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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Fui ver este filme com uma amiga. Éramos as pessoas mais nova na sala que estava bem composta. A média de idade devia andar nos 70 anos. Pessoas de canadianas, muita gente com muita dificuldade em andar. Seria de esperar que chegassem a horas mas isso era se não fossem portugueses... muitos chegaram quando a sala já estava às escuras, não viam os degraus, tropeçavam, depois falavam alto, 'não vejo nada!' e coisas do género. Parecia uma cena cómica. Acendi a luz do meu telemóvel e apontei para os degraus e estive assim a fazer de arrumadora ou lá o que é durante um tempo até que se sentassem. Durante os créditos finais passa uma filmagem de Nureyev a dançar. Pois a brigada da bengala resolveu sair, às escuras, outra vez sem ver as escadas e a queixar-se... enfim...
Não sei se média de idade das pessoas diz algo sobre o desconhecimento da figura de Rudolf Nureyev e de falta de interesse pela dança nas gerações mais novas ou se foi só um acaso.
Seja como for, o filme é muito bom. A realização é de Ralph Fiennes, o que me surpreendeu porque não sabia que ele também era realizador, além de actor. Ele faz no filme o papel de Pushkin (muito bem, diga-se de passagem), o bailarino e professor de dança que mais tarde também treinou Baryshnikov. Quem faz de Nureyev no filme é o bailarino ucraniano, Oleg Ivenko. Não é fácil fazer de Nureyev, um indivíduo com uma personalidade intensa e electrificante, com aqueles olhos enormes 'de fome de absorver tudo' como diz Ralph Fiennes.
O filme conta a viagem da companhia de Ballet de Kirov a Paris no fim da qual, já no aeroporto e perante a eminência de voltar a uma União Soviética que via como uma jaula, Nureyev desertou para o Ocidente. O filme é baseado num livro da jornalista Julie Kavanagh que escreveu a biografia de Nureyev depois de uma investigação de dez anos.
À medida que acompanhamos a excitação de Nureyev à descoberta da liberdade nessa visita da companhia de bailado a Paris onde causa um grande sururu como dançarino, vamos tendo flashbacks da infância dele e do percurso como dançarino em Leningrado. A personalidade dele e a fome de se expandir pela dança.Tudo muito bem feito e filmado com bons diálogos, cenas de dança muito boas e a música dos clássicos.
O filme consegue mostrar a maneira como a vida dele está presente na dança, quer dizer, ele dançava o que era e o que tinha vivido e isso transparecia: a infância de grande pobreza, a luta por suceder num país que o enjaulava, a ele e ao seu talento, a vontade de se instruir na arte, a fome de ser.
O filme chama-se O Corvo Branco. Em russo esta expressão designa aqueles que são diferentes e únicos e que por isso não se encaixam na normalidade. No filme vê-se a solidão que isso acarreta acompanhada de uma certa distância, endógena, uma coisa interior, não treinada.
Nureyev desperta para o mundo da arte quando a mãe ganha um bilhete para a ópera e o leva, com as irmãs, muito novo, com cinco anos ou assim, a ver o espectáculo. A magia dessa experiência despertou-o para a arte.
Compreendo-o perfeitamente. O mundo das artes performativas é um mundo cheio de magia. Uma pessoa senta-se, as luzes apagam-se, a cortina sobe e de repente estamos noutra realidade, que sendo irreal, é mais real que o real (a maioria das pessoas nas 'cenas' das [suas] vidas não são reais, são máscaras de conveniência), quando o apanha e revela as suas raízes profundas, os seus modos de ser.
Gostei imenso do filme. Imagens belas. São duas horas que passam a correr. Hei-se vê-lo outra vez.
Os filmes de Yorgos Lanthimos têm um ponto de vista sobre um certo aspecto da realidade e fazem-nos pensar.
Este filme é sobre a rainha Anne [a que constituiu, no século XVIII, o Reino Unido] e as suas duas favoritas, personagens da nobreza que existiram mesmo e que governaram a Inglaterra, entre si, durante muitos anos. O filme é uma trágico-comédia negra e opressiva. A maior parte do filme passa-se em meia dúzia de salas do palácio da rainha com as duas mulheres a lutarem pelo favor da rainha com o fito de obter o poder e controlo da côrte e do país. Nesse sentido é opressivo porque as três são pessoas manipuladoras numa relação de forças completamente disfuncional.
