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Poesia ao entardecer

por beatriz j a, em 01.10.19

 

Miguel Torga,
Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.
.
in Diário X

 

outono na mata da albergaria, gerês por Cristovão

 

publicado às 18:36

 

 

 

«Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que, depois de cada  chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora sem pedir outros milagres que não sejam os de força e da fecundidade, provados à vista da infância, da juventude e da velhice. Um deus a quem se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidade de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original». (Miguel Torga, Diários, 1968)

 

 

Curta de Pedro Lino: aeon.co/film/terra-a-short-film-about-ox-fighting

 

publicado às 13:36


Poesia de Torga (do Duarte)

por beatriz j a, em 07.08.12

 

 

 

 

Alentejo!

Minha terra total!

Meu Portugal

Aberto,

Eternamente incerto

Nas fronteiras, no tempo e nas colheitas!

Minhas desfeitas

Praças fortificadas!

Minhas insatisfeitas

Correrias,

A contar no franzido das lavradas

As rugas tatuadas

No rosto dos meus dias...

 

Miguel Torga

 

publicado às 21:27


Poesia de Torga

por beatriz j a, em 25.06.12

 

 

 

 

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

publicado às 05:41


Hoje é o dia da poesia :)

por beatriz j a, em 21.03.12

 

 

 

 

Aos Poetas

 

 

 

Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.

Miguel Torga, in 'Odes'

 

 

publicado às 06:12


abril é o mês da poesia

por beatriz j a, em 14.04.11

 

 

 steven graber

 

 

 

Um Poema

 


Não tenhas medo, ouve:

 

É um poema

 

Um misto de oração e de feitiço...

 

Sem qualquer compromisso,

 

Ouve-o atentamente, de coração lavado.

 

 

Poderás decorá-lo

 

E rezá-lo

 

Ao deitar ao levantar,

 

ou nas restantes horas de tristeza.

 

Na segura certeza de que mal não te faz

 

E pode acontecer que te dê paz...

 


Miguel Torga, Diário XIII
 

publicado às 01:16


poesia de Miguel Torga

por beatriz j a, em 16.11.10

 

 

 

 

 

Prospecção

Não são pepitas de oiro que procuro.
Oiro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesoiro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto.

Miguel Torga


publicado às 20:27


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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