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Bolsas de mérito estão por pagar Ministério da Educação deve 6 milhões de euros a alunos do Ensino Superior relativos a 2400 bolsas de mérito. Último ano letivo pago foi 2011/12.


 

publicado às 14:42

 

 

 

Portugal é uma meritocracia ou a república da “cunha”, do nepotismo e do amiguismo?

 

“O discurso meritocrático nas empresas é muitas vezes um discurso ideológico, que visa encobrir práticas de clientelismo, familiar e político”, diz João Rosas. “Os exemplos são trágicos. É impressionante verificar como os mesmos nomes de família aparecem repetidamente nas administrações e lideranças. Nos conselhos gerais das empresas, chega a ser risível. Na EDP, por exemplo. Há pessoas que não fazem nada, e são muito bem pagas por isso. É uma forma de pagamento feito aos poderes familiares, políticos.”

 

Tudo se passa como se não houvesse forma de escapar a isso. As grandes empresas são obrigadas a trocar favores com as famílias poderosas e com os representantes do poder político, económico e financeiro, sob pena de verem a sua actividade prejudicada.

 

Segundo João Rosas, essa obrigação é muitas vezes fictícia. Não é real, mas mostra o medo e as dependências que regem a relação dos poderes, ao mais alto nível. “Acho que essas práticas não compensam, mas eles acreditam que sim. Acham que ficariam em desvantagem se não procedessem assim. Em Portugal, ainda há a convicção de que ter uma linha telefónica directa para o primeiro-ministro é uma grande vantagem. Mas talvez isso não seja verdade.”

 

Pelo sim, pelo não, grande parte das grandes empresas cumpre este ritual de promiscuidade. Por vezes em total contradição com a sua filosofia e práticas habituais abaixo das altas esferas.

(...)

ao nível de director, todas as grandes empresas empregam filhos de ministros, de presidentes.” Mesmo quando, em tudo o resto, funcionam segundo os mais elevados padrões meritocráticos. É o tributo a pagar por operar num país de tradição clientelar. “É preciso agradar ao poder político. Ao nível da elite, todos se conhecem e vivem da troca de favores.”

(...)

Frederico Cardoso, ele próprio quadro intermédio de uma grande empresa portuguesa, explica à Revista 2 como o problema está na circulação da informação. “Quem toma as decisões sobre pessoal, de promoções e atribuição de altos cargos, é a administração. Mas fá-lo segundo a informação que lhe chega e que é filtrada pelos quadros intermédios. Estes deturpam os dados, por forma a que nenhum resultado brilhante dos seus inferiores chegue ao conhecimento dos superiores.”

 

As lutas intestinas entre os quadros médios são ferozes. O aliado de hoje pode ser o inimigo de amanhã e vice-versa. “Alguns desses directores vieram de baixo, conquistaram um lugar muito razoável em termos financeiros e de prestígio e não estão dispostos a perder isso. Fazem o que for preciso para manter a sua posição. Na nossa empresa, não há avaliações credíveis. A única forma de ascender é através do relacionamento pessoal com algum administrador. Todos lutam por esse acesso e contra a possibilidade que outros o obtenham.”

 

Se, nos níveis inferiores da empresa, surge alguém com capacidades extraordinárias, “encostam-no logo. O que ele tem de fazer é sair para outra empresa ou montar a sua”. A menos que beneficie de uma das experiências, que foram feitas na empresa, de promoções em ziguezague, em que a ascensão se faz sempre para outro departamento. No mesmo, é difícil ultrapassar o superior imediato sem sofrer represálias.

 

Teresa não se recorda de quando começou a almoçar sozinha. De início, dava-se com toda a gente, mas, quando os grupos se começaram a formar, ela não ficou em nenhum. Essa situação não afectou o seu rendimento na empresa, apenas o seu bem-estar. “Não houve nenhuma situação de bullying ou assédio moral, nada disso”, disse à 2. “O que aconteceu foi que eu não estudara na mesma universidade de nenhum dos meus colegas. Também não era da mesma terra, nem tinha relação familiar com nenhum deles, como acontecia com alguns. Lentamente, naturalmente, afastei-me. Ou afastaram-me.”

 

Quando surgiu o despedimento colectivo de um terço dos trabalhadores, Teresa estava entre os escolhidos. “Entre os grupos próximos da direcção, ninguém foi despedido. Acharam que todos eles são indispensáveis, mas eu tenho a certeza de que foram influenciados pelas preferências pessoais. Não iam despedir os amigos. A mim, não se importaram de dar a notícia.”

