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Em dissonância cognitiva

por beatriz j a, em 29.07.14

 

 

 

Dissoância cognitiva é uma teoria da Psicologia da autoria de Leon Festinger acerca da nossa necessidade de consistência relativamente ao que pensamos, acreditamos e fazemos. Desse modo, sempre que estes elementos se contradizem -por exemplo, acreditar que fumar é um estúpido hábito e continuar a fazê-lo- a pessoa entra numa situação de desconforto que pode causar vergonha, embaraço, pode incluir racionalizações (por exemplo, dizer a si mesmo, 'que interessa não fumar e ser saudável se morremos todos?', etc.) ou pode levar à negação do que se sabe para atenuar o desconforto da contradição.

Seja como for, enquanto existir contradição entre estes termos a pessoa está, incomodamente, em dissonância cognitiva. É assim que eu estou em relação às corridas de touros.

 

O problema não são os argumentos a favor e contra (ambas as partes se ofendem uma à outra e se desconhecem; cada uma parte do princípio que a outra é cruel e aberrante ou ignorante e idiota, conforme o lado que defendem) que me põem nesta dissonância. Nenhum argumento, a favor ou contra, como é próprio duma argumentação sobre valores, é definitivo e, a discussão está muito longe de estar fechada.

 

O que me incomoda é que compreendo perfeitamente os dois lados da discussão.

 

Por um lado, gosto de ver corridas como outros gostam de ver futebol e, portanto, sei que uma corrida de touros é mais que espetar animais, como alguns dizem, assim como um jogo de futebol é mais que onze palermas de cada lado a tentar enfiar a bola num buraco, como outros dizem.

Também percebo os que reduzem as corridas a espetar animais, assim como percebo os que reduzem o futebol a um jogo idiota e de escapatória de frustrações (só um aparte, li que durante o jogo Alemanha-Portugal a audiência dos sites de pornografia, em ambos os países, baixou 30% e, depois do jogo, voltou ao normal na Alemanha mas, em Portugal, a audiência subiu 10% acima do normal, o que é muito interessante para pensar sobre a relação entre pornografia e futebol. Mas isso não vem agora ao caso).

 

Cresci nesse meio dos cavalos e touros, vejo corridas desde miúda, tenho uma visão das corridas um bocado Heraclitiana - o combate, a luta...- e vejo toda a beleza envolvida nesse fatal (geralmente, apenas para o touro) confronto entre um animal com aquelas características e um homem com um pano. Aprecio a estratégia e a psicologia, tanto do homem como do animal.

 

Por outro lado, vejo bem que é um espectáculo digno do circo romano, um espectáculo com sangue e morte e violência. Não compatível com uma sociedade que quer caminhar e educar para a não-violência. É como o boxe. Eu também gosto de ver boxe, a estratégia e a psicologia dos lutadores mas, também acho um espectáculo de circo romano que educa para a violência. As crianças que assistem a combates de boxe e a corridas de touros absorvem o ambiente de violência e agressão como uma coisa normal, pois que os adultos estão entusiasmados a assistir àquelas descargas de violência.

 

Enfim, o que quero dizer é que a corrida de touros já não é compatível com muitas das minhas próprias convicções. No entanto, gosto de vê-la. Daí a minha dissonância cognitiva. Não há racionalização possível que atenue a contradição destes elementos e não sei bem qual é a saída desta situação.

 

 

publicado às 20:08


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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