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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
... que a farmácia já não se destina a doentes.
Uma pessoa tenta não ter ar de doente porque para deprimir já basta a vida. No entanto, há coisas que não pode evitar-se... agora ando sempre assim como se vê nas fotografias porque praticamente todas as semanas é preciso enfiar acessos, como se diz agora, e são mais as vezes que correm mal que as que correm bem. Depois ando com os braços e as mãos nesse estado, com hematomas e buracos no meio. Pareço uma drogada, eu sei.
Muitas vezes ando com um penso em cima dessas coisas porque doem bastante, para evitar choques com a mão e, se posso, ando com mangas compridas a esconder os dos braços. Mas estamos a caminho do verão...
Em suma, há um par de dias entrei numa farmácia com o braço e a mão nesse estado que se vê, fruto de uma TAC e um tratamento recentes, para aviar uma receita de perto de seis euros. A farmacêutica olhou para o braço e disse-me, 'tem que pagar a dinheiro ou com cartão de débito'. What?? Perguntei-lhe porquê. Disse-me que as máquinas de pagamento da farmácia não aceitavam cartões de crédito. 'Ai, não? E isso é legal? É que vou mesmo pagar com cartão de crédito.' Bem, diz ela, talvez hoje aceitem mas não é costume. É claro que a máquina aceitou o pagamento. Mas quer dizer... desde quando as farmácias discriminam doentes? Não existem por causa de nós? Nunca mais vou àquela farmácia.


Uma pessoa entra na farmácia, estão três pessoas a atender, cada uma, uma pessoa. Uma das que está a atender não percebe nada de nada e está sempre a interromper uma das outras com perguntas sobre procedimentos... a outra está a impingir cremes hidratantes a uma senhora e a terceira está com problemas no computador. Passam quinze minutos e é a minha vez. Digo ao que venho e a rapariga diz logo que não tem esses medicamentos. 'Mas são coisas vulgares', digo eu. 'Ahh mas não trabalhamos com essa marca e esse outro não temos. Mas pode encomendar e em princípio logo já cá está'. 'Em princípio? Quer dizer, eu agora vou ali aos frangos e dizem-me -frangos não temos mas pode encomendar e em princípio logo já cá está' Ela não percebeu e ficou a olhar para mim. Pergunta-me, 'quer que encomende?' -Olhe, o que eu queria era não ter que desorganizar a minha vida porque vocês agora não vendem medicamentos e temos sempre que encomendar e vir aqui duas vezes. A não ser que façam desconto ou levem a casa'. Ficou a olhar para mim como se eu fosse doutro planeta.
Agora é sempre isto... vai-se à farmácia e eles vendem cremes, sapatos, meias, brinquedos, vitaminas, máscaras de beleza e coisas afins. Medicamentos é que é difícil lá encontrar. Voltámos ao tempo das boticas. Não percebo é alguém tirar um curso de farmácia para depois andar a vender sapatos.
Haja paciência...

Alegoria da Paciência.
1677 - Carlo Dolci
Pedi à médica das alergias para me indicar um creme para um problema que pensava ter a ver com alergias. Não tem mas ela sabia de um. Escreveu-mo num papel embora não tivesse certeza do nome. Fui à farmácia com o papel e o farmacêutico não o conhecia, não encontrou no computador e disse-me que ia ligar para o laboratório. Enquanto ele fazia isso agarrei no telemóvel e escrevi no google, 'medicamento para tal e tal'. Apareceu-me logo o medicamento de modo que chamei o farmacêutico e disse-lhe, 'olhe, já sei o nome e até sei o preço'. Ele também já tinha encontrado o medicamento e disse, 'sabe o preço?'. Sei, está aqui, 24.95€ e, mostrei-lhe a imagem. O homem ficou um bocado embaraçado e disse, 'ah, mas o preço são 38.98€. Isso deve ser o preço no laboratório'. Não, isto é o preço de venda, disse-lhe. 'Pois, diz ele... se quiser tente arranjar noutro sítio' ??? Perguntei-lhe: mas esta é a vossa margem de lucro? É que juntar 14€ a 25€ é uma barbaridade... bem, comprei-o porque preciso mas entretanto já fui à internet e descobri-o por metade do preço. Nunca mais compro ali.
Sou só eu que acho isto escandaloso?
As farmácias transformaram-se em boutiques de... cenas. Dantes ia-se à farmácia para comprar medicamentos. Agora vai-se à farmácia para conversar com o farmacêutico, ver sapatos, perfumes...cenas. Entretanto, nosotros que estamos à pressa ficamos de seca na fila à espera que suas excelências ponham a conversa em dia. Não há pachorra para estas modernices idiotas.
Nunca me tinha acontecido ter dificuldade em aviar uma receita médica. Ontem fui aqui a uma clínica de Tavira que funciona 24 horas por dia. Fui rapidamente atendida e saí de lá às nove da manhã com uma receita com três medicamentos para aviar. Fui a uma farmácia, a rapariga olha para a receita e diz-me, 'pois, aqui o antibiótico não temos. Não trabalhamos com essa marca e como o médico assinalou que não autoriza a troca por outro não podemos fazer nada' (????!!)
Confesso que nem percebi bem o que ela queria dizer... parecia que tinha entrado numa loja de roupa que vende a marca x mas não a y... bem, como estava cheia de dores não estive para me chatear e resolvi ir a outra.
Segunda farmácia em que entro, 'Ah...lamento mas esse antibiótico não temos, está esgotado e, como médico não autoriza troca não podemos fazer nada...' - nesta altura comecei a ficar chateada. Fui a uma terceira farmácia...a mesma coisa...está esgotado e tal e tal. Perguntei se tinha havido alguma epidemia recente para que um antibiótico esteja esgotado logo às nove da manhã. Mas eu estava cheia de dores e com pressa de tomar os medicamentos.
Voltei à clínica e pedi ao médico para me passar um medicamento alternativo explicando o que se passava. Ele disse-me que achava muito estranho o medicamento estar esgotado mas passou-me uma receita dum outro antibiótico.
Fui a uma quarta farmácia. O tipo olhou para a receita original e disse, 'Olhe não temos é o anti-inflamatório porque não trabalhamos com essa marca mas posso mandar vir para daqui a uma semana' Aqui passei-me, levantei a voz e disse-lhe, 'Olhe lá para a minha cara. Acha que posso esperar uma semana? O que é isso de não trabalharem com marcas como se estivessem a vender roupas? O médico passa a receita do medicamento que lhe oferece mais confiança em cada caso. Isto não é uma cena de moda e marcas!'
Disse-lhe que já era a quarta farmácia a que ia, que estava cheia de dores e que ele se arranjasse como quisesse porque eu não saía dali sem os medicamentos... saí de lá com os medicamentos mas com a certeza de que algo de muito estranho se passa na venda de medicamentos...
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