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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
São duas coisas diferentes, a realidade e o real. Com a linguagem, os números e as imagens construímos um real que fala sobre a realidade mas que é diferente dela. Assim, por exemplo, apesar das pautas com as más classificações estarem afixadas e todos poderem ver como foram más, esquecemo-nos disso porque o que ficou gravado na mente foram os gráficos de barrinhas coloridas com desvios padrão e inferências de normalidade. Assim se explica também o facto de Portugal estar já com uma realidade de endividamento e pobreza grave e isso ter passado despercebido porque o real simbólico dos números e da linguagem dos políticos e da TV nos diziam outra coisa.
Quem anda nos ministérios e nas escolas de 'ciências de educação' lida com o real -fabricam-no- mas não com a realidade. Qualquer professor sabe que quanto mais alunos tem uma turma, a partir duma certa quantidade razoável, mais difícil de torna trabalhar com ela e tudo exige o dobro do esforço com menores resultados, mas quem está longe da realidade e lida com os números diz calmamente que isso é o senso comum dos professores porque os números até mostram turmas pequenas a terem insucesso. O universo simbólico dos números, revestido depois pela linguagem constrói uma representação da realidade desfazada, que é a que persiste, porque a maior parte de nós não contacta com as realidades mas sim com o universo simbólico que interpreta essas realidades.
Esta diferença entre o real -que diz que os alunos são, teoricamente, crianças, seres em desenvolvimento e em fragilidade- e a realidade onde os alunos são crianças ou adolescentes ou jovens capazes de grandes crueldades, violência e maldades, torna o discurso dos professores (que estão imersos na realidade) e da tutela (imersa no real simbólico) incomensurável: enquanto uns falam de um universo os outros falam de outro e não se entendem, com prejuízo para a organização da realidade...
Outra grande fonte de problemas, penso, é a ideia de mérito, que é muito falaciosa. Eu, por exemplo, faço questão de dar exemplos de pessoas reais que conheço e venceram adversidades com mérito e estudaram vindo de meios desfavorecidos, para motivar os alunos e inculcar neles a ideia de que vale a pena o esforço, mas tenho plena consciência disto ser uma falácia.
Na verdade são muito poucos os que conseguem vencer certo tipos de maus começos de vida e não basta ter mérito: é preciso ter MUITO mérito. Talvez um em cada não sei quantos mil consiga.
A ideia de que os alunos se estudarem muito conseguem sempre, é errada. Nem sempre é possível vencer todas as resistências do meio. Por outro lado, a ideia contrária, que reina ao mesmo tempo que a do mérito - a ideia de que, por estarmos numa democracia todos termos direito a tudo do mesmo modo (se uns passam os outros também têm que passar, mesmo sem estudar; se uns são bons a educação física e têm boas notas os outros também têm direito a ter, etc.) é outra fonte -a oposta- dos mesmos problemas.
Ambas as ideias -que todos têm direito a tudo e que só quem tem mérito é que vence- embora contrárias, vigoram esquizofrenicamente ao mesmo tempo tornando impossível qualquer vector de orientação positivo que ajude os alunos, nomeadamente os que estão sós -sem famílias e contextos seguros e nutrientes- na sua luta por uma vida melhor.
Na realidade (não no real, onde tudo parece sempre possível e a igualdade de oportunidades até tem percentagens favoráveis com paletes de sucesso) o sistema é extremamente injusto e penalizador dos que, à partida, já vão com grandes desvantagens em termos de qualidade de vida e de esperança num futuro de dignidade.
Para nós professores que lidamos com os dois universos, pois que conhecemos muito bem a linguagem e os números do Real, mas estamos todos os dias imersos na Realidade é angustiante testemunhar a hipocrisia do sistema e sentirmo-nos impotentes para inverter a situação.
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