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Hoje era para ter ido ver o Viriato, às 13.45h. Na bilheteira avisaram-se que a hora do filme que enviaram para os jornais e que aparece na brochura está enganada. É às 11.30h da noite... um filme para 12 anos, só com uma sessão, quase à meia-noite. Isto faz sentido para alguém?

Enfim, vou ter que ir vê-lo a outro cinema. Acabei por ir ver o Joker.

 

O Joker é um filme parecido com o que eram os livros de quadradinhos quando os comprávamos, em miúdas: Gotham City é uma cidade suja, pobre, cheia de crime e de esquecidos da vida, com os governantes a quererem aproveitar-se para enriquecer à conta dos excluídos. Esses livros tinham muito de crítica social.

Como acontece estarmos numa época parecida com a época da era industrial antes da guerra, quando surgiam os reis desta e daquela indústria que exploravam trabalhadores para acumular grandes riquezas, o filme faz uma crítica social contemporânea.

 

Mostra o desinteresse de quem tem muito poder e dinheiro pela condição dos outros, a falência dos serviços públicos, o desespero de quem deles depende, juntamente com a decadência humana, a normalidade da violência doméstica e dos abusos de menores, as doenças mentais que estão ligadas à pobreza e o ressentimento da invisibilidade dos tais excluídos, pessoas solitárias sem contactos humanos positivos a viver em cidades duras, impiedosas, são vulcões à beira de explodir.

 

A cidade está filmada como um lugar de conflito, violência e loucura. Prisões de cimento intransponíveis. E o actor que faz de Joker é extraordinário. É preciso ter um lado muito negro e ser bem consciente dele para dar vida a este personagem. Conseguimos entrar um bocadinho na mente duma pessoa inteligente mas doente mental, que vive de fantasias a tentar encaixar-se num mundo que é tão doentio ou mais que ele. A maneira como os ruídos são intensificados, como cada pequeno contacto humano dá origem a fantasias e projecções descontroladas. A ausência de remorso e a energia que vem com o poder de deixar de sentir-se invisível e vítima. E a música a intensificar a violência.

Muito impressionante, o filme.

 

publicado às 18:24


Filmes - Once Upon A Time in Hollywood

por beatriz j a, em 27.08.19

 

Vi este filme. Vi-o um bocadinho de pé atrás porque não sou fã dos filmes do Tarentino, em geral. No entanto, por causa deste filme, mudei a minha opinião dele. Este filme é muito bom em vários níveis.

Em primeiro lugar para pessoas da minha idade ou por aí (ou entusiastas desta época) porque recria excelentemente o ambiente hippie dos anos 60 quando a cultura de filmes de cowboys ainda existia mas estava a desvanecer-se. Do ponto de vista da recriação da época é uma jóia. Uma cinematografia muito boa.

Depois, há o ponto de vista do realizador sobre o que era, e é, Hollywood em si e, o que é para a audiência que o glamoriza.

 

O filme tem várias camadas, sendo que a principal, a meu ver, é a relação entre o actor e o seu duplo (Di Caprio é o actor e Pitt o seu duplo) e o que ambos representam no imaginário de Hollywood. O actor que luta para não ser 'alguém que podia ter sido alguém', faz de herói nos filmes e fica com as garotas, a fama e o dinheiro mas o indivíduo que corresponde à personagem do imaginário do herói (o Marlboro man) é, na verdade, o seu duplo. Esse é que é um durão que faz as cenas difíceis, nos filmes e na vida real. Faz o que tem que ser feito, por assim dizer. Os actores são vaidosos, inseguros e choram por reconhecimento.

 

Como no filme Once Upon A Time In America de Sergio Leone, com o qual este se compara, não apenas no título (na música dos créditos finais) mas no subtexto, o durão, o que luta, faz o trabalho sujo, dá o corpo ao manifesto e se for preciso é violento e vai para a cadeia, passa despercebido ao lado do outro, o que se aproveita do seu trabalho e acaba nas luzes da ribalta, seja o actor, como neste filme, seja o político, como no outro filme. Certo tipo de heróis dos filmes de Hollywood, o bonzinho com ar de copo de leite que mata os maus todos, só existe na nossa imaginação infantil. Quem é capaz de matar todos é um assassino, capaz de muita violência. Essa é a realidade. A violência existe e é real e o caso do assassinato de Sharon Tate é um grande exemplo disso.

