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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
L’acte XVIII des « gilets jaunes » a été marqué par des saccages, des heurts et 237 interpellations. Reportage au cœur de la manifestation sur les Champs-Elysées.
A 18ª semana dos «gilets jaunes» foi marcada por saques e agressões. Carros em chamas, lojas vandalizadas... os «gilets jaunes», não violentos, observam os black blocs que vieram para destruir. "Eu sou contra a violência mas a violência do Estado enraivece-me, diz um manifestante". "E depois, diz outro, só assim os media e Macron nos ouvem."
Uma nova vaga de violência que obrigou Macron a encurtar as suas férias de sky na estância La Mongie (Hautes-Pyrénées).
Depois de semanas de manifestações mais calmas algumas lojas deixaram de barricar as montras e entradas. Foi o suficiente. Os black blocs começaram por queimar um kiosque e depois atiraram-se ao restaurante Le Fouquet, símbolo da burguesia e destruiram porcelanas, queimaram as mesas postas e as cadeiras. Os «gilets jaunes» observavam sem intervir. De início não era assim e tentavam impedir os black blocs de agredir e vandalizar mas agora já não, 'faz 18 semanas que não nos ouvem', diz um deles. 'Dantes faziam-nos medo mas agora não. São eles quem faz isto avançar, nós somos demasiado pacifistas'.
É exactamente isso o que dizem agora muitos, 'Tomámos consciência que só nos ouvem quando partimos tudo e, às vezes, nem mesmo assim.' diz um director de um centro de lazer, de 37 anos. Isabelle, 60 anos, 'se fosse mais nova também ia à luta. É a violência do Estado a primeira violência, É ela que nos dá raiva'.
Lojas destruídas: Boss, Etam, Al-Jazeera Parfums, Nike, Swarovski, Bulgari, Longchamp, SFR... Jennifer, operária de 39 anos, vinda de Rouen para a manifestação diz que antes tentavam impedir a destruição mas que agora lhe é indiferente e quando viu Le Fouquet ser destruído, não ficou contente mas também não é contra.
Ana, uma carteira de 33 anos vinda de Toulouse é ainda mais directa, 'é genial que isto parta porque a burguesia está de tal maneira abrigada na sua bolha, que é preciso que tenha medo, fisicamente, pela sua segurança, para que ceda. Ficava contente de não ser preciso isto para obtermos a RIC [Référendum d’initiative citoyenne] e o resto mas não é possível'.
Os manifestantes cantam, «Macron, on vient te chercher chez toi». Martine, 60 anos e administrativo num hospital de Toulon felicita-se por não baixarem os braços e o seu marido diz, 'a certa altura é preciso exprimirmo-nos com força porque há 4 meses que isto dura e está tudo na mesma'.
Um grupo de à Châteauroux mobilizou-se e veio a paris, 'O nosso território está desertificado e os serviços públicos desapareceram. A maternidade, o comboio de Paris deixou de parar lá, para ver um oftalmologista temos que esperar um ano'.





Queimaram um banco. Isto foi no dia 16 de Março. A polícia disse ontem que está no fim das forças e já não aguenta. Os «gilets jaunes» já marcaram mais manifestações.
'É preciso partir tudo para que as pessoas sejam ouvidas?' Parece que sim. Em França as pessoas que compõem os «gilets jaunes» são aos milhares, não são imigrantes, são pessoas da classe média que suportam os desmandos do Estado com uma carga enorme de impostos, que são atirados para fora das cidades pelo preço da especulação das multinacionais abutres, que trabalham cada vez mais horas em piores condições para chegarem ao fim do mês sem dinheiro para pagar as contas, enquanto vêem a classe dos banqueiros, dos políticos e dos empresários enriquecer continuamente, mesmo com fraudes, burlas, esquemas de despedir milhares de pessoas para meter a mão no dinheiro dos seguros, etc. e tudo isto com o apoio dos políticos.
Por cá não é diferente. Fizémos uma revolução para acabar com um país onde meia dúzia de famílias governavam e se governavam no país. Não foi para isto que se fez a democracia, para avançar as carreiras das famílias dos políticos. Não trabalhamos cada vez mais e a ganhar menos para servir corruptos. Chamam-nos a pagar as burlas dos corruptos, a sustentar-lhes os esquemas de burla e depois somos atirados ao lixo pelo poder político com a maior das arrogâncias, enquanto se fecham na sua bolha de amigos e família e atribuem a si mesmo privilégios e mordomias de quem se serve do Estado e não de quem o serve. De facto, a certa altura é normal que as pessoas se perguntem, 'Mas é preciso partir isto tudo para que larguem a arrogância soberba e nos ouçam?'
