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geração 'deolinda'

por beatriz j a, em 09.03.11

 

 

 

Agora todos falam contra os 'Deolindos'...por vezes parece que quem vive em Lisboa não sabe o que se passa no resto do país.

É certo que hoje em dia há quem esteja habituado a que os pais lhes façam tudo e dêem tudo; é verdade que há quem não estude nada e depois queira tudo. Mas não me parece que sejam a maioria e muitos desses não seriam assim se não os empurrassem para isso desde cedo com mentiras sobre terem direito a passar sem ir às aulas e sem estudar e outras coisas do género...De qualquer modo, são os outros que interessam, e esses têm a vida muito dificultada.

Há uma vintena de anos tirava-se um curso e em geral isso era o suficiente para arranjar um trabalho. Mesmo quem não tirava um curso superior arranjava trabalho tirando um curso profissional. Se não havia dinheiro para estudar, o Estado financiava com bolsas de estudo. Era possível, mesmo não ganhando muito, pedir um empréstimo para habitação. A comida era barata. Era possível uma vida digna.

Agora, quem não tira um curso superior vai trabalhar para uma caixa de supermercado ou um 'call center', se tiver sorte. A maior parte dos cursos profissionais não preparam as pessoas para um trabalho, preparam-nas para entrarem em mais cursos...Um curso superior já não chega porque o diminuiram para que os dois últimos anos passassem a ser pagos, de modo que é preciso tirar o curso e mais um mestrado. E às vezes não chega...A maior parte dos estudantes do secundário não tem dinheiro para isso de modo que uns desistem, outros endividam-se. Uma pequena parte, muito determinada consegue bolsa depois de passar todos os obstáculos que lhes põem no caminho para que desistam da bolsa (isto é verdade, porque acompanho alunos que pedem bolsa e sei como os tentam dissuadir). Os que acabam um curso e o mestrado, mesmo assim não têm certeza de conseguir um trabalho (excepto numa ou noutra universidade onde se sabe que o sistema de cunhas é quase infalível como a Católica).

Para os que conseguem trabalho, já de si uma minoria, a maior parte fica a recibos anos a fio. Sem contrato, sem possibilidade de planear qualquer futuro: nem renda de casa, nem carro, nem pensar em juntar-se ou constituir família...No entanto, as empresas para que trabalham nestas condições, usufruem plenamente do seu trabalho, dos apoios e subsídios e tudo o mais que for preciso.

Quantas empresas declaram falência para abrirem as portas na terra ao lado e entretanto deixarem os trabalhadores à míngua?

Que país pode vir a ser quando os seus trabalhadores não têm possibilidade de ter autonomia, de ter uma vida independente, sempre sem saberem se amanhã ainda têm trabalho? E, muitas vezes, a ganharem o ordenado mínimo ou pouco mais?

Esta geração tem muitos 'encostas'? Pois deve ter, mas a minha também os teve (veja-se o pessoal todo que anda pelo governos e empresas públicas a depauperar o país...). A questão são os outros e todos aqueles que acabam por ser encostas porque o sistema os empurra para isso tirando-lhes as hipóteses de alguma mobilidade social através da destruição do ensino.

Os meus alunos não têm ilusões: sabem que com o secundário não fazem vida e que mesmo com um curso, vão andar anos a viver com enormes dificuldades.

Ora, podia ter sido diferente. Devia ter sido diferente se o dinheiro de apoio às pequenas e médias empresas e se a inovação do ensino se tivesse feito. Se não se tivesse pago para destruir postos de trabalho: na agricultura, nas pescas, na indústria...

Esta geração tem a vida dificultada, sim. Vai pagar estes juros incríveis da nossa dívida com suor e sangue.

 

 

 

publicado às 15:24


sailing in heavy weather

por beatriz j a, em 13.09.10

 

 

 

Hospede inúmeras fotos no slide.com GRÁTIS!

Karl Soderlund

 

publicado às 08:41


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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