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Por que foi tão pouca gente ao funeral de Soares?

É muito triste esta incapacidade de nos sentirmos em dívida para com os melhores de nós. E de lhes prestarmos o justo tributo enquanto tal.

 

Se calhar estão, mais uma vez, a pensar em circuito fechado, como políticos, com pressupostos de políticos. Se calhar estão tão divorciados do povo que não percebem que o endeusamento ad nauseam que estavam a fazer de Soares, em vez de ser um incentivo foi o oposto.

Se calhar as pessoas não se identificam com a exaltação de Soares a valores imortais, como os políticos lhe atribuíram nestes dias e se calahr vêm nisto tudo um espectáculo mais para proveito dos próprios que para homenagear o Soares.

Soares foi um lutador anti-ditadura (outros o foram e muitos anonimamente), teve um papel importante no travão do PC de Cunhal mas depois disso passou o resto da vida em cargos a promover-se uma boa vida e aos amigos e à família.

Era um tipo do partido e dos seus amigos acima de tudo e, mesmo não tendo sido um mau Presidente, não fez nada de extraordinário, foi um despesista e como primeiro-ministro foi muito mau... E toda a gente sabe isso. E ainda há a questão de África, de Macau, da doações de terrenos em Lisboa, e dinheiro, que o filho lhe deu porque ele queria uma Fundação... se calhar o tal povo tem uma visão realista dele e sabe que lhe deve uma parte por vivermos em liberdade mas não lhe reconhece nenhum heroísmo sacro. 

Ele não foi o único que fez estas coisas só que as fez com mais eficácia. Sabemos que os que combateram a ditadura acham que merecem subvenções, cargos e privilégios por causa desse passado e que por isso os distribuem entre si desde o 25 de Abril. É assim que têm reformas ao fim de oito anos nos cargos políticos e que são todos generais ou administradores de empresas públicas ou estão em altos cargos no Estado e nisso não há heroísmo.

É mais aquela velha lei, 'chegou a minha vez de estar na boa'. Só que o tal povo percebe que fica mais ou menos na mesma como estava. Com liberdade, sim, mas... e a riqueza? Foi para os políticos e amigos. E as consequências da corrupção de todos esses que vivem no, e, do Estado... quem é que a paga? Os mesmo do povo que já pagavam a da ditadura... então passamos uma esponja por isso tudo?

 

A mim parece-me que esta característica dos portugueses verem que as pessoas têm actos e atitudes heróicas e de grande valor mas não são heróis, é uma virtude e não um defeito porque à conta disso também não embarcam em demonizações.

No rescaldo do 25 de Abril, com a excepção de governantes e políticos (mais uma vez) que quiseram incentivar o povo ao ódio e alimentavam acções de vingança, de sabotagem, saneamento, as pessoas não desataram a matar PIDES, não destruiram todos os sítios e pessoas aliadas ao antigo regime, antes deram um exemplo de maturidade. Lá está, não embarcam em exageros emocionais a não ser por pessoas do povo com quem se identificam. Se os videntes de Fátima não fossem gente do povo ninguém os tinha seguido por muito que pregassem ter visto quarenta Nossas Senhoras...

 

Se é certo que não somos bons a conhecer a nossa História, quanto mais a promovê-la, porque tivémos muitos heróis nestes 800 anos, a verdade é que os heróis nunca foram os políticos e, os governantes dos últimos séculos só nos enterraram: uns venderam-nos aos espanhóis, outros aos ingleses, outros fugiram para o Brasil e deixaram-nos aqui entregues à nossa sorte... tivémos uma guerra civil porque um rei quis ficar nas praias do Brasil e reinar-nos à distância, através da filha se casar com o seu irmão; não souberam acabar com a monarquia sem matar o Rei e o filho, depois veio o caos político e saque do povo na 1ª República, depois o Salazar que podia ter sido um herói mas se transformou num carrasco, depois veio uma espécie de remake da primeira República, com saque e tudo, e agora estamos nesta situação de estarmos com a corda ao pescoço por causa da corrupção, da promiscuidade entre os políticos, a banca e as empresas públicas que nos roubam à descarada: estudar custa uma fortuna, a saúde uma fortuna... e querem que o povo os ache heróis?

Os heróis dos portugueses são os poetas: o Camões, o Bocage, o Torga, o Pessoa, a Florbela e todos os que os cantam. Depois são as pessoas do povo: os Eusébios, as Amálias e os Ronaldos que nunca negaram as suas origens. O Ronaldo anda com a mãe madeirense para todo o lado.

Na verdade, a última geração de governantes que teve um efeito geral positivo no país, foi a Inclita de quem sentimos orgulho. Daí para cá temos muitos heróis anónimos que estão por conhecer mas como as Humanidades estão em estado de abandono e desinvestimento...

 

Se calhar temos que reconhecer que apesar de termos tido portugueses com acções de muito valor, os heróis são as pessoas do povo que lhes aturam tudo -aos políticos e governantes- sem muitas revoluções e sem guilhotinas.

Se calhar não é à toa que a Portuguesao nosso Hino, que nasceu da revolta 'popular contra os ingleses e contra o governo português, que permitiu esse género de humilhação' diz, 'heróis do mar, nobre povo' e não, 'heróis do Paço e de São Bento, nobres políticos, banqueiros e governantes'.

 

 

publicado às 20:19


As cerimónias fúnebres de Mandela

por beatriz j a, em 15.12.13

 

 

 

Abri a Tv na CNN, fiquei a ver o funeral de Mandela. Pus-me aqui a pensar, 'quantas pessoas aguentariam cerimónias fúnebres desta envergadura -dez dias de discursos, marchas, cortejos militares, espectáculos televisionados, parada de chefes de estado, etc.- sem que se transformassem numa espécie de caricatura de si próprios, um pouco como no cinema, quando as demonstrações de tristeza e drama são tão exageradas e forçadas que perdem o tom de gravidade e se tornam desconfortavelmente trágico-cómicas?' Pois... muito poucas, parece-me.

 

E, o que é que ele tinha para aguentar incólume este excesso de comemoração sem degradação de imagem? Bem, pertenceu aquela espécie rara de pessoas que estão à altura das suas palavras e que, para usar a expressão de Kant, viveu verdadeiramente no 'reino dos fins', seja no modo como tratou os outros, seja no modo, que é ainda mais raro, como obrigou os outros a tratarem-no a si, devido a nunca comprometer a sua dignidade enquanto indivíduo pertencente ao 'reino dos fins'.

 

Nas suas acções, tanto as de luta contra o apartheid como depois na luta pela reconciliação, sem a qual teriam entrado numa feroz guerra civil em vez de terem entrado na democracia, comportou-se sempre como um líder de valores universais e não meramente locais. É por isso que qualquer pessoa, seja qual for a sua proveniência, situação ou condição consegue inspirar-se nele.

 

Há muitos chefes no mundo, mas raros são os líderes e, entre os líderes, muitíssimo mais raros são os líderes de espírito universal. Só esses provocam este, ainda que temporário, consenso de admiração e inspiração universais. Acho que era isto que ele tinha de diferente e especial.

 

A sua tribo enterrou-o com uma pele de leão! Uau!

 

publicado às 11:35


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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