Não é isto a democracia. Não foi para isto que se fez a revolução. E não, isto não é nem pode ser o normal funcionamento de uma democracia. Familiares na política? “É o funcionamento normal da democracia”. E a polémica é culpa das eleições, diz o PS. A democracia existe para fazer avançar a sociedade e não os familiares dos políticos que se servem do Estado para progredir nas suas vidas como se o país fosse seu feudo. A nossa democracia é governada, há muitos, muitos anos, por pessoas sem valores democráticos, sem respeito pelos trabalhadores e coniventes com os grandes burlões da banca e com incompetentes que espalham pelos cargos para poder fazer e desfazer o que querem à vontade sem nenhuma resistência. Este modo corrupto de fazer política espalhou-se pelas autarquias e por todo o lado.
As escolas, por exemplo, estão cheias de irmãos, primos, casados, filhos e cunhados que são um grande entrave a um trabalho sério e objectivo e uma grande promoção de medíocres. E quanto a isto mais não posso dizer para não arranjar chatices para a minha pessoa que já basta as que tenho há anos por causa deste sistema de feudo que se impregnou por todo o lado no país e com que não me conformo. Não foi para isto que se fez a democracia.
Qualquer dia também aqui se fará essa pergunta, 'É preciso partir tudo para sermos ouvidos?'.
É preciso mudar e melhorar o sistema democrático mas os nossos políticos vivem em circuito fechado e indiferentes à erosão que provocam, lenta mas inexoravelmente, no tecido democrático que assenta na confiança na benevolência, honestidade e tendência para a equidade das instituições.
Ainda agora fecharam os olhos aos advogados que estão na AR em conflito de interesses como fecham os olhos à pouca-vergonha dos familiares espalhados como um polvo por todos os cargos. E as ajudas de custo, e as faltas e os banqueiros e administradores que andam de cargo em cargo a estragar por onde passam. E ninguém é responsabilizado a não ser o coitado que não pagou 10 euros.
Qualquer dia também aqui se fará essa pergunta, 'É preciso partir tudo para sermos ouvidos?'.
Um livro que parece ser (pela crítica e entrevista ao autor) muito interessante acerca da Rússia de Putin.
Now, in 2018, in terms of coffee, it’s amazing. There’s coffee everywhere. It’s lovely. But then you turn on the TV and it’s pure propaganda. Quality of life and political repression have moved in a chiasmatic pattern — the higher the quality of life, the lower the level of political freedoms. Which is of course exactly the opposite of what was predicted by modernization theory or the neoliberal consensus or whatever. So actually I’m not Tom Friedman. Because it turns out you can have cappuccinos and political repression.
Yascha Mounk distingue em, The People vs. Democracy, a democracia do liberalismo. A democracia liberal, diz, tem duas componentes - 'democracia', um conjunto de instituições eleitorais vinculativas que traduzem efectivamente as visões populares em políticas públicas e, 'instituições liberais' que são aquelas que protegem efectivamente o Estado de Direito e garantem os direitos individuais aos cidadãos. Uma sociedade é uma democracia liberal se combina instituições democráticas e liberais. Segue-se que algumas sociedades podem ser democráticas mas não liberais ou liberais mas não democráticas.
Em seu entender, a essência do populismo está em oferecer soluções fáceis a problemas complexos, aproveitando-se do facto dos eleitores não querem ouvir dizer que o mundo é complexo e que não há soluções imediatas para os seus problemas. Face a políticos que não sabem, eles mesmos, lidar com um mundo cada vez mais complexo, os eleitores estão dispostos a votar em alguém que lhes prometa uma solução simples e imediata, como construir um muro, por exemplo.
Sendo a resposta de construir um muro, uma resposta simples, o facto de não ter sido adoptada há mais tempo só pode dever-se a uma conspiração dos inimigos do povo (políticos corruptos, agentes estrangeiros) donde a única solução passa por eleger um homem honesto e dar-lhe poder para interpretar a voz do povo, em vez de deixar falar o próprio povo. E é assim que as democracias se separam do liberalismo.
O liberalismo não democrático liga-se à ascensão da tecnocracia: especialistas, burocratas, lobistas, todos alimentam uma oligarquia que vai minando o liberalismo. Quando a tecnocracia se combina com a oligarquia, a influência dos eleitores começa a ser marginal e a mistura de ambas fertiliza o terreno para o populismo: é por as pessoas terem perdido a sua voz que o populista tem sucesso ao defender querer restaurar a sua voz. Segundo o autor, o populismo autoritário é a reação típica à oligarquia e à tecnocracia.
Acho que este livro responde ao artigo sobre a ascensão dos autocratas e ao ataque das democracias liberais: é que estas deixaram-se enredar numa tecnocracia oligárquica, em parte por os políticos serem pessoas muito ignorantes e impreparadas para estes problemas e não terem, nem políticas, nem visão, nem estofo para o mundo em que vivemos.
A crise na Filosofia não tem ajudado...
