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Para onde foram os professores?

por beatriz j a, em 06.03.15

 

 

 

 

Where Have All The Teachers Gone?

 

Nos EUA, país pioneiro da degradação da profissão de professor e de toda esta loucura de transformar a profissão num bode expiatório de políticos e políticas incompetentes, as consequências estão agora a ver-se: as escola de formação de professores não têm candidatos. As quedas na procura pela profissão ultrapassam, em alguns Estados, os 50% e são persistentes, quer dizer, vêm a agravar-se há anos de forma gradual mas persistente. E ninguém sabe o que fazer ou, melhor, sabem o que poderiam fazer mas não fazem porque as inércias levam tempo a inverter os movimentos e nestes últimos anos a tendência para usar a profissão como promoção e desresponsabilização de políticos é uma tentação que se mantém de vento em popa aliada às pseudo-teorias de pseudo-economistas ignorantes que defendem, por exemplo, que uma maneira de poupar dinheiro na profissão é massacrar [digo eu] os 'super-professores', como lhes chamam, oferencendo-lhes pagamento para que dêem aulas a turmas gigantes, diminuindo o número de professores e usando o dinheiro poupado em... outra coisa qualquer...

Em muitos Estados está já instituída a lógica do pagamento consoante as notas dos alunos e se acontece os alunos, num ano, terem más notas, o respectivo professor vê o seu ordenado descrescer centenas de dólares - calculo as guerras dentro das escolas para assegurar privilégios de escolha de turmas... ... os professores metamorfoseados de educadores em predadores...

Depois, a regionalização da educação deu azo a um caos ou incoerência no equilíbrio da rede escolar.

Enfim, estamos aqui no rectângulo a imitar o fracasso das políticas dos outros e as consequências serão as mesmas. Por ora não se nota porque há uma crise grande no emprego e as pessoas 'vão a tudo' como se costuma dizer mas, quando a crise passar, ninguém quererá uma profissão tão machucada. Já agora os alunos nos dizem isso. É triste.

 

[Há outra vez grande discussão na escola por causa do contrato que o senhor C. fez com o Cambridge para sacar dinheiro aos alunos em certificados que não interessam nem ao menino Jesus, à custa da diminuição profissional dos professores de inglês. Parece que no ano passado o senhor C. pagou ao Cambridge mais de três milhões. Devem fartar-se de rir à custa dos portugueses porque três milhões pagavam o congelamento das carreiras e os cortes de salário. É que não só não se faz o que é essencial como se gasta o dinheiro em fogo de artifício]

 

 

publicado às 04:45


ser professora

por beatriz j a, em 19.07.11

 

 

 

Nunca mais chegam as férias. Ainda falta a segunda fase dos exames.

Se tivesse acabado de tirar o curso hoje de certeza que não iria para esta profissão. Não que esteja arrependida. Acabei por gostar muito mais do que alguma vez pensei quando resolvi ir dar aulas. Não sabia que gostava disto de trabalhar com adolescentes e isso. Mas se fosse hoje, com o modo como os professores são tratados e a profissão é agredida pelas autoridades, como se fosse uma vergonha e uma mancha ser professor, tenho a certeza que nunca a escolheria. Acho que a olharia -de fora- com receio. Acho isto triste. Que tenham transformado a profissão numa coisa de que as pessoas fogem a sete pés. E, no entanto, é uma profissão muito nobre. E gratificante, porque podemos efectivamente ajudar pessoas. É um serviço, que se presta, não só a pessoas individuais, mas ao país e à civilização em geral.

 

 

publicado às 21:42


profissão: professora

por beatriz j a, em 18.09.10

 

 

 

A maior parte dos adultos que conheço parte do princípio que só é professor -não universitário- quem não consegue sair de lá. Como sabem que é uma profissão cujo desgaste e stress não são compensados, pelo contrário, trabalha-se em ambientes degradados, sobrecarregados de exigências e com salário baixo relativamente a outros licenciados que exercem funções de técnicos superiores (excepto no último escalão) acham que ninguém quereria voluntariamente ficar em tal profissão tendo oportunidade de sair dela. Mais, acham que tendo-se a oportunidade de exercer dentro da escola cargos de poder que isentem de dar aulas, é o que se deve fazer. Não compreendem que haja pessoas que não têm apetência pelo poder e que só aceitam ou oferecem para os cargos quando pensam que podem fazer alguma diferença positiva.

Estão convencidos que os que ocupam esses cargos são os melhores. Assim, partem do princípio que os professores do básico e do secundário são todos incapazes, incultos e frustrados. Pensam que é uma espécie de inferno que só os maus suportam.

Se eu gostava de trabalhar com outras condições? Pois gostava. Se eu gostava de não ter de aturar os dislates de rodrigues, Lemos, Alçadas e Pedreiras? Pois gostava. Se eu trocava dar aulas por um gabinete? Não, não trocava - a não ser que estivesse cheio de livros e o trabalho fossem os livros. Acho que não se nasce professor, aprende-se a gostar, com o tempo, a experiência e os erros.

Eu gosto de dar aulas e acho que no geral faço alguma diferença positiva. Acredito convictamente que a evolução da Humanidade é possível e acredito na educação como instrumento priveligiado desse progresso. Acredito que faço parte duma corrente de pessoas que ao longo da História trabalha para esse fim. Sei que os alunos, nas idades em que os apanho, ainda são transformáveis. Não todos, mas alguns, tornam-se adultos conscientes, sensíveis, inteligentes, com pensamento crítico e horizontes mais alargados. É um prazer acompanhar e ser parte activa dessa transformação. Eu, e muitos milhares como eu, prestamos um serviço público na medida em que contribuimos para a evolução da sociedade.

Que outros não compreendam isso por entenderem o progresso social como sucesso no sentido de ganhar imenso dinheiro e aparecer na TV, não me afecta. Confesso que tenho um certo desprezo por esses que pensam que dar aulas é uma ocupação de gente que não soube ter sucesso.

Se eu quisesse ter sucesso nesse sentido de ganhar imenso dinheiro não tinha ido tirar um curso de Filosofia...  se voltasse atrás no tempo tirava-o outra vez. Não imagino a minha vida sem a companhia dos filósofos. Se tivesse que me dar apenas com gente que só vê o imediato material concreto, muitos deles tolinhos, acho que enlouquecia. O que mais revolta é ver a quantidade de ministros da educação que não acreditam na educação e que pensam que os que estão nela são os que não conseguiram o tal sucesso. Não é acaso as coisas estarem como estão.

 

publicado às 23:56


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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