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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
.. ou autofágico...
Para ler um a seguir ao outro.
Acho mal esta greve, assim como acho mal as tentativas de inflamação das pessoas. Um povo maduro e de hábitos democráticos usa todos os mecanismos institucionais democráticos ao seu dispôr para melhorar a democracia e influenciar as decisões no sentido que considera correcto.
Estamos num momento grave da nossa História recente que requer virtude, união, coragem e determinação. Violência, greves e gritarias são demonstrações de impotência de quem baixou os braços. Lutar é não desistir de fazer os mecanismos funcionar, não é tirar um dia para gritar e ficar à espera que o poder-papá seja benevolente. É estar todos os dias no seu posto a perguntar, a vigiar, a mostrar as alternativas, denunciar os abusos, a incompetência, a incúria, a argumentar, sem desistir.
Os nossos problemas já não são nacionais, são trans-nacionais, são europeus. Que fazem as organizações desligadas umas das outras, porque não se juntam e pressionam o governo central?
Para que serve esta greve? Onde é que ela nos leva? Em que é que melhora o diálogo ou as condições de vida? Ter razões para protestar não dá mérito a qualquer forma de luta. Esta greve, sendo legítima é também inútil, ineficaz e desagregadora. É a voz da impotência que desistiu do seu poder de oposição para ganhos de populismo estéril. É por causa deste não funcionamento da democracia que depois as pessoas não acreditam nela e vão atrás de ualquer indivíduo que apareça a dizer que 'vai por ordem nisto'. É para isso que contribuem estes líderes de revoltas estéreis.
Em Túnis, poucos cafés reabriram as portas. No mercado central, podia-se ver barracas de frutas e legumes, mas as pessoas se queixavam dos preços altos. Sessenta pessoas se acotovelavam diante da única padaria aberta, mas isso não estragava o bom humor geral.
"Nossos filhos vão viver num país livre", dizia uma freguesa.
Há coisas que são mesmo culturais: quem é que aqui se imolava em frente a s. Bento por lhe tirarem uma banca de venda ou algo do género? Mais depressa lançavam fogo ao Parlamento. Mas suponho que a ausência de vida democrática a certa altura dê a ideia de que só os actos de desespero serão visíveis.
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