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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
by Joana Vasconcelos

El lagarto está llorando.
La lagarta está llorando.
El lagarto y la lagarta
con delantalitos blancos.
Han perdido sin querer
su anillo de desposados.
¡Ay, su anillito de plomo,
ay, su anillito plomado!
Un cielo grande y sin gente
monta en su globo a los pájaros.
El sol, capitán redondo,
lleva un chaleco de raso.
¡Miradlos qué viejos son!
¡Qué viejos son los lagartos!
¡Ay, cómo lloran y lloran,
¡ay! ¡ay! cómo están llorando!
A Adamson Editions produziu uma série de impressões a tinta de pigmento de desenhos de Joana Vasconcelos, retirados dos cadernos pessoais que a artista conserva cuidadosamente desde há duas décadas.
PRINTS JOANA VASCONCELOS

Os franceses, em geral, são dum machismo muito hipócrita. O 'Lustre' foi "censurado". Joana Vasconcelos apenas explica que lhe disseram que não se adequava ao local. Não ficou chocada porque não é a primeira vez que o seu lustre é recusado. "A Noiva tem o condão de ficar solteira", brinca mesmo, dizendo apenas que esta recusa prova que "há ainda muita coisa para fazer" enquanto o tampão for "um objeto vetado pela sociedade" e sinta que há "locais" onde "não é correto" ser apresentado, porque significa uma libertação da mulher.
O barão Roland de l'Espée, reagiu violentamente. "É a vez de Joana Vasconcelos, a rainha dos Tampax, caçarolas e outros utensílios irrisórios, de ridicularizar a mulher e impor as suas sujeiras ao nosso património mais prestigiado", escreve o barão num blogue. LLLOOOOLLLLL eheheheh

Fui ver a exposição da Joana Vasconcelos ao museu Berardo (só um aparte - não me interessa as razões que levaram este homem a coleccionar arte. O que sei é que a partilha com o povo,o que é mais que todos os outros que também a compram, às vezes com o nosso dinheiro, como no caso do BPN, mas que a guardam egoisticamente a sete chaves).
A exposição é extraordinária.
Todas as peças têm uma raíz portuguesa e partem do quotidiano mas universalizam-se, tanto na forma como no conteúdo. As peças são fortemente provocaticas e inequívocas, o que não é muito comum em de peças em instalação que às vezes requerem conhecimentos prévios e um estado de espírito muito próprio para se entrar dentro da mente do artista. Mas não aqui: o efeito e a compreensão são imediatos e fortes. As peças convocam o pensamento, o sentido de humor e os sentimentos. Todas as peças são excepcionais. Cheias de verdade. E ela tem um estilo muito original.
Gostei da peça 'strangers in the night', - o táxi que anda à noite no meio de outros carros, representados pelos faróis iluminados, pequenas luzes solitárias; gostei do sapato gigante que ao longe tem um brilho e um glamour que evoca o mundo da Marilyn Monroe e que alinal é todo feito de tachos e panelas - o outro lado do glamour feminino. Está genial. Gostei da cadeira, toda feita de aspirinas, perto da cama, toda feita de comprimidos para dormir - o dia e a noite do mundo contemporâneo. Gostei daquela espécie de câmara/cubo/montra com todos os objectos duma casa que mostram uma vida tipicamente portuguesa condensada nas coisas. É demonstrativa.
A matrafona gigante que faz lembrar os contos e os brinquedos da infância, toda feita de retalhos de tecidos, crochet, rendas e panos de cores e padrões portugueses que evocam a infância, de cores alegre e felizes, em contraste com a viúva negra logo à entrada.
Duas peças são muito impressionantes. A primeira é 'A Burka' - uma camada de tecidos (tecidos de feminilidade escondida, proibida) tapados com uma burka sobe lentamente numa grua e quando chega lá acima é largada e cai de borco, estatelada no chão, numa espécie de palco redondo. A primeira vez que se vê é chocante, porque é evidente que é atirada, como se fosse uma boneca de trapos sem valor nenhum, para a morte, depois duma vida de negação. É dramática, como uma pequena peça teatral trágica que se desenrola em um minuto diante de nós. É tão verdadeira que se vê nela, mais do que em mil livros, o que é ser uma dessas mulheres. Muito impressionante.
A outra chama-se 'perfeito coração', uma frase do poema do O'Neil cantado pela Amália. Entramos numa pequena sala redonda, toda negra (como o vestido e o xaile das fadistas e a cor do destino/fado) e lá dentro estão três corações gigantes, que rodam sobre si, daqueles que as minhotas usam em filigrana ao pescoço - um negro, outro vermelho e outro dourado. São feitos, incrivelmente, de garfos retorcidos. Ouvimos a Amália cantar a Gaivota do O'Neil. Fica-se imediatamente esmagado por aquele ambiente de fado assim que se entra. Convoca os sentimentos e é muito profundo e comovente.
Esta artista, que tem uma peça cheia de humor - uma lambreta com atrelado que na parte de trás está carregada de Nossas Senhoras de Fátimas luminosas daquelas mesmo pirosas- a mostrar o lado provinciano e kitsch de certa cultura portuguesa, depois agarra noutros objectos da cultura popular e com eles mostra a profundidade e a seriedade duma certa alma portuguesa na maneira como confere nobreza e sentimento aos corações.
A saída faz-se por uma instalação que é um jardim nocturno, em labirinto. Uma coisa mágica mesmo, com as flores luminosas a bordear o caminho da noite escura. Lindo.
A mulher tem uma imaginação, uma criatividade, uma capacidade de atirar com a verdade para cima de nós, umas vezes com humor, outras com o drama, mas sempre com inteligência, e beleza.
Tenho que ir ver a exposição outra vez.
Tirei umas fotografias com o telemóvel.
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