No meio desta luta, decidem ir para a guerra com a França, subir os impostos à população... enfim, aquela loucura contida delas afecta a vida e os acontecimentos importantes de todo um país.
O que acho interessante no filme é o conseguir, através deste caso particular, mostrar o que é a disfunção e a loucura alienada do poder que afecta inconscientemente a vida de milhões de pessoas. O que quero dizer é que esta situação que se vê no filme, vemo-la ao longo da história inúmeras vezes. Pessoas disfuncionais, mal formadas, completamente alienadas e indiferentes à realidade dos milhões de vidas que controlam e afectam numa espiral concêntrica insana.
Não falo apenas das enormes tragédias que mudaram o mundo, como a dos nazis, alienados numa cúpula de loucura psicótica e cega em torno dum lunático desvairado ou de Estaline, claustrofóbico que vivia para matar colaboradores à tripa-forra, fechado nas sua paranóias de perseguição; falo da Catarina de Médicis, por exemplo, que a certa altura governava a França com os seus filhos como marionetas e as suas prostitutas armadas de venenos com que matavam opositores, ao mesmo tempo que decidia as guerras e os saques à população; falo do reinado do Luís XIV, a certa altura fechados em Versailhes numa corte lunática de intrigas e traições onde era mais grave falhar a etiqueta que falhar o inimigo; falo dos Papas que viviam fechados no Vaticano com os seus escravos sexuais e decidiam guerras ao pequeno almoço; falo dos governos que perdem o sentido da realidade e começam a governar para si próprios e para as suas disfunções partidárias; falo das pequenas-grandes tragédias como a que nos aconteceu quando meia dúzia de tipos mal formados (Oliveiras e Costas, sócrates, zenas, granadeiros, varas, salgados, etc.) formavam um clube de bandidos que viviam em circuito fechado entre bancos, governos e administrações a mandar no país e a decidir a pobreza dos concidadãos enquanto os delapidavam para fazerem viagens, comprarem iates e outras futilidades.
É isso que o filme mostra genialmente: como duas, três ou meia dúzia de pessoas, numa posição de poder, afectam tragicamente a vida dos outros, na mais completa alienação e disfunção sociais.
O filme apanha o carácter trágico da situação e uma certa propriedade de ridículo que essas pessoas têm. Vemos esse ridículo-trágico nessas figuras quando são postas em contraste com a realidade, fora dos círculos fechados em que vivem as suas disfunções.
Vemo-lo no Hitler, mas também o vemos no Trump, no Sócrates, de há uns anos para cá no Putin (desde que se tornou uma caricatura de si mesmo), no Erdogan, quando aparece nas eleições a descer uma escadaria ladeada com as figuras dos imperadores Otomanos e em muitos outros líderes disfuncionais mas com a mania das grandezas.
Enfim, o filme apanha isso impecavelmente. Depois o bom gosto da música, dos diálogos, da cinematografia, das roupas, dos cenários, o trabalho extraordinário das três actrizes, tudo concorre para esta visão trágico-cómica do poder quando exercido deste modo.
Apesar dos sacrifícos dos trabalhadores que acedem em trabalhar mais por menos dinheiro durante dois anos e apesar de lucros de milhões, uma fábrica de automóveis decide fechar e mandar 1100 trabalhadores para o desemprego com o argumento que os alemães, o grupo dono da fábrica tem metas de lucro que não foram atingidas. Então inventam que é falta de competitividade. Os trabalhdores ocupam a fábrica e exigem falar diretamente com os alemães. Depois as coisas vão escalando.
Este filme é a realidade. Não é só em França, como diz Vincent Lindon, que uma empresa pode fechar portas, mesmo com lucros e mesmo que tenha recebido ajudas do Estado, de um dia para o outro sem arcar nenhuma responsabilidade para com as pessoas e famílias que atira, sem escrúpulos, para o desemprego, para ir depois abrir outra fábrica numa terra onde possa explorar mais e melhor os trabalhadores...
