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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Porque a própria Europa se abandou a si mesma e aos seus valores e está dominada por grupos violentos. Grupos e 'lobbies' da banca, dos negócios e das finanças ligados às drogas, às armas e outros negócios violentos que exercem pressão sobre os políticos que por sua vez voltaram as costas ao povo para assegurarem que têm lugar à mesa.
Os valores da Europa que vinham sendo construídos desde o Iluminismo, eram, após a Segunda Guerra e, em parte por causa dela, o diálogo, a liberdade, a tolerância e o respeito pelas opções de vida pessoais de cada e a coisa pública: a educação pública, a saúde pública, o acesso à justiça para todos, a segurança social, o direito ao descanso depois de uma vida de trabalho, a repartição justa da riqueza, a igualdade de oportunidades, e outros serviços públicos promovidos segundo o princípio, não da acumulação do lucro a qualquer custo -ideia importada do Novo Mundo- mas da construção de uma sociedade mais justa e mais democrática, menos violenta, mais inclusiva, mais solidária.
Ora os jovens vêem-se hoje em dia a viver dentro duma sociedade sofisticada de tecnologia, bens e serviços, que os bombardeia até à exaustão com publicidade e aliciamento de ideias que fazem equivaler o sentido da vida ao sucesso e, este, ao dinheiro mas, à qual [sociedade de bens e serviços] não têm acesso, nem agora, nem nunca. E eles sabem disso...
Ninguém quer saber deles para nada. Nascem do lado errado da vida e estão tramados. É por isso que fogem daqui: porque os expulsaram e lhes disseram claramente que não há lugar para eles nesta Europa do lucro a qualquer custo. Esta não é a Europa dos valores que outros, no mundo, admiravam há décadas.
Perdeu-se a oportunidade de desenvolver e exportar um exemplo de modo de vida que não sacrifica as pessoas ao dinheiro. Em vez disso especializou-se em tornar a vida impossível para a geração mais jovem. E eles vão procurar um sentido de vida em lugares onde os aceitam, mesmo sem dinheiro.
Leio por aí em vários sítios que os que se queixam do acordo são radicais, são puristas, queriam a humilhação do inimigo e tal. Eu não enfio essa carapuça porque até fui das pessoas que não achou mal a iniciativa do PSD, na altura.
Quanto ao radicalismo, eu só me espanto com a diferença que um diazinho fez, como diz a música do Jamie Cullum, para que da pre-insurreição se passasse à oração.
Dia 7 havia estrangulamentos na carreira e isso era inaceitável pois até no tempo da outra só havia um e já nos queixávamos; com o acordo os estrangulamentos não acabaram - até há dois - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 as quotas eram inaceitáveis; era inaceitável que um professor com Bom desempenho tivesse que tirar senha como no talho e ficar à espera um ano, ou mais, para poder progredir na carreira; o acordo não altera isso - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 era inaceitável a avaliação burocrática; o acordo mantém a avaliação da outra, completamente burocrática com pedidos de muito bons e excelentes, etc., - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 era inaceitável que os professores fossem avaliados pelos pares, professores titulares que se ergueram sem mérito próprio, quanto mais para avaliar outros (que me perdoem os que são a excepção, que os há!). O acordo mantém isso e até piora, pois agora muito provavelmente nem aulas terão e serão apenas relatores, isto é, inspectores dos colegas - pois dia 8 isso já era aceitável;
Dia 7 parecia inaceitável que os coordenadores não fossem eleitos pelos departamentos - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 parecia inaceitável os directores não serem eleitos - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 parecia inaceitável que a avaliação fosse de dois em dois anos - dia 8 já era aceitável.
Dia 7 parecia inaceitável que se perdesse tanto tempo de serviço. O acordo não altera nada - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 era inaceitável o estatuto do aluno, com os prémios para faltosos e prevaricadores. O acordo mantém-no - mas dia 8 já era aceitável;
Dia 7 eram inaceitáveis as formações de professores à noite, pagas pelos próprios professores. O acordo nada altera - mas dia 8 já era aceitável.
É caso para dizer, What a difference a day makes.
Lá está, eu admito de bom grado que devo ser muito limitada, mas a verdade é que não vejo, UM ÚNICO benefício para a educação ou para os professores neste acordo. Calculo que para além de tapadinha ainda devo ser radical.
Música. Ora atente-se bem na letra que até parece feita de propósito para celebrar este romance entre sindicatos e governo.
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