 

Maria é professora do ensino secundário há 20 anos. Na expectativa de progredir na carreira, matriculou-se num curso de mestrado, que concluiu com média final de 18 valores. Mas entretanto as carreiras docentes foram congeladas. E as funções de mais interesse e responsabilidade existentes na escola são distribuídas pelo director de forma discricionária. Não se trata de ganhar mais dinheiro, mas apenas de cargos, como o de coordenador de departamento ou de projectos do conselho pedagógico, que conferem prestígio e um quotidiano mais estimulante. Pois todos os anos o director atribui esses cargos a quem quer, sem ter em conta o facto de alguns colegas terem mestrados ou doutoramentos. “A formação que fizemos, totalmente à nossa custa, não conta para nada. Apenas conta a opinião do director, que se baseia nas suas simpatias pessoais”, diz Maria. Dantes, os directores das escolas eram eleitos, bem como os titulares de cargos de chefia. Agora, o director é nomeado, e ele próprio nomeia. “Não há legislação nenhuma que diga que deveriam ser escolhidas as pessoas de acordo com a sua formação. Por isso o director faz o que quer. Distribui os melhores cargos, os melhores horários, as melhores turmas pelos seus amigos. É claro que quem quer ter uma vida um pouco melhor tenta fazer-se amigo do director.”

 

Num contexto de compreensão das tramas sociais relevantes, as pessoas traçam as suas estratégias de ascensão ou sobrevivência, o que é normal, considera o presidente da CReSAP. Admite que essas estratégias nem sempre estão imbuídas da desejável nobreza ou rigor moral. Talvez se tenha aperfeiçoado um mecanismo que consiste na união solidária dos medíocres, para impedirem os mais competentes e originais de emergir. “Essas estratégias existem”, mas em última análise integram-se nas chamadas soft skills.

 

Catarina, professora de Psicologia, foi convidada para trabalhar num grande hospital privado pertencente a uma instituição religiosa. Como lidava com muitos casos de obesidade, dedicou-se ao estudo dessa área, incluindo a investigação para a sua tese de doutoramento. Abriu um serviço de consultas de psicologia de obesidade no hospital.

 

Como teve muito êxito, e as consultas eram pagas à hora, o hospital propôs-lhe pagar um salário fixo, ainda que sob regime de recibos verdes. Durante dois anos, Catarina cumpriu horários, desenvolveu um serviço de tão grande sucesso que, em 2008, a direcção do hospital lhe apresentou uma outra psicóloga, para a ajudar, em regime de estágio profissional.

 

Passaram a ser duas psicólogas, embora Catarina fosse considerada a responsável, assinando todos os documentos, etc. A estagiária era no entanto sobrinha do director clínico do hospital e filha de médicos ligados à instituição religiosa proprietária do hospital. “Dê cumprimentos aos seus pais”, ouvia-se frequentemente nos corredores, à passagem da estagiária.

Um dia, em 2011, Catarina foi chamada de súbito à direcção, para ser informada de que, devido aos cortes orçamentais, decidira-se reduzir a equipa de psicólogos para um elemento, e a escolhida fora a estagiária. Catarina ficou em choque. Reagiu emocionalmente (demasiado, acha hoje), pensou que fora ela a construir todo o serviço, chorou. Nem teve tempo para protestar, ouviu apenas: “Sinto muito, a decisão está tomada.”

 

 

publicado às 09:44


a Realidade não é o real

por beatriz j a, em 21.07.10

 

 

São duas coisas diferentes, a realidade e o real. Com a linguagem, os números e as imagens construímos um real que fala sobre a realidade mas que é diferente dela. Assim, por exemplo, apesar das pautas com as más classificações estarem afixadas e todos poderem ver como foram más, esquecemo-nos disso porque o que ficou gravado na mente foram os gráficos de barrinhas coloridas com desvios padrão e inferências de normalidade. Assim se explica também o facto de Portugal estar já com uma realidade de endividamento e pobreza grave e isso ter passado despercebido porque o real simbólico dos números e da linguagem dos políticos e da TV nos diziam outra coisa.