 

Há uma cena de violência no fim do filme que provoca o espectador porque sendo muito forte, não desencadeia o nosso mecanismo de censura (embora desencadeie a repulsa ou aversão) devido ao modo como é construída ao longo do filme. Não vou dizer para não estragar o filme a quem não viu mas essa cena põe-nos a nós, audiência, ou melhor, põe o nosso 'código moral', em questão. Nessa cena vemo-nos a nós próprios de maneira surpreendente e crua. Isso achei genial.

E no meio daquela violência extrema tem uma cena extremamente cómica do personagem actor que nos põe de volta no registo Hollywood do filme. Muito bom.

O filme ainda tem um nível de texto onde assistimos às dores, por assim dizer, próprias do fim de uma era, essas épocas de transição, causadoras de desequilíbrios e convulsões.

Hollywood é uma mentira e uma ilusão mas cria realidades para fora das suas fronteiras, dos seus bastidores e é por isso que importa muito.

Muito bons actores, não apenas no trabalho dos dois principais, que é excelente, mas dos outros todos que aparecem.

Muito bom, o filme. A única coisa que não gostei no filme foi a maneira como retrata o Bruce Lee. Niguém chega onde ele chegou num país e cultura de filmes tão 'brancos' como eram na época, sendo um impostor, um buffoon, como eles dizem. Esse óbvio preconceito estraga um bocado um filme que podia ser totalmente impecável.

 

 

publicado às 11:28


Ontem vi um filme tão estranho...

por beatriz j a, em 05.03.19

 

O filme é estranho e incomodativo. Não sei ao certo qual será o propósito do autor com o filme. Se era deixar-nos desconfortáveis durante todo o tempo que assistimos ao filme, consegui-o. 

 

Os personagens principais são uma mulher e um homem que têm o aspecto de ser algo entre o troll do Shrek e os nossos antepassados Neantherdais. Ela é funcionária da alfândega e, literalmente, cheira os culpados que fazem contrabando. Os colegas não questionam essa habilidade dela e aceitam-na. É muito introvertida e tenta levar uma vida normal mas tudo na vida dela é alienante excepto os momentos em que vai para a floresta contactar com a natureza e os animais, que são o que são sem enganos. Sabemos depois que sempre foi vítima de bullying. Ele é alguém que lhe aparece à frente e não estamos à espera. Há imensa coisa no filme que não estamos nada à espera e nos põe a pensar. 

 

Eu interpretei o filme como uma parábola acerca dos outsiders deste mundo, os que não se encaixam, os que são perseguidos, ostracizados, maltratados e abusados por serem diferentes, que sofrem por não conseguirem afirmar sua identidade no mundo, sendo que no fim, uns e outros têm uma escolha a fazer e uns escolhem viver na vingança através da afronta, da agressividade e da violência e outros escolhem o caminho da aceitação de si e do mundo, do perdão e do bem.

 

Aprende-se com o filme que faz pensar mas não posso dizer que foi uma experiência agradável vê-lo. Estive sempre com aquela sensação desconfortável de eles serem estranhos e não ser capaz de identificar-me. Outsiders, até para o espectador, pelo menos para esta de modo que estamos sempre a perceber o ponto de vista deles mas também dos outros que os acham estranhos.

 

 

publicado às 19:30


Filmes - Le Brio

por beatriz j a, em 02.03.19

 

Um filme cheio de clichés mas muito giro. Uma estudante de Direito de ascendência árabe do primeiro ano que começa mal logo na primeira aula mas que acaba por ter um papel fundamental na vida de um professor-star da faculdade Assas, de Paris, sem pachorra para fingimentos, cínico e um bocado mal educado mas brilhante que acaba a ensinar-lhe os 38 estratagemas de, 'A Arte de Ter Razão', de Schopenhauer para ela concorrer a um concurso de eloquência que ele espera lhe salve o emprego [dele]. Acaba por salvá-lo de outras maneiras. E ele a ela. Muito bem apanhado.

No início do filme, mesmo antes dos créditos tem uma série de excertos muito pequenos de menos de um minuto com personalidades francesas sobre a importância das palavras e da coragem de ir mais além do ócio.

