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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Por Paulo Moura, no Cairo
Nas dezenas de checkpoints anteriores tínhamos conseguido passar, apesar de a presença de um estrangeiro no pequeno Daewoo vermelho de Ahmad suscitar grande excitação. Mas via-se logo que aquele era um checkpoint que se levava muito a sério. Eram dezenas de homens armados com paus e olhares a raiar a demência.
Depois de muita gritaria com Ahmad, o meu tradutor, pediram-me o passaporte, que alguém levou, fizeram-me sair do carro, para me revistarem. Um homem de gel no cabelo perguntou com a voz sinistra que deve ter aprendido em interrogatórios policiais: "O que veio fazer a este país, sir?" Depois surgiu alguém que gritava mais alto que todos, que me fez entrar para o banco traseiro do carro. Sentou-se no da frente e dois homens instalaram-se a meu lado. Um tinha um penso no nariz e outro sangrava da cabeça. Deram instruções a Ahmad para seguir por um labirinto de ruelas, através de um bairro escuro, cheio de homens armados com bastões e ferros. Silêncio no carro. À passagem, ouvi alguém dizer-me lá de fora, em inglês: "Eles vão matar-te."
(continua)
Esta crónica é do mesmo jornalista que escreveu o artigo sobre a criação de cães Serra da Estrela, em Dezembro passado. Esteve preso no Cairo. Confirma-se que tem bom olhar e escreve bem. É um prazer lê-lo.
Por Paulo Moura
Não há ninguém na serra. Basta subir da Covilhã para as Penhas da Saúde, e daí até à nave de Santo António, para que dos seres humanos desapareça qualquer vestígio. O nevão da noite fechou a estrada para a Torre, só é possível seguir em direcção a Manteigas, dobrando a curva do Covão da Ametade, onde nasce o Zêzere, em jorros do peito rochoso do Cântaro Magro, continuando pelo vale glaciar do rio, cavado por 20 mil anos de degelo.
A neve acentua os contornos dos pinheiros e das rochas, do matagal de fetos e giestas, das escarpas húmidas ensombrando a turfa de cervum, as imensidões de urze, argençana, orégãos e zimbro rasteiro, cobrindo tudo de estranhas tonalidades azuis e rosa. Ninguém. A temperatura desceu para os quatro graus negativos, as nuvens deslocam-se no céu a uma velocidade frenética.
Subindo de Manteigas para as Penhas Douradas, e daí acompanhando o vento rumo a Gouveia, cortando para Seia, e enveredando pelo Sabugueiro, experimenta-se a solidão altiva e soberana de um mundo inabitável. Um planeta onde a vida, há milénios extinta, ensaiasse agora um absurdo recomeço. Dá a impressão de que a serra foi abandonada. Corrompida no ancestral equilíbrio que dava aos homens também o seu lugar. E que dessa traição ela se vingou, abandonando os homens também.
(continua)
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