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Na semana passada estava a trabalhar o tema da Argumentação e Retórica e estivémos a reflectir a partir de um excerto de um texto de Perlman, o filósofo belga que no século passado recuperou a argumentação da má fama que lhe derem durante séculos e a elegeu o melhor instrumento na decisão ponderada das democracias.

O texto acaba com essa frase que se lê em baixo e a propósito dela lancei para o ar a questão, 'porque é que a argumentação é própria das democracias?' aos que os miúdos responderam imediatamente, 'porque nas ditaduras, dá-se ordens e o ditador nem se dá ao trabalho de argumentar com os opositores. Não há interesse em procurar a melhor solução, confrontando hipóteses com argumentação'. Em seguida, perguntei, 'como é que podemos reconhecer que um sistema está a perder as qualidades democráticas?' Ao que eles responderam, 'quando uma das partes, a que tem o poder, deixa de reconhecer o outro como um igual que tem que persuadir e em vez disso, dá-lhe ordens.'

Pois, é isso mesmo. E para quem pensa que os jovens são todos idiotas, não são, não.

 

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publicado às 07:56

 

 

Rise of the Autocrats - Liberal Democracy Is Under Attack

 

 

Yascha Mounk distingue em, The People vs. Democracy, a democracia do liberalismo. A democracia liberal, diz, tem duas componentes - 'democracia',  um conjunto de instituições eleitorais vinculativas que traduzem efectivamente as visões populares em políticas públicas e, 'instituições liberais' que são aquelas que protegem efectivamente o Estado de Direito e garantem os direitos individuais aos cidadãos. Uma sociedade é uma democracia liberal se combina instituições democráticas e liberais. Segue-se que algumas sociedades podem ser democráticas mas não liberais ou liberais mas não democráticas.

 

Em seu entender, a essência do populismo está em oferecer soluções fáceis a problemas complexos, aproveitando-se do facto dos eleitores não querem ouvir dizer que o mundo é complexo e que não há soluções imediatas para os seus problemas. Face a políticos que não sabem, eles mesmos, lidar com um mundo cada vez mais complexo, os eleitores estão dispostos a votar em alguém que lhes prometa uma solução simples e imediata, como construir um muro, por exemplo.

Sendo a resposta de construir um muro, uma resposta simples, o facto de não ter sido adoptada há mais tempo só pode dever-se a uma conspiração dos inimigos do povo (políticos corruptos, agentes estrangeiros) donde a única solução passa por eleger um homem honesto e dar-lhe poder para interpretar a voz do povo, em vez de deixar falar o próprio povo.  E é assim que as democracias se separam do liberalismo.

 

 

O liberalismo não democrático liga-se à ascensão da tecnocracia: especialistas, burocratas, lobistas, todos alimentam uma oligarquia que vai minando o liberalismo. Quando a tecnocracia se combina com a oligarquia, a influência dos eleitores começa a ser marginal e a mistura de ambas fertiliza o terreno para o populismo: é por as pessoas terem perdido a sua voz que o populista tem sucesso ao defender querer restaurar a sua voz. Segundo o autor, o populismo autoritário é a reação típica à oligarquia e à tecnocracia.

 

Acho que este livro responde ao artigo sobre a ascensão dos autocratas e ao ataque das democracias liberais: é que estas deixaram-se enredar numa tecnocracia oligárquica, em parte por os políticos serem pessoas muito ignorantes e impreparadas para estes problemas e não terem, nem políticas, nem visão, nem estofo para o mundo em que vivemos.

A crise na Filosofia não tem ajudado...

 

Durante um tempo, aqui em Portugal, pese embora todos os erros e  extremismos próprios das revoluções, o 25 de Abril possibilitou o surgir de um Estado democrático e liberal - as instituições democráticas funcionavam e aos pouco instituiu-se a defesa dos direitos dos cidadãos. Infelizmente, aquilo que nos ajudou economicamente, a entrada na UE, também nos prejudicou politicamente na medida em que fomos, e somos, pressionados à conformidade com uma oligarquia tecnocrata que abriu caminho aos populismos e autocracias por não ter cumprido as expectativas e nos está a arrastar para o mesmo mal que ataca os outros.

 

No entanto, temos hoje mais noção destes perigos do que havia há 30, 40 ou 100 anos. Isso deve-se, penso, à universalização da educação e aos efeitos positivos da globalização. Há uma consciência dos perigos que a situação actual carrega, pese embora não pareça haver soluções.

 

Como é que se resolve este problema, segundo o autor? Com essa capacidade que a razão tem de ser objectiva, de querer compreender, de resistir aos populismos, de falarmos uns com os outros, de nos juntarmos e de lutarmos pelos nossos direitos e pelos nossos valores democráticos e liberais  mesmo que impliquem sacrifício (segundo o autor, à medida que cresce a autocracia cada vez será mais difícil alguém tomar uma posição individual que a contrarie) pois os tempos estão difíceis e temos que saber erguer-nos à sua altura, nós o povo, já que as oligarquias cada vez menos nos representam.

 

post scriptum em três partes:

1ª, parece-me que a defesa da educação é a forma mais eficar de lutar contra os autocratas, os oligarcas, os tecnocratas e todos os que semeiam populismos. Um povo consciente e [filosoficamente] educado está mais preparado que um povo ignorante, sem defesas;

2ª, a luta dos professores é uma luta pelos direitos contra políticos submissos à oligarquia dos tecnocratas que nos arrastam para uma situação de apatia e desesperança na política, problema muito grave que já se vê há algum tempo no país e que ninguém aborda como se não existisse;

3ª o PCP mostrou, com a sua reacção negativa à iniciativa legislativa dos professores aquilo que é e sempre foi: um partido que defende a oligarquia como forma de governo e a marginalização da vontade popular.