 

( la seule chose que j'ai pas aimé dans les témoignages au début du filme c'ést Serge Gainsbourg, um homme stupide, brut socialement , intellectuellement et et même physiquement. Um type vraiment dégueulasse)

 

 

publicado às 22:20


Filmes - Leaves no trace

por beatriz j a, em 05.01.19

 

Um homem, que a certa altura percebemos ser um veterano de guerra, vive com a filha num parque florestal público de Portland. Vivem do que apanham na floresta, sempre a mudar de 'acampamento' como se tivessem que fugir de um inimigo. De vez em quando vai à cidade levantar os medicamentos para o seu SPT que vende para comprar gás propano e outros bens do género.

Um dia a filha é avistada no parque e a polícia aparece. Levam-nos para a cidade. Arranjam-lhes uma casa, trabalho para o pai, que não o quer. Pela primeira vez a rapariga, que terá uns 14 anos ou assim, percebe o que pode ser a sua vida.

Não vou contar o resto. Vou só dizer que este filme é um aviso aos pais para não condicionarem a vida dos filhos aos seus traumas e demónios interiores pessoais. Leave no Trace, não deixar rastos negativos porque a vida dos filhos não tem que ser a consequência dos problemas dos pais.

Gostei do filme. O pai e a filha muito bons nos respectivos papéis e fimado com muita sensibilidade.

 

 

publicado às 21:36


Filmes - Bohemian Rhapsody

por beatriz j a, em 07.11.18

 

 

Fui ver este filme. Saí do cinema irritada. O filme não é bom e não faz justiça à banda nem ao génio criativo que foi Freddy Mercury. Está cheio de clichés. Logo na primeira cena em que percebemos que ele está a entrar em palco para o concerto 'Live Aid' de 85 vislumbramos toda a estrutura do filme: voltar atrás e refazer a ascenção da banda até áquela apoteose - as drogas, os excessos e os manipuladores. Os outros da banda eram pessoas complexas, academicamente educadas (Brian May é um astrofísico...), muito criativas e aparecem aqui como básicas, tipo o vizinho do lado só que a saber tocar. O Freddy Mercury aparece como um cliché ambulante. Como é possível, um tipo que rebentava de criatividade, de força e talento por todos os poros...

E a maneira como mostram as suas auto-indulgências é escusadamente cruel... aquela cena em que se zangam porque o Freddy Mercury os ofende mesquinhamente para ir cantar a solo por dinheiro...? Calculo que seja verdade porque o Brian May e o Roger Taylor foram produtores e conselheiros de modo que a cena tem o seu aval, mas mesmo sendo verdade acho que a maneira como é posta não acrescenta nada de complexidade ao personagem, só pequenez. Bem... e é contada pela perspectiva deles que o Fredy Mercury já cá não está para defender-se. E a que propósito põem o actor a representar a participação deles no 'Live Aid' de 85? Porque não acabaram com a performance da banda mesma?

Este não é um filme com qualidade artística e a banda e o Freddy Mercury, sobretudo, mereciam melhor. Para quem é fã da banda o melhor mesmo é não ver o filme. Mais vale matar saudades da banda a ouvir as músicas.

 

 

 

publicado às 23:12


Sentimentos ambivalentes

por beatriz j a, em 28.09.18

 

 

... acerca deste filme, Woman Walks Ahead. O filme é sobre Catherine Weldon, uma pintora activista política nova-iorquina que vai sozinha para o Dakota lutar pela tribo dos Lakota Sioux com uma visão e argumentos do nosso tempo e não do dela e se torna amiga e confidente do chefe da tribo, o famoso Sitting Bull.

O filme é muito bonito. Filmado naquelas paisagens do Oeste americano, de planícies enormes com montanhas ao fundo e céus infinitos que dão uma atmosfera espiritual com a sua presença esmagadora e inalterável.

 

Também gostei que Sitting Bull não fosse representado da maneira simplista e unidimensional como os nativos americanos costumam ser retratados -ou bêbedos violentos ou sábios sentados a fumar cachimbo- mas aparecesse como um ser humano vivo e sofisticado.

 

Depois, e isso será o melhor do filme, os actores (ele é um nativo de uma tribo canadiana) tecem muito bem os fios da amizade e intimidade emocional que cresce entre eles, em parte por serem ambos -índios e mulheres- discriminados e maltratados pela sociedade violenta dos homens de então mas sobretudo por serem ambos pessoas extraordinárias habituadas a terem que sobreviver num mundo de gente vulgar com motivações vulgares.

