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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
... antes que venha aí a prisão da classificação da segunda fase dos exames porque assim que entrar de férias vou tirar a escola da cabeça.
'Metadiálogos' de Gregory Bateson é um dos meus livros preferidos e uso-me muito dele para certas aulas. São sete pequeninos diálogos entre um pai e uma filha, acerca de temas complexos, abordados de um modo extraordinariamente simples e elucidativo. Um dos que mais gosto é sobre o conceito de entropia e começa com a filha a perguntar ao pai, Papá, porque é que as coisas se desarrumam? (quem o quiser ler pode fazê-lo aqui).
Lembro-me sempre dele à conta das reformas da educação: é que na educação, é muito difícil construir e muito fácil destruir e, de há muitos anos para cá, de cada vez que se mexe, desarruma-se um pouco mais. Agora vem ai um grande desarrumo curricular. As escolas passam a definir 25% do currículo, no ensino básico, de certas disciplinas, a sua carga horária e até podem 'inventar' disciplinas. Isso seria muito bem não fosse o sistema directivo que está em vigor desde a Rodrigues. Um sistema indutor de vícios.
O que vai passar-se é o seguinte:
- as disciplinas com reforço vão ser aquelas que são objecto de avaliação externa e usadas como específicas para os cursos: Português, Matemática e História.
- A disciplina de Educação Cívica vai ser o que foi no passado: um tempo morto e inútil (como já foi no passado) que os directores vão usar para dar horários a pessoas à sua escolha (como já foi no passado). Educação Cívica devia ser uma prática de todas as disciplinas e da escola enquanto organização, associadas a uma ética de trabalho da qual os alunos aprenderiam por modelagem social e uma prática diária da vida quotidiana escolar e não uma disciplina à parte.
- Os 25% do currículo bem como as disciplinas que pode introduzir-se vão servir para dar horas aos amigos do chefe em projectos sem utilidade para alunos ou, até, que os prejudicam, como agora acontece.
- Entretanto as disciplinas que ficam desfalcadas de 25% do tempo, vão cumprir programas como e quando? Todos que sabem como as coisas são feitas nas escolas, as 'ideias', as experiências e achismos que por lá grassam, a ausência de colaboração entre professores, os amigos e os outros, etc, só podem assutar-se com mais esta -quadragésima?- reforma educativa.
O problema de se arrumar a partir de um conhecimento meramente conceptual das estruturas está em assumir uma certa ordem que não é correcta e acabar por desarrumar o que estava arrumado sem nenhum ganho. Um pouco como os médicos de há uns séculos que assumiam, conceptualmente, que se passavam certas dinâmicas no corpo e sangravam as pessoas até à morte, com a melhor das intenções. É assim que na educação se vai destruindo irresponsavelmente, o que levou muito tempo a construir.

Nessa conferência, o presidente do Conselho Científico do Iave afirmou que o Ministério da Educação (MEC) tem feito “a encomenda dos exames nacionais” com a indicação de que se deve “manter a estabilidade nos resultados” dos alunos “em relação aos anos anteriores, porque socialmente é difícil de explicar que as notas tenham grandes variações”. Isto, que já de si causaria perplexidade, foi acrescido de alguns pormenores sobre como alterar os resultados finais com recurso a pequenos “truques” técnicos. Disse ele: “Hoje temos um historial de cinco mil itens a Português, por exemplo. Se quero que haja notas altas é muito fácil. Pego numa ou em duas perguntas, substituo-as por outras, aparentemente semelhantes, e a minha expectativa em relação aos resultados dá um salto de cinco valores”. Mais adiante disse que “não é segredo para ninguém que as equipas do Iave que realizam os exames fazem uma estimativa de que resultados, em média, cada exame vai ter”. E não só “acertam em 95 % dos casos” como “conseguem fazer um exame para a nota que querem”. Dito assim, é espantoso: se os resultados fossem encomendados para se aproximarem de uma determinada nota, a equipa conseguiria “fabricar” exames à medida. E quando alguém, da assistência, comentou que seria “vão” o esforço de professores e instituições para melhorar os resultados de Física e Química quando estes dependeriam “de uma decisão política”, o presidente do Conselho Científico do Iave respondeu que valia a pena o esforço, até porque “a Sociedade Portuguesa de Física e a Sociedade Portuguesa de Química, com a colaboração do próprio Iave, têm tentado mudar essa situação, mesmo contra os pedidos políticos que têm sido feitos”.
