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Extrema-direita existe no vocabulário desde há dois séculos e não se resume ao fascismo, termo que aparece em 1918.

O fascismo é uma forma de extrema-direita, pois como todas as extrema-direitas exige, no interior, uma regeneração da comunidade entendida como uma unidade orgânica e, no exterior, uma mudança na ordem geopolítica. Mas o fascismo participa da extrema-direita radical que quer ir mais longe até à criação de um 'homem novo', liberto de todos os traços da sociedade liberal forjada no séc. XIX.

Ultra-direita não tem nenhuma mais-valia ideológica. É um termo de origem policial que indica que se trata de um grupo de extrema-direita que utiliza a violência.

Direita-dura é um vocábulo não-histórico que se refere a uma direita radicalizada mas que não apresenta os dois pontos da extrema-direita citados.

Direita radical é uma expressão usada por investigadores que pensavam a expressão extrema-direita como demasiado polémica.

Nacional-populismo começou por qualificar os regimes latino-americanos mas depois abriu-se. Essa corrente que o abre pensa que o país está em decadência por causa das elites e vê o regime regenerado por um salvador em contacto directo com o povo através de referendos.

 

Nacional-populismo não é sinónimo de extrema-direita, pois no campo político como em outros há muitos projectos de Estado: realistas, totalitários, etc. É uma corrente da extrema-direita. É diferente de neopopulismo, termo que aparece na sequência do 11 de Setembro de 2001 e que afirma ser precisa uma governança autoritária, num quadro constitucional constante para preservar as liberdades dos europeus contra o novo fascismo que seria o islamismo.

 

Há várias correntes populistas. A comparação entre o fascismo e, mais ainda, o nazismo e os islamitas, é polémica porque os dois fenómenos não são racionalmente assimiláveis entre eles.

 

De onde vem a confusão?

Há dois níveis de resposta, um histórico e outro político. Historicamente, a extrema-direita aparece no século XIX que é o da edificação dos Estados-nação mas, também, das revoluções industriais, impérios coloniais e da primeira globalização económica. A extrema-direita é uma reacção a essas transformações, procurando construir uma sociedade homogénea a cada etapa da globalização. Essas dinâmicas do século XIX tornam difíceis a gestão das massas e o vocábulo extrema-direita enriquece-se de termos nesse período: nacionalismo (1798), nacionalidade(1825), imigração(1876), anti-semitismo(1879), racismo(1892), etnia(1896), xenofobia(1901), islamofobia(1910), europeísmo(1915)...

Nacional-populismo nasce da guerra de 1870, fascismo da guerra de 14-18, neopopulismo do 11 de Setembro de 2001, etc. Como o processo é complexo e a memória actual remonta, no máximo, até à 2ª Guerra mundial, tudo é esquecido e reduzido à equação, extrema-direita = regimes de extrema-direita dos anos 30-40 e, é aqui que surge o nível político.

 

Os 'pró' e os 'anti', extrema-direita, têm interesse em reduzi-la aos Estados fascistas e aos seus balanços genocídas: os 'pró' afirmam, 'é evidente que não temos nada a ver com esses regimes' (entre os intelectuais reacionários é de bom tom fazer troça do anti-fascismo de opereta) e os 'anti' afirmam que a escolha é entre eles e Auschwitz.

 

A extrema-direita, não é redutível, nem ao fascismo nem à ultra-direita, etc., mas também não é um simples soberanismo. O projecto de Salvini ou de Le Pen não é o de um Estado soberanista mas o de uma sociedade regenerada segundo os seus princípios.

 

Nicolas Lebourg, membro CEPEL - Centro de Estudos Políticos Latino-americanos da Universidade de Monpellier (tradução minha de excertos da entrevista do autor à revista marianne, nº1172)

 

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Segundo a categorização deste autor, Salazar seria um político da Direita-dura (radical mas sem exigência de regeneração interior/orgânica e exterior/geo-política) e o que hoje chamamos de neopopulista, pois defendia uma governança autoritária, num quadro constitucional constante para preservar as liberdades contra os comunistas que via como totalizadores, inimigos dos valores europeus.

 

Relativamente ao polémico museu, parece-me que está na altura de começar a fazê-lo, para que não se esqueça o que foi a ditadura. A maioria dos meus alunos sabe mais acerca dos Descobrimentos e da crise de 1383-85 que da época da Ditadura, apesar de terem avós ainda vivos, que a sofreram.

 

Muito já foi dito acerca da desadequação de o fazer na casa do próprio e de a transformar num local de culto ou de saudosismo e parece-me que não há mais a dizer sobre isso. Não sei onde seria melhor fazer o museu, mas penso que teria que ser numa cidade para não correr o risco de não ser visitado. Coimbra, onde Salazar deu aulas mas que é uma cidade universitária com personalidade própria, seria um bom sítio, por exemplo.

 

Penso que devia fazer-se um museu da Ditadura, mesmo com este nome de Ditadura, pois foi o nome que o regime escolheu para si mesmo (embora pudesse não chamar-se 'museu' mas, Centro de Interpretação, por exemplo, ou outro nome qualquer que se considerasse adequado), que incluísse as várias fases do Estado Novo, que tiveram características diferentes, desde 1933 até 1974.

 

Nesse museu teria que estar explicado o processo político, a pessoa do Salazar que marcou a Ditadura, o policial, com os documentos que existem, que são muitos (apesar do Cunhal ter roubado muita coisa dos arquivos da PIDE), o militar com a Guerra do Ultramar, e o económico/social.

 

 Parece-me que já há distância suficiente para começar a reunir documentos, classificá-los, mostrá-los e fazer uma pedagogia da Ditadura. Teria de ser um museu com vários núcelos e em construção porque havendo já alguma distância da época, ainda é pouca e muito ainda está por saber e perceber.

 

publicado às 17:42


MAAT

por beatriz j a, em 06.10.16

 

Mais de 15 mil pessoas e uma enchente que fechou a ponte na inauguração do MAAT

 

Parece que o museu é bestial. Espero bem que sim, quer dizer, espero que a EDP tenha usado bem a riqueza que tem à nossa custa: que dezenas de anos de monopólio, electricidade cara e outros abusos ao menos resultem em algo que valha a pena ver. 

 

 

publicado às 05:28


fui às janelas verdes

por beatriz j a, em 12.06.10

 

 

 

 

 

Fui ao museu ver as Tapeçarias de Pastrana. São lindas, lindas, lindas. A que representa 'O Desembarque em Arzila' é a minha preferida. A perspectiva do observador é a de quem está dentro do navio a observar a cidade murada. Vêem-se os botes em direcção à costa e os soldados a descarregar. Vê-se o rei Afonso V rodeado de soldados. Vêem-se os mouros a espreitar por detrás das muralhas. Os estandartes das quinas, os mastros das caravelas, o cordame dos barcos, a expressão dos homens, as cores...aquilo é lindo. As outras também. Numa delas, a cota de malha das armaduras é dum realismo que parece trompe d'oeil.

A tapeçaria do Assalto é de extrema complexidade porque conta o próprio assalto às torres de Arzila. Impressionante. As espadas, os cavalos,os degolados...

Aproveitei para ver os Painéis de S. Vicente que estão expostos ao lado e que é sempre um prazer ver. O livro da exposição é caríssimo, mas traz reprodução dos panos em folha tripla desdobrável.

publicado às 18:33


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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