 

O que chateia é que ela é retratada como sendo muito mais simples do que na realidade era e que a amizade deles tenha sido reduzida a essa parte emocional quando sabemos que ela era uma activista política convicta -divorciada e não viúva como aparece no filme- que viajou para o Oeste sozinha, determinada a lutar pelos direitos dos nativos americanos, era uma pessoa intelectualmente educada e a relação entre eles teve uma dimensão intelectual que falha no filme. E isso acho uma pena porque há milhares de mulheres extraordinárias que a História dos historiadores homens votou ao esquecimento, ao desprezo ou até à desvirtuação e quando a história de uma delas é contada chateia que não lhe dêem a dimensão que teve e merece.

 

Dito isto, o filme vale muito a pena ver. É um filme visualmente belo, instrutivo e comovente.

 

 

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publicado às 21:22


Filmes: 'The Children Act'

por beatriz j a, em 23.09.18

 

 

Fui ver este filme. Muito bom. Um filme que faz pensar e que faz que nos pensemos.  Li algumas críticas que acham mal tratado o final do caso rapaz com leucemia mas a mim parece-me que o filme não é, primeiramente, sobre esse assunto.

O filme é sobre uma juíza num tribunal de família em Londres. Ela é uma pessoa muito forte e determinada (está num meio tradicionalmente masculino), muito cerebral, focada no trabalho, conscienciosa mas algo distante, em termos emocionais, o que vemos ter a ver com a maneira como se habituou a cultivar uma distância emocional dos casos que tem que julgar. Sendo um tribunal de família, todos os casos que lá chegam são emocionalmente difíceis, porque há sempre alguém ou, às vezes, todos, em grande sofrimento. 

 

O filme apanha-a numa crise do casamento. Ela não teve filhos por estar sempre tão focada no trabalho, o marido que sofre com isso mais que ela, vêmo-lo numa cena com as sobrinhas, tenta desesperadamente salvar o casamento à medida que ela se distancia emocionalmente. Há uma cena logo no início em que ela está a trabalhar à noite, em casa, e ele aparece e pergunta-lhe, 'não te vens deitar?', ao que ela responde, que ainda tem que trabalhar no caso do dia seguinte que é o dos gémeos siameses onde tem que decidir se autoriza o hospital a separá-los, sendo que isso sacrifica a vida de um deles, e lê uma frase do relatório médico em voz alta, 'o coração de Michael [um dos gémeos] é normal e é ele que sustenta os dois' - percebemos que a frase se aplica à condição deles mesmos, onde o marido sustenta, emocionalmente, o casamento de ambos. O marido, numa tentativa desesperada de conseguir que ela o ouça, provoca-a e diz-lhe que está a pensar ter um caso com uma outra mulher. 

 

Tudo isto se passa ao mesmo tempo em que lhe aparece no tribunal o caso de um adolescente de 17 anos que sofre de leucemia, precisa de uma transfusão de sangue mas é, juntamente com a família, testemunha de Jeová e recusa o tratamento. O rapaz, para quem ela é um bocado cruel à força de não querer nenhum envolvimento emocional com os 'casos', apesar de se sentir atraída por ele que lhe lembra o filho que podia ter tido, acaba por espoletar nela uma tomada de consciência de si própria, do ponto em que se encontra, no casamento e na vida, do modo como toca a vida das pessoas que julga e como a frieza emocional não salva ninguém e não é remédio para coisa alguma.

 

Interpretações excelentes, a começar por ela mesma. Cenários muito bons. Vemos o tribunal a funcionar, não como é costume nos filmes, como se fosse um espectáculo mas como as coisas são na rotina no dia a dia. Diálogos muito bons, muito reais, de pessoas reais.

Enfim, o filme prende-nos desde a primeira cena até à última.

 

 

 

publicado às 16:04


Hoje vi um filme muito bonito, 'Columbus'

por beatriz j a, em 29.06.18

 

 

O filme passa-se em Columbus, uma cidade americana do Estado do Indiana, conhecida pela sua arquitectura modernista. O filme gira à volta de duas pessoas, uma rapariga entusiasta de arquitectura e que quer permanecer na cidade e ou homem que vem da Coreia ver o pai, um arquitecto famoso que fica em coma e que não quer permanecer. Conhecem-se e cada um deles toca e muda o outro. Grande parte do filme é enquadrado em cenários no interior e exterior de edifícios e jardins belíssimos que transmitem um grande sentimento de ordem e serenidade. Só pelo cenário já o filme valia a pena. Gostei muito.