Esta é a Europa que temos, decalcada do modelo capitalista selvagem dos americanos que não era, no passado, o nosso modelo. Ainda alguém se admira com os populismos... vale muito a pena ver este filme.
Como se diz no início, quem vai à luta pode perder mas quem não luta já perdeu. O filme mostra como se fomenta a violência com a violência da desresponsabilização social, do desinteresse por quem trabalha, do desinteresse pelos direitos das pessoas. Podia chamar-se A Raiva, como o filme que recria A Seara de Vento do Manuel da Fonseca.
Music by Anssi Tikanmäki Lyrics by Anssi Tikanmäki and Maarit Tikanmäki Performed by Johanna Rusanen-Kartano and Anssi Tikanmäki Orchestra (via, The Girl King film)
“Na sequência de algumas situações e acontecimentos tornados públicos ontem [Convento de Cristo em Tomar danificado em gravações de filme polémico] sobre o Convento de Cristo, em Tomar, a DGPC informa que vai abrir um inquérito para apurar a sua veracidade”.
Por outro lado, refere que o filme alegadamente na origem dos estragos “é uma co-produção entre Portugal, Espanha, França, Bélgica e Inglaterra e conta com um orçamento de 16 milhões de euros”.
Tallulah, um filme sobre o parentesco de todos nós e os deveres para com os outros e o planeta também. Esta é a última cena do filme.
Filme estranho. Passa-se num lugar imaginário, com uma paisagem rochosa, vulcânica, à borda de àgua, numa comunidade de mulheres que fazem lembrar enguias e rapazes em início de adolescência de quem elas são guardiãs mais do que mães porque não há ali afecto. Não há homens. Os rapazes são sujeitos a experiências médicas.
O filme é todo num tom entre o cinza e o sépia, desprovido de adornos visuais (nesse aspecto é como uma pintura de Rothko onde nada nos distrai e quanto mais nos focamos mais nos perdemos em nós mesmos. É um filme mnésico/introspectivo) mas não auditivos e os ruídos activam a memória da nossa sensação desses ruídos: o barulho das bolhas de ar na água, dos sapatos a pisar a areia grossa, do vento, do mar a bater nas rochas, do lápis a riscar o papel... No hospital, que parece saído da Segunda Grande Guerra, quase que cheiramos o cheiro a formol de tal maneira aquele cenário amarelo-esverdeado (como a pele das mulheres que lembram enguias) húmido nos atinge.
O filme não tem propriamente uma história, um enredo. Eu vi-o como uma metáfora da vivência da adolescência ou, melhor, da vivência das transformações da adolescência: a incompreensão do corpo, a distância do mundo dos adultos, o sangue (a única cor do filme são os calções encarnados do rapaz principal, de uma estrela do mar e do cabelo de uma enfermeira que se envolve com ele), o misto de curiosidade e medo com a gravidez e o parto (vê-se uma cesariana).
A adolescência como uma ilha ao mesmo tempo bela, assustadora e muito estranha. Como faz muito bem esse serviço de nos activar a memória das sensações é desconfortável sem ser um filme de terror como o anunciam.
Sempre me pareceu que as pessoas que dizem que gostavam de voltar à adolescência o dizem porque já não se lembram como era. Recalcam as memórias ou seleccionam apenas episódios divertidos mas reprimem a memória das sensações tal qual como eram vividas, experimentadas. Uma pessoa que trabalha com adolescentes e repara vê muita coisa. Neles e em si.
Eight Days A Week – The Touring Years.
"The Soul Keeper" - filme baseado numa investigação sobre a vida e relação de Carl Jung e Sabina Spielrein, que foi paciente dele e mais tarde se tornou uma analista importante. Ambos pessoas fascinantes. Pessoalmente adoro o Jung e devo-lhe qualquer coisa... Espero que o filme esteja à altura dos personagens que eles foram.
