da Ucrânia (obrigou a Merkele a ir de urgência a Espanha negociar o gás) e agora leva o maior golpe que é a Grécia tomar o seu lugar de distribuidor de energia para a maioria dos países, o que equivale a ter-lhe comido duma só vez, um cavalo e uma torre, sendo que Tsipras jogou a rainha para defender os peões, o que é de valor!!
Varoufakis foi ter com Obama garantir o apoio dos EUA. Quem obriga a Grécia a estas manobras defensivas é a Alemanha que não aceita desobediências à sua autoridade de grande líder duma Europa autofágica ajoelhada.
A Grécia já cedeu e cedeu mas a Alemanha quer mais e só aceita a rendição total autofágica: despedimentos em massa (o que nós fizémos e agora temos uma fuga de portugueses para o enriquecimento da Alemanha e outros países do Norte), redução de salários (o que fizémos ao ponto de um engenheiro ganhar 500 euros e termos a economia parada sem poder de compra e com os outros países poderem vir cá buscar quem querem ao preço da chuva ácida), desmantelamento dos serviços públicos e das empresas públicas (o que também fizemos obedientemente e que nos deixou com a saúde e a educação de rastos e com as empresas públicas a serem vendidas por dois tostões) e sustento público das incompetência e ganâncias da banca (o que também fizémos). Enfim, uma austeridade autofágica imposta.
Tsipras e Vroufakis estão a jogar com as pretas e a manobrar defensivamente, isto é, a diversificar as suas possibilidades de crédito e de alianças, que é como quem diz, de sobrevivência, porque ninguém sobrevive sozinho neste planeta e a UE dos canibais parece querer empurrar a Grécia para a situação de estrangeiro, à deriva no Mediterrâneo, dependente da caridade dos ricos que assistem impávidos ao seu naufragar.
É contra isso que Tsipras luta e a luta dele é também a nossa se não queremos ser os pigs amestrados da Alemanha.
Três vivas para o Tsipras.
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