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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Fui à rua e entrei na tabacaria para ver se alguma revista ou jornal trazia algum artigo sobre o 25 de Novembro em ângulo novo ou com testemunhos inéditos. Nada. Nenhum jornal fala no assunto. É um não-assunto.
Não sou particularmente tradicionalista mas parece-me importante não deixar cair no esquecimento as datas, os acontecimentos e as pessoas que contribuiram positivamente para o presente em que estamos. Eu sei que temos um governo que gosta de definir-se como de esquerda (para o que lhe interessa) e que um dos elementos da coligação é o PCP, partido nada interessado em reviver o fim do sonho totalitário que tentou implantar no país mas, mesmo assim, um governo tem que pensar de modo nacional e não apenas e sempre só nos amigos.
Que país queremos ser de costa voltadas para a História?
Estive na Ajuda nesse dia, com uma das minhas irmãs. Estudávamos no Liceu D. João de Castro e fomos para lá a correr assim que se soube que, 'havia guerra na Ajuda e andava tudo aos tiros', segundo uma funcionária da escola. Não havia guerra mas houve tiros. Já uma vez contei aqui a minha experiência desse dia como o culminar de um ano de PREC dramático na minha vida e na da minha família de onde saí viva, mais por sorte que por vontade do COPCON. Não esqueço o 25 de Novembro. Obrigada, Jaime Neves!

(este texto, escrevi-o em 2009, no 25 de Novembro. Hoje quis re-publicá-lo em memória do Jaime Neves. Acrescentei algumas coisas)
11 de Março de 1975. Estávamos a viver no Alentejo numa herdade bastante grande (de que não eram proprietários. O meu pai era administrador) e eu e três das minhas irmãs estudávamos no Liceu de Évora, onde hoje é a Universidade.
Pela hora do almoço telefona-nos a minha mãe. Queria saber se estávamos todas bem. Tinha recebido um telefonema anónimo a perguntar se sabia de todos os filhos porque talvez alguns não chegassem vivos ao fim do dia. Ora, como somos sete irmãos e só dois estavam ainda em casa (o meu irmão mais velho estudava em Portalegre) a minha mãe tratou logo de nos contactar. Nesse dia fomos para casa. Havia uma revolução em curso e corriam os piores boatos no Alentejo.
Na semana seguinte voltámos para a escola.
Por esses dias era costume ver-ser o Pesarat Correia, que era o comandante da região militar sul, passear-se em Évora de botas de cano alto e pingalim na mão com ar de grande senhor, apesar de ser, dentro dos esquerdistas, um moderado. Foi um dos 9 do Conselho da Revolução que assinou o documento contra a transformação de Portugal numa espécie de satélite da então URSS. Mas em Évora andava como se fosse dono daquilo a mandar prender este e aquele.
Estava-se em pleno PREC (Processo Revolucionário Em Curso, para os mais novos). O Otelo, que era o chefe da segurança militar, mandava nos COPCONs - estrutura de comandos operacionais que andavam pelo Alentejo de metralhadora em punho a prender e aterrorizar pessoas.
Os telefonemas anónimos com ameaças de morte tornaram-se frequentes. O meu pai foi preso várias vezes. As acusações eram sempre as mesmas: era fascista ou lacaio do capitalismo ou contra-revolucionário ou as três coisas ao mesmo tempo.
Um dia, por exemplo, estávamos na Páscoa desse ano de 75 e a minha mãe resolveu ir a Arraiolos à igreja à adoração do Santíssimo (que acho que se faz na quinta ou sexta feira santa, não sei ao certo). Arrastou-me a mim e a uma amiga que passava férias comigo atrás dela para a Igreja. No dia seguinte aparece o COPCON com uma ordem de prisão para o meu pai por ter ido à noite a uma reunião de fascistas na Igreja. Nessas coisas o meu pai não discutia nunca. Ia preso e é claro que passado um dia libertavam-no, porque aquilo era só para massacrar, sabiam muito bem que não havia crime nenhum. Nesse dia a minha mãe meteu-se na conversa e disse que a ir alguém preso seria ela porque quem tinha ido à igreja tinho sido ela. Gerou-se a confusão (é preciso dizer que os COPCONs tinham sempre as metralhadoras apontadas) e nesse dia ninguém foi preso. Mas estes episódios tornaram-se frequentes.
A primeira vez que isso aconteceu foi num sábado ou domingo e estávamos a almoçar quando tocaram à porta. A minha mãe disse-me, meio a brincar, 'se for o COPCON diga que ainda não acabámos de almoçar' E era mesmo! Fui abrir a porta e dei com três COPCONs de G3 apontadas...
Às vezes, quando não tinham pessoal, os COPCONs mandavam a GNR ir prender o meu pai. Como eles conheciam muito bem o meu pai chegavam lá e pediam vinte vezes desculpa, dizendo que tinham que obedecer. É claro que nós sabíamos disso. Toda a gente andava com medo deles.
Passados poucos meses, na noite de 14 para 15 de Julho, prenderam-nos em casa, a mim (estava quase a fazer quinze anos), à minha mãe, aos meus dois irmão mais novos, um com oito anos outra com seis e a minha avó (o resto dos irmãos assim que terminaram a escola tinham saído do Alentejo) logo pela manhã.
