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Está um belíssimo dia triste de Inverno

por beatriz j a, em 27.02.18

 

 

Já choveu bem. Agora cai uma chuva miudinha. Como são necessários, sem serem bons, estes dias mordacentos... músicas tristes que arrastam para as zonas mais sombrias, âncoras que desdobram rapidamente as correntes até pousar no solo fundo... ¿como perceber a luz se nunca se viveu a sombra... ou não fossem, a luz e as trevas, um dos dez pares da tábua dos opostos, princípios de toda a realidade, segundo Pitágoras, que segundo se conta, terá sido o primeiro a usar o termo, Filosofia.

 

DSC00205.JPG

 

publicado às 17:17


Blade Runner 2049

por beatriz j a, em 15.10.17

 

 

Ontem fui ver o filme. O Blade Runner original é um filme filosófico, este é um filme poético. Visualmente é lindo e a música, a evocar a de Vangelis mas mantendo uma originalidade própria (onde a outra é concava, esta é convexa) é dominante.

Tem cenas muito boas, como a cena de abertura com o agricultor, a cena no velho casino com o Elvis e os outros hologramas, por exemplo e, muitas outras mas, falta-lhe coerência, faltam-lhe os diálogos fantásticos do primeiro, a atmosfera vibrante das ruas onde, no filme original se conseguia criar um ambiente futurista credível e neste não, falta-lhe aqueles personagens secundários que acrescentam substância ao filme, desde logo os replicantes que aqui são quase todos unidimensionais... 

O filme está cheio de mulheres a aparecerem despidas do nada. Não se vê um único replicante masculino de prazer, só mulheres, com nomes como Joy e Luv que parecem pin-ups ou modelos das revistas de moda... o outro filme também tinha replicantes de prazer mas era uma coisa que elas faziam, não aquilo que eram, onde aqui serem esposa ou prostitutas é o que são e não o que fazem... até a relação dele com a Joi que podia ter sido interessante se explorasse aquilo de não poderem tocar-se como uma condição da solidão cada vez maior da vida urbana e o modo como nos ligamos emocionalmente a alteridades digitais, ficou estragada pelo ar piroso/degradante/adolescente-soft porno da(s) replicante(s), como se os homens também fossem seres unidimensionais, incapazes de evoluir desse imaginário emocional/sexual.

Depois, o filme podia, com benefício, ser mais conciso em vez de durar três horas, a querer ter uma grandiosidade que não se justifica. Tem cenas ridículas como aquela em que o H. Ford dá murros a K. numa pose totalmente colada ao Indiana Jones. 

Como não estava à espera de um filme à altura do original não fiquei desapontada, até porque o filme tem cenas tão bonitas, do ponto de vista estético -a árvore morta, aquele mundo de fornalhas e desperdícios de metal evocativo da revolução industrial, o muro gigantesco que separa L.A. das águas ameaçadores do mar, a cena com o agricultor, etc. São muitas, muitas...- que uma pessoa se entretém a admirá-las.

No entanto, é uma pena que não tenha tratado bem certas questões que deixa implícitas, como por exemplo, a questão de saber se os replicantes são humanos mecânicos ou se são os humanos que são meros mecanismos com imaginação, ideia que fica no ar quando percebemos que K. não tem a certeza de ser replicante ou algo mais humano (a ideia de todos querermos ser especiais e de que talvez a satisfação da vida não advenha da afirmação de sermos especiais mas de fazermos algo pelos outros, é o melhor diálogo do filme) e quando vemos aquele 'nascimento' no estúdio de Wallace. Também a ideia de intolerância e medo do que é diferente aflorada com a filha de K. que pode existir desde que separada de todos por uma parede de vidro transparente.

Enfim, o filme vê-se mais como um poema que se aprecia pela métrica, o ritmo e a beleza das palavras. Tem mais forma que conteúdo.

 

 

 

publicado às 10:26


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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