Isto é um enorme escândalo e espero que alguém que tenha autoridade faça alguma coisa.
Então os exames, afinal, não servem para o rigor do ensino e melhoria da aprendizagem dos alunos mas para os políticos terem instrumentos de propaganda que os beneficiem? Se um político quer dizer que os bons resultados na educação se devem à sua pessoa mandar subir as notas dos exames mas se quiser, por exemplo, argumentos para denegrir professores para depois os despedir manda baixar 5 valores nas notas de exame? E o IAVE existe para manipular exames e fabricar notas? Então andamos a trabalhar, nós, professores e alunos, a trabalhar a sério e cheios de pressão às ordens de um Instituto de Avaliação sem profissionalismo, sem seriedade nem honra, sem rigor, sem nada... um conjunto de indivíduos que brincam com o trabalho e o destino dos outros? Pode acontecer o excelente trabalho de professores e alunos parecer um péssimo trabalho devido à intervenção caprichosa do deus ex-machina IAVE...?
Mais vale acabar com os exames... é que, pelo que se vê, é indiferente alunos e professores trabalharem para melhorar se as melhorias dependem do mood do político de serviço e dos funcionários do IAVE, entidade deus ex-machina, que são quem decide, artificialmente [literalmente, recorrendo a artifícios], se os resultados são bons ou maus.
.....
Adenda - publico o comentário muito pertinente de um leitor
De José Rosa a 17.05.2015 às 11.25
Ou seja, em quatro anos, o acompanhamento ao sector particular e cooperativo diminuiu 68,5%.
Os dados têm apontado que a prática de inflação de notas tem sido recorrente ao longo de anos, por isso, lembra José Calçada, há hoje muitas pessoas licenciadas, com mestrados e doutoramentos, que beneficiaram deste sistema. “A maior parte dessas coisas, mesmo que fossem infracções de natureza disciplinar, e certamente que o seriam, já passou. E o volume de anos e de pessoas implicadas tornam inoperacional qualquer tentativa de remedeio”, avalia.
Nos últimos quatro anos, o orçamento disponível teve uma redução de 8%, fixando-se nos 13,3 milhões de euros em 2013. Mas, no mesmo período, o número de inspectores caiu para menos de metade: De cerca de 400, passaram a ser 186 a 31 de Dezembro de 2013, segundo o relatório de actividades daquela entidade.
Está certo... à medida que aumentam as verbas que enterram nos colégios à custa das escolas públicas cada vez controlam menos o que lhe acontece... agora até querem que essas verbas não tenham que passar pelo TC... como é que gostam de dizer? Agilizar procedimentos?
Investigação da Universidade Nova conclui que avaliação dos docentes no secundário está mais ligada ao desempenho dos alunos no superior do que a nota das provas nacionais.
As notas que os estudantes conseguem ao longo do ensino secundário dizem mais sobre como vai ser o seu desempenho na universidade do que os resultados que têm nos exames nacionais. A conclusão é de Dino Alves, da School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa, que na sua tese de mestrado em Economia provou esta ligação. Os resultados, acredita o autor, podem ajudar as instituições de ensino superior a mudar o peso dado a cada uma das condições de acesso (atualmente a nota de exame pesa entre 35 a 50% na nota de candidatura).
No estudo Determinantes do Sucesso, o aluno de 24 anos analisou o percurso de 363 estudantes das licenciaturas de Economia e Gestão que entraram no ensino superior em 2009/10, com o objetivo de "prever o seu sucesso educativo". Para isso foram analisados dados como as áreas de estudo no secundário (Ciências ou Economia), o tipo de escola (pública ou privada), a nota no exame de Matemática (que é o específico para entrada nestes cursos) e o desempenho no curso superior.Dino Alves chegou à conclusão que "o resultado mais robusto era a correspondência entre a nota do secundário e a nota do superior".
No próximo ano lectivo
A nota da disciplina de Educação Física vai deixar de contar para a média final do ensino secundário e para a entrada na universidade já a partir do próximo ano lectivo.