 

 

publicado às 21:18


LES GARDIENNES - um filme belíssimo

por beatriz j a, em 09.06.18

 

 

Passado na França camponesa da Grande Guerra com as mulheres que ficaram a trabalhar os campos e a guardar as aldeias e vilas enquanto os homens se iam a matar uns aos outros. Todas as imagens dos campos de verão à torreira do sol com as mulheres a ceifar parecem pinturas do Dordio Gomes ou do Bruegel ou do VanGogh. Até cheiramos aquele pó dourado que fica no ar quando as searas de verão estão acabadas de ceifar. E as imagens da manhãs brumosas com elas a semear os campos... o filme é lindo. Depois, o que vemos no filme é que há várias maneiras de matar e nem todas envolvem homens, balas e chão de batalhas sangrentas. Um filme cheio de silêncios.

 

 

publicado às 18:20


Filmes - All I see is you

por beatriz j a, em 18.05.18

 

 

Estive quase para não ver este filme por causa da sinopses que o categorizam como um drama erótico, um filme cuja trama não faz sentido e outras coisas do género. Na realidade é um thriller e ao mesmo tempo uma metáfora, óbvia até, da sociedade ocidental contamporânea no que respeita aos problemas que a emancipação das mulheres trouxe aos homens.

O filme é sobre uma mulher cega que vive com o marido na Tailândia, numa vida feliz. Acontece que faz uma cirurgia a um dos olhos que lhe restitui a visão. A partir daí a transformação dela não pára. Torna-se cada vez mais independente, crítica, emancipada, em suma. O marido, de início apenas incomodado com a pregressiva independência dela, passa a sentir-se ameaçado com a perda do controlo que mantinha sobre a mulher e quer de volta a vida fácil e feliz que tinha quando a mulher 'só o via a ele', por assim dizer, antes de ver o mundo e querer o seu lugar nele. 

O filme tem imensos pormenores subtis que remetem para esta situação. Esteticamente impecável e com um suspense crescente. Gostei.

 

 

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publicado às 13:19


Filmes - A linha fantasma

por beatriz j a, em 04.02.18

 

 

Ontem fui ver o filme. Por curiosidade, há bocado fui ler críticas ao filme. Não me identifico nada com o que li. Não vi no filme nenhuma atmosfera hitchcockiana... não vi suspense - desde o colapso dele a seguir à apresentação da colecção que percebemos que tudo o que ela faz é para induzir vulnerabilidade, sem a qual não há intimidade, sem a qual não há amor... O único suspense do filme é o de não sabermos quem vai ganhar o staring contest . Nem me pareceu que a irmã dele evocasse a governanta da Rebecca. Acho que tem o papel de ser o muro que ele põe entre si e as raparigas para evitar intimidade, mais nada. Raparigas que são todas miúdas de vinte anos para perceberem pouco da vida e do ser humano e não o perturbarem no seu egoísmo narcisista de perfeccionista. O filme é uma história de amor. Invulgar, sim, um staring contest que no fim ambos vencem mas, uma história de amor, quand même. Invulgar por ela ser invulgar. Ele é um cliché: um artista já passado da meia idade, um perfeccionista, logo, obsessivo e um bocadinho compulsivo, vaidoso, controlador, cheio de idiossincrasias, com medo que a intimidade o amoleça no trabalho; mas ela, ela é encantadoramente genuína, real, tropeçona (não é isso que começa por encantá-lo?), é a negação ou subversão do jogo estético em que ele vive como um fantasma com uma não-vida, com miúdas que não lhe estraguem a pose e o pequeno-almoço sagrado. Mas ela vê nele qualquer coisa para lá da pose e é tenaz a des-cobri-la o que faz com que no fim ele perceba que encontrou uma parceira à altura, capaz da mesma entrega que ele tem. Não sendo um filme extraordinário, é um filme que se vê com interesse do princípio ao fim. Tem muito pormenores interessantes e a recriação do ambiente londrino elegante dos anos cinquenta (música e tudo) dá um brilho creme ao filme.

O filme assenta bem ao Daniel Day-Lewis, ele mesmo um perfeccionista um bocado obsessivo no que respeita ao trabalho. Li algures que este é o último filme que ele faz e que vai reformar-se? Se é verdade, é uma pena, porque é um bom actor ainda com muito para dar. Mas enfim, compreendo-o, se eu pudesse reformar-me chegando aos sessenta anos também me reformava...