Quem anda nos ministérios e nas escolas de 'ciências de educação' lida com o real -fabricam-no- mas não com a realidade. Qualquer professor sabe que quanto mais alunos tem uma turma, a partir duma certa quantidade razoável, mais difícil de torna trabalhar com ela e tudo exige o dobro do esforço com menores resultados, mas quem está longe da realidade e lida com os números diz calmamente que isso é o senso comum dos professores porque os números até mostram turmas pequenas a terem insucesso. O universo simbólico dos números, revestido depois pela linguagem constrói uma representação da realidade desfazada, que é a que persiste, porque a maior parte de nós não contacta com as realidades mas sim com o universo simbólico que interpreta essas realidades.

Esta diferença entre o real -que diz que os alunos são, teoricamente, crianças, seres em desenvolvimento e em fragilidade- e a realidade onde os alunos são crianças ou adolescentes ou jovens capazes de grandes crueldades, violência e maldades, torna o discurso dos professores (que estão imersos na realidade) e da tutela (imersa no real simbólico) incomensurável: enquanto uns falam de um universo os outros falam de outro e não se entendem, com prejuízo para a organização da realidade...

Outra grande fonte de problemas, penso, é a ideia de mérito, que é muito falaciosa. Eu, por exemplo, faço questão de dar exemplos de pessoas reais que conheço e venceram adversidades com mérito e estudaram vindo de meios desfavorecidos, para motivar os alunos e inculcar neles a ideia de que vale a pena o esforço, mas tenho plena consciência disto ser uma falácia.

Na verdade são muito poucos os que conseguem vencer certo tipos de maus começos de vida e não basta ter mérito: é preciso ter MUITO mérito. Talvez um em cada não sei quantos mil consiga.

A ideia de que os alunos se estudarem muito conseguem sempre, é errada. Nem sempre é possível vencer todas as resistências do meio. Por outro lado, a ideia contrária, que reina ao mesmo tempo que a do mérito - a ideia de que, por estarmos numa democracia todos termos direito a tudo do mesmo modo (se uns passam os outros também têm que passar, mesmo sem estudar; se uns são bons a educação física e têm boas notas os outros também têm direito a ter, etc.) é outra fonte -a oposta- dos mesmos problemas.

Ambas as ideias -que todos têm direito a tudo e que só quem tem mérito é que vence- embora contrárias, vigoram esquizofrenicamente ao mesmo tempo tornando impossível qualquer vector de orientação positivo que ajude os alunos, nomeadamente os que estão sós -sem famílias e contextos seguros e nutrientes- na sua luta por uma vida melhor.

Na realidade (não no real, onde tudo parece sempre possível e a igualdade de oportunidades até tem percentagens favoráveis com paletes de sucesso) o sistema é extremamente injusto e penalizador dos que, à partida, já vão com grandes desvantagens em termos de qualidade de vida e de esperança num futuro de dignidade.

Para nós professores que lidamos com os dois universos, pois que conhecemos muito bem a linguagem e os números do Real, mas estamos todos os dias imersos na Realidade é angustiante testemunhar a hipocrisia do sistema e sentirmo-nos impotentes para inverter a situação.

 

publicado às 22:59


avaliação e mérito

por beatriz j a, em 08.12.09

 

 

DN

 

OCDE diz que prémios associados à avaliação motivam professores

 Organização internacional comparou sistemas de vários países e considera que atribuição de recompensas, nomeadamente de natureza pecuniária, é uma forma eficaz de motivar os professores e melhorar a qualidade do ensino em geral

Formas “eficazes de avaliar e recompensar os professores”, nomeadamente através de prémios monetários, “podem ajudar a atrair e conservar pessoal docente de alta qualidade”.

A conclusão é da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que não deixa de avisar que “nenhum modelo se aplica a todos os países”, e que o sucesso destes programas depende sempre da consulta adequada dos parceiros, incluindo os professores e os sindicatos.

 

Não acredito nesta solução de dar dinheiro, nem na profissão de professor nem em outras, quando se trata de serviços públicos.

Aliás, viu-se o que aconteceu com os prémios na administração pública: como fomentaram a corrupçao e o compadrio e tiveram responsabilidade de leão em levar o país à ruína.

Nas escolas, foi o mesmo: deram-se prémios de títulos que correspondiam a dinheiro aos piores que andavam e andam nas escolas (que me perdoem as excepções, que existem), os que andavam nos últimos anos (sete) a apoiar as políticas do poder, os que andavam há anos e anos nos Conselhos Executivos por não terem lugar efectivo nas escolas e terem medo de ir parar a 'cascos de rolha', os que lá iam ficando por não gostar nada de dar aulas, os que aproveitaram não ter horários a cumprir nos CEs para irem tirar aqueles mestrados de tanga nas ESEs com orientadores e professores eles mesmos fugidos às escolas primárias e postos ali por não terem entrada noutros sítios, etc.