Um despacho a formalizar a mudança será publicado em breve, revelou fonte da tutela. Introduzida em 2004 por David Justino, ministro da Educação no governo de Durão Barroso, a medida foi sempre muito contestada, por prejudicar alunos com pouca aptidão para o desporto.
"É uma medida positiva, porque vai libertar os alunos de uma pressão desnecessária", disse ao CM Albino Almeida, da Confederação Nacional de Associações de Pais (Confap).
Esta medida vem na linha do pensamento deste ministro: há duas disciplinas importantes, a matemática e o português (por esta ordem) e o resto é secundário.
O argumento da pouca aptidão para o desporto é válido para todas as disciplinas, nomeadamente as de formação geral, já que as outras são escolhidas. Um aluno pode ter pouca aptidão para o português, para a filosofia, para o inglês ou outra língua qualquer que é obrigado a ter.
Assim, pela mesma ordem de ideias, por que razão um aluno há-de ser prejudicado pela nota do inglês se não tem aptidão para as línguas?
Além disso, como todos os professores e alunos sabem, a esmagadora maioria dos alunos é beneficiada com a nota de educação física. É raríssimo um aluno não ter boas notas a educação física, geralmente acima da média das outras disciplinas.
No 10º ano, por exemplo, onde os alunos têm notas baixas relativamente ao que vinham habituados do básico e onde acabam o ano com médias bastante baixas, é a nota da educação física que costuma subir-lhes a média.
Deste modo só uma pequeníssima minoria de alunos, aqueles com médias de 18 e 19 (que não são mais que 1%) é que podem ser prejudicados pela nota de educação física. Eu digo prejudicados, mas não o são, porque são tão prejudicados pela nota da educação física como pela nota de outra disciplina qualquer para que não tenham aptidão.
O que se conclui daqui é que o ministro não tem nenhum pejo em prejudicar 98 ou 99% dos alunos para beneficiar 1 ou 2%.
Ponho-me a pensar porquê e até parece que ouço vozes do género, 'era o que faltava, alunos excelentes a matemática serem prejudicados por causa de não gostarem de ginástica'... não? Pois...devo estar enganada.
Das duas uma, ou a educação física é um disciplina importante na formação dos jovens e o Estado assume que quer participar activamente na saúde preventiva dos jovens, ou não é. Se é e, se temos as escolas equipadas para a prática desportiva, então não há razão para que se prejudique a quase totalidade dos alunos para agradar a 1%.
Se querem dar facilidades aos alunos então que se permita que cada aluno escolha, no 12º ano, uma cadeira da formação geral para não contar para a média final com vista a candidaturas à faculdade. Assim, 1% pode escolher não querer a educação física na média final sem prejudicar todos os outros 99%. Além disso, outros alunos podem escolher outras disciplinas da formação geral para que não tenham aptidão. Sempre é um bocadinho mais justo.
Hoje entreguei os testes à turma do 10º ano. Notas tão más, tão más, tão más...e no entanto é uma turma interessada e interessante. Participativos, curiosos...e nem sequer escrevem muito mal. Mas não estão habituados a escrever, a desenvolver uma ideia, a estudar...então põem-se a divagar nas respostas. Falam disto e daquilo sem objectividade nenhuma, alguns dão conselhos para a vida, do género, 'nunca devemos desistir de aprender e querer saber' e tal...ai, meu deus! Bem, fiz a correcção do teste, expliquei tudo o que tinham feito de errado e como deviam corrigir para melhorar, e disse-lhes que não era dramático, que têm o ano todo para melhorar, que os primeiros testes são sempre maus até se adaptarem. Mas estavam com uma carinha tão desiludida que fiquei com pena.
Depois à conversa com um colega sobre como é que os alunos chegam assim ao 10º ano ele dizia-me: opá, se desses aulas ao básico percebias que já não dá para puxar pelos miúdos ou dar-lhes notas reais. Acabávamos na lista negra dos que dão más notas ou dos que são impopulares e nunca mais progredíamos na carreira. Para além de que o castigo de fazer mil planos de recuperação cai em cima de nós.