Durante um tempo, aqui em Portugal, pese embora todos os erros e extremismos próprios das revoluções, o 25 de Abril possibilitou o surgir de um Estado democrático e liberal - as instituições democráticas funcionavam e aos pouco instituiu-se a defesa dos direitos dos cidadãos. Infelizmente, aquilo que nos ajudou economicamente, a entrada na UE, também nos prejudicou politicamente na medida em que fomos, e somos, pressionados à conformidade com uma oligarquia tecnocrata que abriu caminho aos populismos e autocracias por não ter cumprido as expectativas e nos está a arrastar para o mesmo mal que ataca os outros.
No entanto, temos hoje mais noção destes perigos do que havia há 30, 40 ou 100 anos. Isso deve-se, penso, à universalização da educação e aos efeitos positivos da globalização. Há uma consciência dos perigos que a situação actual carrega, pese embora não pareça haver soluções.
Como é que se resolve este problema, segundo o autor? Com essa capacidade que a razão tem de ser objectiva, de querer compreender, de resistir aos populismos, de falarmos uns com os outros, de nos juntarmos e de lutarmos pelos nossos direitos e pelos nossos valores democráticos e liberais mesmo que impliquem sacrifício (segundo o autor, à medida que cresce a autocracia cada vez será mais difícil alguém tomar uma posição individual que a contrarie) pois os tempos estão difíceis e temos que saber erguer-nos à sua altura, nós o povo, já que as oligarquias cada vez menos nos representam.
post scriptum em três partes:
1ª, parece-me que a defesa da educação é a forma mais eficar de lutar contra os autocratas, os oligarcas, os tecnocratas e todos os que semeiam populismos. Um povo consciente e [filosoficamente] educado está mais preparado que um povo ignorante, sem defesas;
2ª, a luta dos professores é uma luta pelos direitos contra políticos submissos à oligarquia dos tecnocratas que nos arrastam para uma situação de apatia e desesperança na política, problema muito grave que já se vê há algum tempo no país e que ninguém aborda como se não existisse;
3ª o PCP mostrou, com a sua reacção negativa à iniciativa legislativa dos professores aquilo que é e sempre foi: um partido que defende a oligarquia como forma de governo e a marginalização da vontade popular.
“Nos gouvernements sont oligarchiques”
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(...) la démocratie ou « pouvoir du peuple » impose cette vérité paradoxale : pour qu’il y ait de la politique, et pas seulement de la domination, il faut présupposer un pouvoir qui ne s’identifie à aucune compétence exercée sur d’autres, qui est celui de n’importe qui. On n’est pas en démocratie simplement parce que le peuple est représenté par des députés, ou gouverné par des présidents élus, mais quand il existe des formes d’affirmation de ce pouvoir de personnes qui sont autonomes par rapport aux institutions de l’État.
(...)
Notre système repose sur une double légitimité. D’un côté, il y a un État de droit, avec un certain nombre de contraintes juridiques qui limitent les prérogatives du pouvoir et protègent les citoyens. Mais nos gouvernements sont oligarchiques : y siègent des politiciens de profession, de plus en plus liés au monde de la finance. Ils s’appuient sur l’avis d’experts qui naviguent entre monde des affaires, gouvernement et université, comme l’a montré exemplairement leur rôle dans la dérégulation libérale et la spéculation financière aux États-Unis. Le pouvoir de tous est accaparé par une petite minorité qui s’autoreproduit. Ce système réduit l’action démocratique au processus électoral, c’est-à-dire au choix entre des politiciens qui sont d’abord désignés par cette minorité en son sein. L’élection est deux choses en une : elle est la forme de reproduction de l’oligarchie gouvernante.
(...)
En tout état de cause, la démocratie est l’action commune au nom d’un pouvoir de pensée appartenant à tous. On ne peut la ramener au choix entre des opinions proposées. Le référendum n’est pas pour moi un modèle. Il prend sens dans des situations où il y a une décision à prendre sur des orientations collectives clairement énoncées. Partout où l’on gère des fantasmes, on peut s’attendre au pire.
(...)
La démocratie comme idée du pouvoir de tous peut disparaître, sous une forme douce, se dissoudre dans ces oligarchies tempérées que nous connaissons en Occident. Beaucoup d’éléments sont réunis pour cela : la pression croissante du gouvernement économique mondial, la réduction de la scène politique au concours pour le choix du dirigeant suprême, la tendance à criminaliser les mouvements sociaux, à ramener grèves et manifestations à des rituels strictement réglés, et à rejeter toute contestation des formes dominantes du côté du sabotage et du terrorisme, le consensus intellectuel antidémocratique croissant. Mais, du même coup, nos oligarchies n’ont pas besoin d’un parti unique, sur le modèle chinois, pour faire marcher le système. Les moyens de suppression doux peuvent aboutir à des résultats globalement comparables à ceux qu’obtiendra, de son côté, le communisme « libéralisé » de la Chine. Ce qui peut s’y opposer, c’est seulement une force de pensée et d’action autonomes par rapport aux agendas étatiques.
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