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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Porque vemos que vêm em último lugar. Havia um hospital em Braga que tinha uma PPP com o grupo José de Mello Saúde e que na avaliação de qualidade que fazem aos hospitais ficou em primeiro lugar. Ora, isto quer dizer que estão a tratar bem os doentes, sendo que esse é objectivo de um hospital, não? Pois acabaram com essa PPP com prejuízo dos doentes. Depois anunciaram que iam fazer uma parceria com outro grupo. Depois afinal vai ser gerido pelo Estado. Agora querem proibir todas as PPP... não só parecem baratas tontas (não há aqui nenhum princípio de beneficio público orientador, antes pelo contrário) como mostram não estar a pensar no interesse dos doentes. Querem servir uma ideologia, mesmo à custa dos doentes. Nisto o Presidente tem razão, não se fazem leis para fechar portas e erguer muros -à Trump- mas para potencializar possibilidades. Nenhum governo é obrigado a fazer uma PPP se não é do interesse do Estado mas para isso não é preciso proibir. Isso é coisa de ideologia leninista... as pessoas, no meio disto, ficaram em último lugar. Se isso não fosse grave, quer dizer, percebermos que o benefício das pessoas não orienta a acção governativa era só absurdo e desinteligente.
Em 494 AEC o povo romano fez um dos mais imaginativos protestos da plebe contra as elites governantes jamais vistos. Uma longa coluna de famílias saiu da cidade em direcção ao Aventino, no que parecia uma evacuação total. Chegando lá, sentaram-se e assim permaneceram, sem violência mas sem se demoverem. Eram os pobres e destituídos que assim protestavam e recusavam o nexum.
O que era o nexum?
Os pobres estavam sobrecarregados com dívidas e fartos do tratamento arbitrário dado pelas autoridades. Procuravam reparação, justiça. Muitos tinham chegado ao ponto de terem como única possessão para pagar as dívidas, eles próprios: o seu trabalho e o seu corpo. Era assim que eram obrigados a entrar num sistema de escravatura de dívida, conhecida por nexum. Na presença de cinco testemunhas o prestamista pesava o dinheiro ou cobre a emprestar e dizia, 'Por tal soma de dinheiro és agora meu nexus, meu escravo'. Embora não perdesse os direitos cívicos, perdia a liberdade. O prestamista dramatizava o acordo acorrentando-o.
As pessoas aceitavam este 'arranjo' e só não concordavam com a brutalidade com que estes escravos eram tratados porque o credor-senhor tinha direito até a condenar o devedor à morte. Lívio conta a história de um homem velho que apareceu um dia no Forum, pálido, emaciado, andrajoso e desgrenhado, uma figura digna de piedade. Juntou-se uma multidão a ouvir a sua história: tinha sido um soldado de Roma, tinha comandado uma companhia e tinha servido o país com distinção. Como tinha chegado àquele estado? Ele contou:
Enquanto estava de serviço na guerra as minhas colheitas foram arruínadas por ataques de inimigos que queimaram toda a quinta. Tudo o que tinha, incluindo o gado. Nestas condições exigiram-me o pagamento de impostos. O resultado foi que que fiquei coberto de dívidas. Os juros do dinheiro emprestado aumentavam a dívida de modo que acabei por perder a terra que já tinha sido do meu pai e do meu avô antes dele. A ruína espalhou-se como uma infecção a tudo o que tinha. Finalmente, até o meu corpo foi tomado pelo meu credor e reduzido à escravatura - acabei na câmara da tortura...
A reforma desta lei só chegou em 326, por causa de um grande escândalo com um jovem de quem o credor quis abusar sexualmente.
Agora, o que quero dizer é que Portugal é o Nexus da Alemanha e da Troika. Amanhã o primeiro ministro vai ter com o nosso senhor-credor que já fez saber que Portugal não tem autorização para pagar a dívida nos seus termos. Terá que tudo perder, como o soldado romano e depois, terá que a pagar com Nexus, isto é, entregando-se para escravidão, ao seu senhor.
O relatório da OCDE (aqui) acusa Portugal de ser pouco generoso com os seus pobres, de não apoiar os jovens, de reservar os rendimentos para as famílias que mais têm e diz ainda que estas políticas de austeridade pagam-se muito mais tarde... coisa que bem já adivinhamos quando daqui a uma década não houver ninguém em Portugal para produzir e contribuir, nenhuma riqueza gerada porque 'a ruína se espalhou como uma infecção...'
No entanto, amanhã, lá vai o PPP ao beija-mão à imperatriz, declarar o nosso nexus à dívida a que os governos do Sócrates e outros nos acorrentaram e que estes não sabem negociar como homens livres.
(do blog 'correntes')
(sendo que do final de 2012 para cá houve cortes brutais nos salários e cataratas de despedimentos, a despesa com os salários estará agora ainda mais reduzida... quando os políticos vêm dizer que reconhecem os sacrifícios feitos por todos os portugueses, como ouvi ontem na TV estão a mentir descaradamente porque há um grupo de portugueses que não fez sacrifício algum, bem pelo contrário, viu os seus lucros e rendimentos aumentarem bastante... portanto, há uma grande maioria que está a fazer grandes sacrifícios e há uma pequena minoria -no 'conforto da Horta Seca'- que está a lucrar com isso.)
Passos diz que salários e pensões não regressam a valores de 2011
O primeiro-ministro afirmou que "não há condições" para manter o nível salarial de 2011
Pedro Passos Coelho dá o pescoço pelo Relvas mas deixa o ministro da Economia no cepo. Isto diz muito do tipo de pessoa que ele é.
Derrapagem de 280 milhões com as parcerias público-privadas
... e ainda não mexeu numa única parceria público-privada. E a gente a pagá-las.
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