 

 

publicado às 12:32

 

É estranho um filme tão cheio de violência ser acerca do amor. Love is the answer, no doubt about it.

 

 

publicado às 15:04


Filmes - The Killing of a Sacred Deer

por beatriz j a, em 01.01.18

 

 

O novo filme de Yorgos Lanthimos. Este filme é muito diferente do, The Lobster. A única coisa em comum é ser estranho, pois de resto, é um filme cru(el), entre o trágico e o horror. Logo a cena de abertura, mesmo antes de aparecer o nome do filme, um choque que não estamos à espera, é um grande plano de um coração a pulsar num peito aberto, numa mesa de operação, ao som de Schubert. Uma impressão excessivamente carnal do sofrimento ensanguentado e vulnerável da vida. O filme é uma evocação do mito de Ifigénia, a filha de Agamémnon, que este tem de sacrificar para que os gregos possam seguir para Tróia.

O filme segue a vida de um cirurgião cardíaco de renome e da sua família, a mulher, também médica e, os dois filhos, um rapaz e uma rapariga. É uma vida organizada pelo relógio, pelas coisas materiais que possuem e pelos pequenos prazeres mas muito vazia e sem substância entre eles.

Acontece que o indivíduo perdeu um paciente na mesa de operação à conta de ter cometido erros devido a ter bebido uns copos antes de ir operar [não percebemos isso logo de início pois o realizador põe o homem numas cenas dúbias]. Todo o resto do filme é uma tragédia de expiação de culpa e retribuição, como nas tragédias gregas, onde ele acaba por sacrificar um dos filhos para a família não morrer toda [a maneira como cada um da família tenta fugir de ser sacrificado é crua e desenganadora]. A expiação acontece pela mão de um adolescente estranho e muito duro que é filho do paciente que ele matou e que quer justiça. Tem cenas muito incómodas de ver, tem uma música que parece agulhas ou facas e uma cinematografia espantosa como a filmagem dos corredores do hospital ao modo do Kubrick.

O filme trata da vida e dos seus desequilíbrios homeostáticos, mostra o lado sujo e ensanguentado da vida e de tudo o que se esconde por detrás da aparência de civilização. Sim, o coração é poético mas é também um bocado de carne e sangue; sim, há vidas que parecem perfeitas em casas perfeitas mas quem lá vive são pessoas, animais com corações pulsantes de carne e de sangue e sentimentos de expiação e culpa. A vida é suja e somos todos, em certo sentido, metaforicamente canibais, como se vê na última cena do filme. Áqueles de entre nós que se comportam como deuses, com poder de vida e de morte sobre os outros, os deuses gostam de mostrar que são apenas humanos, demasiado humanos.

Enfim, um filme que se vê mesmerizado mas, ao mesmo tempo, um pouco horrorizado. Not for the faint-hearted :))

 

 

publicado às 20:51


A Promessa

por beatriz j a, em 29.12.17

 

É o filme que fui ver ontem, sobre o genocídio dos arménios pelos turcos, durante a Primeira Grande Guerra e, portanto, é baseado em acontecimentos reais. O filme é bom e ficamos a conhecer as circunstâncias e o modo como os turcos perseguiram cruelmente os arménios, o que é importante, quer dizer, estar informada mas, cada vez me é mais difícil ver filmes sobre guerras reais, pois por muito bons que sejam os filmes de guerra, quem vê um vê todos: brutalidade, crueldade, violência, destruição, perseguição, perda, morte, medo, crianças orfãs, traumatizadas para a vida por gente que parece o nosso vizinho.

Este ano, um dos temas à escolha para argumentar, na minha turma do 11º ano era, 'a paz [permanente ou perpétua como dizia Kant], é possível'. Um grupo pegou nesse tema mas escolheu argumentar o oposto, 'a guerra é inevitável'. Preferia que tivessem sido optimistas mas é claro que essa escolha não é minha e não me cabe a mim fazê-la. No entanto, pensar que nem os miúdos das escolas acreditam na possibilidade da paz é deprimente.

Ontem estava a ler que um Número de crianças afectadas por conflitos atingiu "níveis chocantes" e que há milhões de crianças expostas a níveis de violência e brutalidade traumatizantes: Usadas como escudos humanos, mortas, mutiladas, violadas, abusadas, forçadas a casar, raptadas, recrutadas para combate e escravizadas, as crianças são vítimas de uma violência extrema. Crianças que viram os pais ser assassinados, torturados, violados...

