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A cidade

por beatriz j a, em 28.02.13

 

 

 

 

 

Yuri Pimenov's The New Moscow captured the city in 1937. (Estate of Georgy Ivanovich Pimenov/Rao, Moscow/Vaga, NY/Bridgeman Art Library)

publicado às 04:49


as coisas que amamos nos nossos amigos

por beatriz j a, em 05.03.10

 

 

Hoje comprei um livrinho naquele alfarrabista que tem banca montada aqui no Jumbo. É uma edicão de 1905 da Livraria Editora chamada Figuras Humanas de Alberto Pimentel. O tipo de livro que infelizmente já não se edita. O autor faz o elogio de uma vintena de figuras das letras, portuguesas e francesas. Algumas conheceu pessoalmente. Dessas, sobretudo das que eram suas amigas, traça um retrato intímo da pessoa com aquelas características e pequenas idiossincrasias que lhes eram peculiares e que as tornavam especiais e especialmente amadas e recordadas por seus amigos.

Gosto de apanhar estes livros porque, de repente, pessoas que até então eram apenas nomes de ruas, praças ou edifícios, ganham vida, personalidade e, num certo sentido, eternidade.

Deixo aqui a prosa (com a grafia da época), preciosa, do Alberto Pimentel sobre o Urbano de Castro.

 

"Tinham-me dito terça-feira:

- Sabes quem está muito mal?

- Quem?

- O Urbano de Castro.

Pensei em ir vêl-o no dia seguinte, esperançado, porém, em que pudesse haver exagêro n'esta informação pessimista.

Quem conta um conto acrescenta um ponto. De mais a mais, em questão de doenças, o Terror corre mais depressa do que a Esperança. É o medo da Morte que se espalha logo, e com razão, porque, a dizer a verdade, a Morte é a unica coisa séria da Vida.

Na quarta-feira, o dia amanheceu diluvioso. Lisboa foi lavada de alto a baixo por uma chuva torrencial. Dir-se-ia a sua primeira barrella hygienica depois dos suores do verão. Todos se aborreceram com esse dia insupportavel, mas ninguem protestou, porque Lisboa precisa muito mais de ser lavada do que a camisa negra de um saloio. Não sahi; tive medo á invernia.

É que, sejamos francos, vae chegando a hora das cautelas e dos resguardos. Começa a desmoronar-se a minha geração. Morreu outro dia esse bravo homem chamado Gomes Fernandes, que eu me lembro de ter visto apparecer no Porto pendurado n'um charuto, flor ao peito, moço, rico, feliz, fazendo sensação e espalhando sympathias. Morreu como um heroe; mas era forte e cahiu. Poucos dias depois morreu o Lino d'Assumpção, tão de repente, que toda a gente dizia ter-lhe falado ainda na véspera. Agora era o Urbano de Castro que estava doente. Não há duvida que é uma geração a desmoronar-se. Cautela, pois. E não sai de casa por causa da invernia.

Mas hontem, logo pela manhã, o dia parecia soffrivel: o sol queria romper por entre as nuvens. Almóço, saio logo, vou á rua de S. Bento, saber do Urbano.

- Talvez já esteja melhor, dizia comigo mesmo.

Chego ao prédio 343 e vejo um coupé á porta.

- Deve ser o medico; parece-me o trem do Curry Cabral.

Subo. Faço soar levemente a campainha.

Ha uma grande escuridão n'essa estreita escada de um predio antigo. Não vejo bem a pessoa que vem abrir-me a porta, mas pergunto:

- O senhor Urbano de Castro está melhor?

Faz-se um momento de pausa.

Depois, uma voz de homem responde com difficuldade, afogada em lagrimas:

- O senhor Urbano de Castro morreu ás tres horas da manhã.

Sinto uma vertigem. Agarro-me ao corrimão para não cahir. Parece que desaba sobre mim o peso de uma geração a desmoronar-se.

Desço a escada, cambaleando, encostando-me ás paredes. Na rua posso respirar melhor; a luz do sol, que descobriu, dá-me alguma coragem. Começo a pensar mais serenamente na morte e na vida d'esse Urbano, que vi a ultima vez ha quatro mezes, no Hotel Bragança, quando foi o jantar que o conselho da arte dramatica offereceu a Hintze Ribeiro.

E de repente acode-me a ideia de que tão certo é o predominio de um algarismo na existência de cada homem, que esse predominio está bem patente na vida e morte de Urbano de Castro.

O numero da sua porta começa por um trez e acaba por um trez:343.

Elle habitava no terceiro andar.

Dentro de pouco tempo devia completar 53 annos de idade.

Morreu no dia 6, duas vezes 3, ás 3 horas da manhã.

Assignalou-se como jornalista em trez gazetas de Lisboa: Jornal da Noite, Correio da Manhã e A Tarde.

Como poeta, a sua ultima poesia faz referência ás trez Parcas.

Finalmente, vae logo ser enterrado, no cemiterio dos Prazeres, ás trez horas da tarde.

Póde ser uma vesania, mas eu cada vez creio mais nessa mysteriosa arithmetica, na influencia de um certo algarismo, que preside aos destinos de qualquer homem.

(...) o numero trez presidiu ao seu destino.

Elle, em geral, não tinha apprehensões, era um corajoso.

Não houve ainda um homem fraco, que tivesse mais espirito do que elle, quer a palavra espirito se tome no sentido de coragem ou de humor.

Foi sempre um alegre com duas costellas de bohemio.(...)era excellente para dar um conselho em qualquer circumstancia difficil. Havia sempre um grande bom-senso na sua opinião. Via bem as questões, serenamente, lucidamente, e aconselhava com acerto. Depois, contava uma anedocta, recitava uns versos, queimva uma cigarrilha.

(...) Excellente conversador, scintillante de graça, Urbano de Castro, quando estava deante do grande publico, no parlamento, por exemplo, deixava fallar os outros e calava-se.

Ainda n'isto se contradizia mais uma vez.

Quizesse elle fallar, como queria escrever, e teria trumphado politicamente.

Como escriptor, foi desde rapaz um amigo dos classicos. Sabia-os de cór. (...)

Caracter diamantino, jámais se envolveu num mexerico, n'uma intriga, n'uma emboscada. Cortava a direito, dizia o que tinha a dizer. Combateu muitos homens na imprensa, mas sempre tão lealmente, que todos lhe faziam justiça e o respeitavam.

É por isso que a sua morte causou sensação em Lisboa.

Toda a gente dizia hontem:

- O pobre Urbano! Que pena morrer o Urbano!

E agora reparo eu que o seu proprio nome era composto de duas vezes trez letras.

Mais ainda. Este pobre Urbano, cuja morte todos lastimamos, valia trez homens: um bom escriptor, um bom jornalista e um bom conservador.

Está evidentemente provado que o numero trez o acompanhou sempre, na vida e na morte, _sempre. (Lisboa, 7-11-902)"

 

 

 

publicado às 16:10


Pipilotti Rist - Aujourd´Hui

por beatriz j a, em 14.11.09

 

Pipilotti Rist é uma artista que cria instalações cúbicas, em vídeo. O filme é projectado de modo a ocupar todo o espaço das paredes da sala, de modo que o efeito é de envolvência total. A maior parte delas são um inebriamento dos sentidos pela côr. Infelizmente nunca vi nenhuma in loco. Só em vídeos do youtube. Gosto muito de Pour Your Body Out.  A que aqui pus é uma das preferidas.

 

 

 

 

publicado às 09:32


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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