As escolas precisam de um grande mudança de mentalidade sob pena de no futuro só termos incapazes no trabalho sem préstimo nenhum para o país.
Li que um estudo da Universidade de Lisboa (ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx) encontrou uma correlação entre o nível socio-económico dos alunos e o acesso aos cursos onde as notas de entrada são mais elevadas, concluindo que o acesso ao ensino superior «não é apenas uma questão de mérito». A questão está mal explicada, porque a correlação é entre o nível sócio-económico e o mérito. Não se retira mérito aos alunos que entram para medicina, pelo facto de serem oriundos de famílias onde os pais têm formação académica superior e condições económicas condizentes. O que o estudo mostra é que o mérito não floresce no vazio -a não ser em casos raros e excepcionais-, antes necessita de contexto culturalmente rico para se desenvolver.
O que acontece é que alunos mais ricos estão em colégios onde nada falta, em termos de qualidade de espaço, equipamentos, atenção dos professores e outros profissionais, etc. Também estão em escolas públicas, mas geralmente em zonas privilegiadas onde as famílias suprem as necessidades das escolas - mesmo que estejam em zonas mais modestas, aquilo que a escola pública não fornece aos filhos os pais compensam em casa, seja no ambiente, nas conversas, nas férias, nos filmes/livros/jogos que têm em casa, nas idas a museus, centros culturais, etc. Até noutras coisas mais básicas, como o espaço em casa, a privacidade, os contactos com meios diversificados enriquecidos. Um aluno destes que tenha problemas na matemática, tem pais que suprem as dificuldades, ou porque são da área, ou porque têm dinheiro para encontrar auxílio adequado. Quem diz a matemática diz a língua portuguesa ou outra disciplina.
Em contrapartida, alunos sem grandes posses, estão em escolas públicas,geralmente mais carenciadas, com falta de pessoal, falta de recursos (os recursos técnicos são de extrema importância para o contacto e incentivo ao estudo de certas ciências, e as escolas sem laboratórios, por exemplo, estão reduzidas a aulas de papel e caneta), professores com alunos em excesso, desmotivados por chefias incompetentes nas direcções regionais e no ministério, falta de segurança, condições de trabalho execráveis, etc. Depois de um dia de aulas numa escola sem condições, onde se sentem perdidos no meio de turmas enormes estes alunos regressam a casa, muitas vezes para ajudarem os pais nas tarefas da casa com irmãos mais novos, para quartos sem privacidade, num espaço degradado sem qualidade de vida, sem acesso a um ambiente culturalmente adequado ao desenvolvimento de interesses científicos ou culturais, sem pais capazes de os ajudar nas dificuldades.
A verdade é que o mérito não é uma capacidade inata, mas um conjunto de capacidades ou disposições ou talentos que se desenvolvem em ambiente propício - e o ambiente das classes mais favorecidas é propício.
É claro que, se as escolas públicas tivessem boas condições materiais e ambiente cultural de qualidade, poderiam colmatar as insuficiências das famílias. Se as turmas fossem pequenas de modo que os professores pudessem ter controlo e estabelecer laços de proximidade, não com um ou outro aluno ou turmas, mas com todos; saber das dificuldades de cada um, das potencialidades, dos interesses, das expectativas. Ter tempo para orientá-los, etc.; ter laboratórios e bibliotecas devidamente equipados; ter tempo para se actualizarem, para investigarem; terem funcionários em número suficiente para haver segurança, etc.
Este artigo não diz nada de novo a quem é professor. É claro que os alunos do colégio S. João de Brito, em Lisboa, no Restelo, estão sempre no 'top five' do ranking nacional. O escândalo era se não estivessem!
Em contrapartida, o que é excepcional é que a minha escola, num dos distritos mais pobres do país e cheia de alunos de classes desfavorecidas e ambientes muitíissimo complicados (como o bairro da Bela Vista) tenha, todos os anos, alunos a entrar em universidades onde o acesso obriga a notas bastante altas. O que prova que vale a pena investir na educação pública.
É certo que esses alunos cada vez são menos, à medida que o desinvestimento nas escolas públicas e a destruição dos seus professores progride. Mas podia não ser assim. É-o por escolha e decisão de quem nos governa.
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