Não só a música mas também os cenários. Infelizmente o filme não está bom, o que é uma pena porque a Gertrudes Bell merecia um filme à altura da sua vida fascinante e inacreditável. Em vez de nos dar o retrato dessa exploradora, pioneira, aventureira, conselheira de reis e erudita dá-nos uma espécie de documentário do canal História à volta dos romances que teve com homens. Os actores todos mal escolhidos menos um. A Nicole Kidman não é a GB que era uma mulher com ar típico de inglesa de personalidade muito forte e uma vontade férrea que se vê, mesmo ainda muito nova, no olhar sério e na firmeza da boca. A NK nunca perde aquele ar de modelo gracioso durante todo o filme que abarca quase trinta anos da vida dela, quase todos passados sob o sol do deserto, sempre com o mesmo ar... o Robert Pattinson no papel de T. E. Lawrence é completamente ridículo... enfim, uma pena, para quem conhece a biografia e as cartas dela e, uma surpresa, que não se esperava do Werner Herzog, um realizador com tanto gosto. A música é boa. Ouça-se.

... a Isabelle Kumar, sobre Tsipras, a Grécia e a Europa. Costa Gravas é um grande cineasta com uma voz política engagée, consciente e democrata. O último filme dele, Le Capital, mostra, como sempre com muita lucidez e inteligência o que é a economia contemporânea e a sua relação com as pessoas.
Imagens impressionantes de Berlim em 1945, logo a seguir ao fim da guerra. Para quem, como eu, esteve em Berlim há pouco menos de um ano, ver a cidade neste estado... Chocante também é ler os comentários deste filme no youtube. As pessoas em geral são tão inseguras e pequenas que têm que passar o tempo a tentar humilhar e destruir as outras... hence, war...
É difícil lidar com a dor. A física e a outra. Interrompe a vida. Vemos a pessoa que era ou que podia ter sido antes da dor.

O filme é bestial. Apanha um ano da vida de Hendrix, desde que a Linda Keith o descobre, o convence a cantar, lhe muda a imagem e lhe abre portas do establishment até ao concerto de Monterey que o explodiu para o mundo inteiro. É um filme intimista e o actor que o representa apanhou-o com um grande insight porque parece estarmos a ver o próprio, nos jeitos e trejeitos, na maneira de falar.... Um filme honesto já que não esconde o lado violento dele e o modo como tratava as mulheres. Também nos dá acesso ao lado profundo e filosófico do Hendrix. A atmosfera da época e até as cores, tudo com um pormenor muito fidedigno. Claro que temos momentos da música dele e cenas que se passaram em Londres, como aquela do Eric Clapton fugir do palco em pânico da primeira vez que toca com ele. Fantástico, o filme. O trabalhos dos actores fenomenal. O filme é de John Ridley, o mesmo que realizou '12 Anos Escravo', filme de que não gostei. Pois este adorei. Porque não é fácil falar do Hendrix e não é fácil escolher que momentos e que facetas mostrar e como mostrá-lo, de modo a dar uma ideia da complexidade da personagem sem o reduzir, nem a um ícone sagrado nem a um guitarrista drogado.
O 'smartphone' dele. Podermos escolher uma voz e uma personalidade que vá ao encontro dos nossos desejos/fantasias e ter um 'alter ego' a fazer-nos companhia enquanto trata de nos ler os mails, arrumar os ficheiros, escolher a música do 'mood' do dia, comprar bilhetes para uma viagem e marcar o hotel, enfim, fazer de secretário pessoal e de cúmplice? How cool is that?
De resto, o filme tem bons desempenhos porque tem bons actores e mostra que o ser humano é tão desesperado por amor, por algo que lhe anule a solidão que até um Sistema Operativo é capaz de amar.
'No' é um filme sobre a campanha publicitária que levou o Chile a dizer, 'no' à permanência de Pinochet no poder, no plebiscito que o seu regime organizou para inglês ver -pensava ele- e onde o tiro, lhe saiu pela culatra, como se costuma dizer. Comecei a vê-lo ontem à noite. Muito bom.
Hoje estive e rever Chinatown. A realidade de tanta gente ser pessoa sem grandes escrúpulos e capaz de quase tudo.
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