Triste, triste, como o filme. Da família grande que o filme acompanha e que existiu mesmo como lá se relata, morrem praticamente todos, só sobram um tio e uma sobrinha, alguns outros perderam toda a família, viram-na ser brutalmente assassinada.  Díficil perceber o ser humano em certas motivações.

 

 

publicado às 18:27

 

antes

 

 e depois

 

Esta é uma cena do filme, Ninotchka, uma comédia de Lubitsch dos anos 30, em plena época estalinista, com Greta Garbo, uma espia que vem da Rússia a Paris resolver o problema de três oficiais soviéticos que lá foram para vender umas jóias do regime (são as jóias da Duquesa Swana, antiga figura do regime czarista, entretanto exilada em Paris, coisa que eles ignoram) que luta com falta de dinheiro mas que se deixaram seduzir pelos luxos da burguesia. Ela mesma apaixona-se e perde aquela rigidez soviética de um modo muito encantador.

Uma comédia muito engraçada e séria ao memso tempo porque faz troça do comunismo russo com a sua negação de vida e do capitalismo ocidental com a sua futilidade burguesa.

“A vida é uma coisa demasiado séria para ser levada a sério” (Francisco Noronha)

 

publicado às 20:26


Filmes - O círculo

por beatriz j a, em 29.07.17

 

 

Uma boa ideia -mas não nova- acerca da sociedade, cada vez mais panóptica, em que vivemos, muito mal explorada. O filme é traplhão em todas as áreas. 

 

 

 

publicado às 20:51

 

 

Wonder Woman e King Arthur: Legend of the Sword: visualmente espectaculares, grandes cenários, bons actores, imensas cenas de acção espectaculares, música formidável, personagens completamente badass. Um e outro muito diferentes no tema, porque um é sobre uma personagem da BD e outro um personagem das lendas arturianas -aqui, numa interpretação muito livre- mas ambos giríssimos.

 

 

 

publicado às 19:21


Filmes - Ida

por beatriz j a, em 05.07.17

 

 

Entreguei os exames e fiz outros serviços. Hoje não faço mais nada de trabalho. Hoje é ler e ver filmes. Estou a ver um filme polaco chamado, Ida, que é o nome de uma noviça, que anda com a tia à procura do sítio onde foram enterrados familiares, assassinados durante a guerra. O filme tem cenas cruas no meio de uma beleza extraordinária como esta com as árvores despidas e hirtas como sentinelas. 

 

 

 

publicado às 16:48

 

Les femmes, le cinéma et le féminisme

 

Este ano houve bons filmes mas a maioria ficou de fora dos óscares que valorizam o entertenimento construído sobre estereótipos. As excepções foram, 'Moonlight' e 'Lion' que são bons filmes mas o segundo não ganhou nada. 'Manchester by The Sea' podia ser um grande filme se não tivesse sido diminuido pelos actores que não estão à altura da tessitura dos personagens que encarnam, apesar de terem sido nomeados e um deles ganhar mesmo o óscar de melhor actor. Depois há o 'La La Land' uma espécie de revivalismo dos músicais melosos dos anos 50 do outro século [mas é deste...] onde o rapaz prinicpal tem de ficar sózinho para perseguir o sonho de ser músico de jazz a sério e a rapariga desiste do seu sonho de ser actriz e se casa com um magnata de Hollywood e se dedica a uma carreira de esposa rica... [a sério??]. Ryan Gosling não tem nenhum jeito para fazer de músico de jazz, nem a música do filme é jazz...

Pior que tudo é o filme 'Elle', um filme que os críticos adoraram com argumentos pseudo-intelectuais que a mim me provocam vómitos... um filme onde uma mulher é violada pelo vizinho e acaba por ter uma relação com ele onde o cúmulo do prazer dela é a revisitação repetida da sua violação e a mulher do dito cujo agradece à violada por 'dar ao marido aquilo que ela não sabe...' [a sério???]. No meio machista que Hollywood é muitos homens (produtores, críticos, etc.) devem ter gostado de ver um filme à medida das suas fantasias...

Enfim, é triste que cheguemos ao século XXI com a mentalidade dos anos 50 do século passado. 

 

 

publicado às 08:28


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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