O resultado desses prémios está à vista: é essa gente que define as políticas nas escolas e em algumas dedicam-se exclusivamente a chatear e perseguir colegas. O que nas escolas as pessoas fizeram umas às outras pelo dinheiro que vinha com o título foi o pior legado da outra mulher.

E não venham dizer que se arranjaria um sistema de avaliação que detecteasse o mérito porque isso nunca acontecerá, a não ser como excepção e não como regra. Quem manda quer mandar e premeia os que o apoiam, e mais nada. É esse o critério.

Os lirismos que tenho lido sobre a avaliação, sobre as aulas assitidas e portfolios e entrevistas e avaliação tipo confissão auto-crítica entre colegas como se isse fizesse sobressair quem tem mérito...

 

 

publicado às 18:16


Rock in law - boas notícias

por beatriz j a, em 23.06.09

 

 

jornal SOL

Advogados cantam para ajudar grávidas em dificuldade
Sete das maiores sociedades de advogados no país juntam as vozes numa festa no BBC, em Belém, para ajudar a Casa de Santo António, instituição que apoia grávidas adolescentes em dificuldade. O Rock in Law é já esta quarta-feira pelas 22h e a entrada custa 20 euros
 

O evento espera a adesão de mais de 500 pessoas, com o objectivo de angariar fundos para a criação do primeiro Curso de Cozinha e Pastelaria que irá formar 15 mães adolescentes solteiras, apoiadas e acolhidas pela Casa de Santo António, permitindo-lhes o acesso ao mercado de trabalho.

 

Esta iniciativa pretende potenciar as instalações que a instituição já possui e será um contributo na luta contra o desemprego e contra a falta de perspectivas profissionais das jovens em causa.

 

Notícias encorajadoras. Iniciativas de mérito.

 

 

publicado às 18:23


As crises são horizontes de oportunidade?

por beatriz j a, em 23.03.09

 

 

 

Agora leio esta frase em tudo quanto é sítio. Já tive amigos a dizerem-me que até é uma sorte vivermos neste tempo porque já passámos por uma revolução e agora por esta crise que há-de ser um 'princípio de mudança', porque todas as crises são 'oportunidades de mudança' e é excitante e tal, e tal... Isto faz lembrar aqueles argumentos segundo os quais as guerras são momentos de grandes invenções em que o espírito humano se ultrapassa a si mesmo. Como se as invenções que se fazem durantes as guerras tornassem as guerras acontecimentos positivos, ou com uma faceta positiva! Como se, sem guerras, o espírito humano perdesse a capacidade inventiva, como se não fosse possível, e até desejável, que o espírito inventivo dos homens se volte para iniciativas pacíficas e geradoras de desenvolvimento positivo.

Dizer que esta crise é uma oportunidade de mudança, é dizer que não é possível ao Homem evitar que pavões incompetentes sem escrúpulos como o Sócrates, o Vítor Constâncio, a Mª Ludes Rodrigues, o Dias Loureiro, o Armando Vara, o João Rendeiro, o Oliveira e costa (e outros internacionais ainda maiores), etc., etc., etc., assaltem o poder e actuem como um tsunami, uma onda de destruição. Mais, é dizer que isso é inevitável e que até tem um lado positivo, que é o de gerar crises! Como se não fosse possível inovar sem as crises geradas pelos parasitas do sistema.

Os países estão, neste momento, como um organismo doente com SIDA, vulneráveis e sem defesas contra o vírus que se introduziu no sistema pela mão da classe política. As pessoas estão a ceder ao vírus, quer dizer, estão a empobrecer, a ficar sem os empregos, etc., e os mesmos que foram, e são, os vírus do sistema querem impigir-nos a ideia de que isso até é positivo? Estão a gozar?

Positivo era que os Constâncios e outros devolvessem os prémios de produtividade e afins que receberam neste últimos anos. Os prémios foram indevidos, as pessoas que os receberam não têm mérito, têm demérito.

Hoje leio nos jornais as empresas de têxteis a dizer que precisam de despedir pessoal para sobreviverem. Até pode ser verdade mas, antes de se despedirem trabalhadores que sempre trabalharam com mérito tem que despedir-se, e pedir os prémios de volta, todos os que à frente de cargos públicos e empresas públicas infectaram o sistema com doença mortal. Não o fazer é perpétuar no sistema os bichos que o corroem e matam.