Ao longo do dia juntaram umas centenas de pessoas das redondezas aos trabalhadores da herdade e estiveram em festa a beber todo o dia. Este era o modus operandi do PC: juntar muita gente e pô-los a beber. E, no caso desta herdade, como era de alguém muito falado no país, queriam tirar o máximo de ganho e de propaganda da expropriação da herdade, fazendo um julgamento popular com condenação e etc. Era tudo uma fantochada para TVs verem porque há muito que quem era dono da herdade tinha dito que se quisessem ficar com a herdade que ficassem. Mas isso não interessava ao Processo (estalinista) Revolucionário em Curso. Eu tinha acabado de ler há pouco tempo O Arquipélago do Gulag e reconhecia os métodos do PC nestes julgamentos populares, embora numa escala mais pequena. Naquela altura não era possivel não ser-se politizado.
Enfim, lá pelas 7 da tarde o COPCON do Otelo, que era quem comandava o circo, às ordens do PC da época, pôs o meu pai e um amigo (primo e representante do dono da herdade que estava ausente do país) em cima duma roulotte, candeeiros petromax à volta deles a dar um ar espectral à coisa, juntaram-se de armas apontadas à volta deles e começaram um 'julgamento popular' que durou cerca de 5 horas, em que só disseram parvoíces e gritaram as palavras de ordem do costume - 'abaixo o fascismo', 'morte aos fascistas', etc.
Eu e a minha mãe ouvíamos esta gritaria dentro de casa. Estive lá no meio dos trabalhadores, meio às escondidas (sai por uma janela e fui lá ver), e vi aquilo tudo, mas por pouco tempo. Uma das mulheres que lá estavam disse-me para me ir embora antes que me descobrissem, que aquilo estava muito perigoso. vi o meu pai e o tio Diogo em cima da roulotte com COPCONs à volta; os do PC é que faziam o teatro. Gritavam coisas do género, 'quem é que tem queixas deste fascista?'. como ninguém falava gritavam palavras de ordem e ameaças de morte.
O 'julgamento' não deu em nada, isto é, não conseguiram que alguém o acusasse. Acho que nas 'actas' ficou escrito que o meu pai, em quase 30 anos de trabalho tinha um dia deixado apodrecer uma saca de batatas.
Irritaram-se. Ainda gritaram 'fechem-nos em casa e peguem fogo à casa' para ver se pegava junto da populaça, mas não pegou. É preciso dizer que os trabalhadores da herdade, com excepção dos líderes comunistas, estavam assustados e revoltados com aquilo, mas presentes, porque tinham sido avisados que ou colaboravam ou eram despedidos. Aliás, a maior parte deles tinha avisado os meus pais às escondidas dos boatos acerca do que se estava a tramar. Mas estavam lá as centenas de comunistas e mirones trazidos de outros sítios ao longo do dia, de propósito para aumentar a confusao - que nestas coisas o Cunhal não brincava em serviço.
Lá pela meia noite e meia o meu pai entrou em casa com os COPCONs atrás. A minha mãe disse-me para acordar os meus dois irmãos e fazer uma mala à pressa que íamos embora. A minha avó saiu de ambulância. Eu, de mão dada com o meu irmão mais novo e a pequenina ao colo ( porque os meus pais andavam 'guardados à vista' pelos COPCONs que achavam que eles tinham alguma fortuna que iriam levar escondida...) esperei que me dessem ordem para entregar os miúdos à minha mãe, coisa que fiz com uma metralhadora apontada às costas. Depois meti-me na ambulância para a minha avó não ir sozinha.
Enfim, saímos de lá com vida, embora sem nada. A meio dessa noite, lá pelas onze horas eu e a minha mãe sentámo-nos na casa de jantar depois de ouvir gritos de 'queimem-nos lá dentro' e tal. A minha mãe achava que talvez não nos deixassem sair vivos. Pensámos uma maneira de poder fugir. Pelo mesmo sítio por onde tinha saído para ir lá abaixo ver o 'julgamento. Felizmente não foi preciso.
Ando a escrever as minhas memórias desses tempos do PREC. Os meus pais já morreram. O tal amigo que também foi julgado com o meu pai, também já morreu. Os meus irmãos eram demasiado pequenos para se lembrarem. A mais nova, por exemplo, fui eu quem a arrancou da cama já passava da meia noite e saiu de lá meio a dormir. Resto eu, para contar.
Enfim, o 25 de Novembro veio acabar com este estado de coisas mini-estalinista à portuguesa.
Quando foi o 25 de Novembro já eu estava a estudar em Lisboa, no Liceu D. João de Castro. As aulas foram interrompidas por notícias de revolução. Dizia-se que havia guerra entre os comandos do Jaime Neves e as tropas do COPCON. Eu e a minha irmã fomos a correr para a Ajuda. Ouviam-se tiros. Assisti àquilo tudo com enorme alegria.
Quem viveu o PREC no Alentejo percebe o que digo.
Obrigada, Jaime Neves.
Um dos responsáveis pela resistência vitoriosa à 'sovietização' do país. Lhe devemos. Não o esqueçamos.
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