 

publicado às 15:05

 

Kurdish Afrin is democratic and LGBT-friendly. Turkey is crushing it with Britain’s help

Northern Syria’s Kurds are establishing direct democracy and a gender revolution. Why are we arming jihadist-linked Turkey?

 

Alexander Norton is right. This is our Spain. Extremist authoritarians who despise democracy, women and freedom are at war with what should be an international beacon, a society that offers an example far beyond the despot-afflicted Middle East. Turkey knows that Rojava’s success will inspire not just its own Kurdish population to assert its rights: it sees a system which threatens its own degenerate authoritarian order. British Kurds are occupying train stations and roads because no one will listen to them about one of the gravest injustices on Earth. To abandon them now would be a shameful crime that would never be forgotten.

Owen Jones

 

publicado às 19:22


Será que nenhum ditador se vê como tal?

por beatriz j a, em 28.02.18

 

 

Erdogan já passou limites do ditador benigno há muito tempo, quando se fez filmar, no dia da vitória eleitoral, a descer umas escadarias ladeadas com figuras dos sultões otomanos, com os quais se compara, naturalmente. 

Ontem disse a uma garota de sete anos que se Deus quisesse seria uma mártir e a enterrariam com a bandeira do país... Erdogan está num processo de esmagamento dos curdos, sem os quais a guerra contra o EI não teria sido vencida. O resto do mundo vê e cala.

Xi Jinping quer acabar com a limitação de mandatos para ficar eternamente no cargo. Putin só sai de lá quando e, se, quiser. Na UE já falavam em concentrar numa única pessoa os cargos de Presidente do Conselho e da Comissão e acabar com o princípio de um membro por cada Estado-Membro. Trump, se pudesse, há muito que era um Putin, líder por quem tem enorme respeito e admiração.

Há uma tendência cada vez mais clara para a degradação das democracias. Será que os ditadores não se vêem como o que são? Será que os líderes não têm noção de como a concentração de poderes continuada na mesma pessoa leva à corrupção, ao desvirtuamento dos processos, à destruturação da coesão social? Serão tão cegos que se pensam imunes aos perigos do poder?

Até em pequenas comunidades como as escolas vemos esta degradação. Onde vai a gestão democrática das escolas? Como se podem educar os jovens para sociedades de vivência democrática se os exemplos que lhes dão são o oposto disso? 

 

Turquie: Erdogan critiqué pour avoir incité une petite fille à mourir en martyr

 

 

publicado às 05:16


Quando uma democracia é uma democracia

por beatriz j a, em 31.07.17

 

Rússia expulsa 755 diplomatas americanos

 

Deve ser frustrante para Putin, depois de ter scored a perfect 10, como dizem os americanos, na cimeira do G20, tendo cativado Trump tão completamente que o pôs a quebrar protocolo só para ter mais uns minutos consigo, ver esse mesmo Trump ser ignorado pelo Congresso e acabar a ter piores sanções que no tempo de Obama.

É que Putin esquece-se que o sistema americano, apesar de presidencialista, é democrático e nele, a vontade do Presidente, por si só, não é lei. Ainda bem.

 

publicado às 05:37


Há democracias e há democracias

por beatriz j a, em 09.12.15

 

 

 

 Edu Oliveira

September 4 · 
 

O homem ao fundo da foto, usando seu laptop é David Cameron, o Primeiro-ministro britânico, chefe de Estado da quinta maior economia do mundo voando para Portugal na classe econômica da Easyjet, uma das companhias aéreas mais baratas da Europa, neste voo não é servida nenhuma refeição. Esse é o tipo de atitude que o nosso desgoverno precisa começar a utilizar se quiser um pouco de credibilidade. (do FB)

 

O mesmo se pode dizer dos governantes portugueses. Larguem os Mercedes e os Audis de 90 mil euros e andem nos seus próprios carros e os carros afectos a ministérios e administrações (não a ministros e administradores) que sejam de marca Renault, fabricados na AutoEuropa. O nível das democracias vê-se pela noção de serviço e responsabilidade que os governos e organismos públicos têm na relação com o povo e não no modo como se servem dele para se beneficiarem.

 

 

publicado às 16:00


coisas de alguma importância

por beatriz j a, em 11.04.13

 

 

 

 

... pelo que indiciam. Agora estava a ler um artigo num jornal estrangeiro. Como achei o artigo francamente polémico e mau tive curiosidade de ver os comentários. Tem mais de 300 comentários.

O que me chamou a atenção foi que os comentários, embora muito fortes e contundentes, são todos muito bem articulados, muito bem argumentados e sem ofensas nem vulgaridades. A conversa dos comentadores está tão interessante que já ia no comentário número sessenta e tal. O que noto é a diferença relativamente aos comentários que aparecem normalmente nos jornais portugueses: ofensivos, vulgares, sem nenhum tipo de argumentação ou inteligência. Indícos de democracias mais estruturadas e melhor enraizadas.

Viver em democracia e viver em democracia, às vezes quer dizer coisas diferentes...

 

publicado às 20:52


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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