 

 

 

publicado às 09:05


A educação e o mérito...

por beatriz j a, em 01.03.09

 

 

 

  

 

Li que um estudo da Universidade de Lisboa (ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx) encontrou uma correlação entre o nível socio-económico dos alunos e o acesso aos cursos onde as notas de entrada são mais elevadas, concluindo que o acesso ao ensino superior «não é apenas uma questão de mérito». A questão está mal explicada, porque a correlação é entre o nível sócio-económico e o mérito. Não se retira mérito aos alunos que entram para medicina, pelo facto de serem oriundos de famílias onde os pais têm formação académica superior e condições económicas condizentes. O que o estudo mostra é que o mérito não floresce no vazio -a não ser em casos raros e excepcionais-, antes necessita de contexto culturalmente rico para se desenvolver.

O que acontece é que alunos mais ricos estão em colégios onde nada falta, em termos de qualidade de espaço, equipamentos, atenção dos professores e outros profissionais, etc. Também estão em escolas públicas, mas geralmente em zonas privilegiadas onde as famílias suprem as necessidades das escolas - mesmo que estejam em zonas mais modestas, aquilo que a escola pública não fornece aos filhos os pais compensam em casa, seja no ambiente, nas conversas, nas férias, nos filmes/livros/jogos que têm em casa, nas idas a museus, centros culturais, etc. Até noutras coisas mais básicas, como o espaço em casa, a privacidade, os contactos com meios diversificados enriquecidos. Um aluno destes que tenha problemas na matemática, tem pais que suprem as dificuldades, ou porque são da área, ou porque têm dinheiro para encontrar auxílio adequado. Quem diz a matemática diz a língua portuguesa ou outra disciplina.

Em contrapartida, alunos sem grandes posses, estão em escolas públicas,geralmente mais carenciadas, com falta de pessoal, falta de recursos (os recursos técnicos são de extrema importância para o contacto e incentivo ao estudo de certas ciências, e as escolas sem laboratórios, por exemplo, estão reduzidas a aulas de papel e caneta), professores com alunos em excesso, desmotivados por chefias incompetentes nas direcções regionais e no ministério, falta de segurança, condições de trabalho execráveis, etc.  Depois de um dia de aulas numa escola sem condições, onde se sentem perdidos no meio de turmas enormes estes alunos regressam a casa, muitas vezes para ajudarem os pais nas tarefas da casa com irmãos mais novos, para quartos sem privacidade, num espaço degradado sem qualidade de vida, sem acesso a um ambiente culturalmente adequado ao desenvolvimento de interesses científicos ou culturais, sem pais capazes de os ajudar nas dificuldades.

A verdade é que o mérito não é uma capacidade inata, mas um conjunto de capacidades ou disposições ou talentos que se desenvolvem em ambiente propício - e o ambiente das classes mais favorecidas é propício.

É claro que, se as escolas públicas tivessem boas condições materiais e ambiente cultural de qualidade, poderiam colmatar as insuficiências das famílias. Se as turmas fossem pequenas de modo que os professores pudessem ter controlo e estabelecer laços de proximidade, não com um ou outro aluno ou turmas, mas com todos; saber das dificuldades de cada um, das potencialidades, dos interesses, das expectativas. Ter tempo para orientá-los, etc.; ter laboratórios e bibliotecas devidamente equipados; ter tempo para se actualizarem, para investigarem; terem funcionários em número suficiente para haver segurança, etc.

Este artigo não diz nada de novo a quem é professor. É claro que os alunos do colégio S. João de Brito, em Lisboa, no Restelo, estão sempre no 'top five' do ranking nacional. O escândalo era se não estivessem!

Em contrapartida, o que é excepcional é que a minha escola, num dos distritos mais pobres do país e cheia de alunos de classes desfavorecidas e ambientes muitíissimo complicados (como o bairro da Bela Vista) tenha, todos os anos, alunos a entrar em universidades onde o acesso obriga a notas bastante altas. O que prova que vale a pena investir na educação pública.

É certo que esses alunos cada vez são menos, à medida que o desinvestimento  nas escolas públicas e a destruição dos seus professores progride. Mas podia não ser assim. É-o por escolha e decisão de quem nos governa.

 

 

 

 

publicado às 17:43


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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