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A cultura do copianço

por beatriz j a, em 05.04.16

 

 

“Há uma cultura de fraude que é permitida no ensino superior em Portugal. O grau de tolerância demonstrado em relação a este fenómeno é muito superior ao que existe noutros países europeus, nomeadamente os nórdicos, e aproxima-se dos valores obtidos na América Latina

 

... começa nas escolas. Está enraízada e é aceite não apenas pelos alunos, que a praticam sempre que podem, pelos pais, que aceitam e, em muitos casos, incentivam os filhos à fraude e, ainda muito pior, por muitos professores que consideram que o acto do aluno cabular é próprio da condição de estudante, uma espécie de fair game, de tal modo que riem-se e acham piada aos engenhos que eles utilizam para copiar.

 

Como se numa pessoa, o acto de cometer fraude nos testes e exames não influenciasse de modo nenhum e fosse algo completamente separado da capacidade de cometer fraudes noutros campos. 

 

Não há em Portugal a consciência de que a educação na fraude é o falhanço de toda a educação e é a causa de tanta corrupção disseminada por todo o lado. As pessoas que recorrem as esquemas para ganhar vantagens sobre os outros, para se aproveitarem dos cargos, para sabotarem os outros, etc., são pessoas que começaram muito cedo nessa arte da fraude e do engano sistemático, nas escolas. Quando chegam às universidades, muito deles são já catedráticos do copianço.

 

 

Aliás, não existe uma noção da importância da educação no evoluir positivo da sociedade. Como se a educação fosse um acto ou um conjunto de actos inconsequentes que não afecta as pessoas nem as suas práticas. Não á por acaso que as culturas latinas são muito mais corruptas e lenientes que as do Norte: é que para os portugueses, ser desonesto é ser esperto e ser honesto é ser estúpido.

 

 

publicado às 22:46


fraudes

por beatriz j a, em 05.12.12

 

 

 

 

Hoje entretive-me a ver o Dr. Phil durante a minha hora de insónia. O programa era sobre a fraude nas escolas: o copianso. Nos EUA os estudos mostram que cometer fraude -copiar- é uma prática está a aumentar. No último inquérito, 68% dos estudantes afirmaram copiar. Não são apenas os 'maus' estudantes. São todos e, cada vez mais os bons estudantes.

Uma rapariga presente no programa dizia que copia porque a pressão e a competitividade nas escolas é muito grande, os lugares nas Universidades públicas são poucos e praticamente ninguém tem dinheiro para pagar privadas. Que estuda muito e mesmo assim não consegue e que portanto copiar é uma necessidade.

Os inquéritos, realizados a estudantes e adultos, mostram que os adultos que cometem fraudes no trabalho são aqueles que na escola copiavam, de modo que há uma correlação entre o hábito de copiar nas escolas e a prática de se safar na vida com fraudes. Há muito tempo que sabemos isto... os países com maior corrupção são aqueles onde o hábito de copiar nas escolas é mais comum e tomado como normal.

O que os inquéritos também concluem é que o hábito de copiar na escola começa cedo, no básico e, continua pelo secundário, em grande parte porque não é combatido pelas escolas.

Os professores sabem, as escolas sabem, mas os alunos não são punidos de modo que essa cumplicidade das escolas com a fraude dos alunos é um incentivo à sua proliferação e normalização. A maior parte dos alunos, embora saiba que copiar é fraude, não vê isso como uma falta e acha muito normal.

A maior parte dos copiansos são feitos com telemóveis que os alunos têm ligados dentro das salas de aula, com o consentimento dos professores e das escolas. E, embora não seja permitido usá-los, quase todos os usam e poucos se incomodam.

Porque é que os professores compactuam com isto: porque querem que os seus alunos tenham bons resultados? Porque acham que não vale a pena acusar pois a escola não pune? Porque não estão para se chatear? Não sei, mas sei que um sistema de ensino baseado na fraude não educa, falha todos os seus compromissos e trabalha para formar uma sociedade de corruptos.

Quando olhamos para o nosso pais e pensamos nos maiores corruptos e traficantes de influências da política vemos que uma grande percentagem deles começou a sua carreira de corrupção com as fraudes académicas...

Todas as escolas, todos e cada um dos professores desses indivíduos que compactuaram, quer activa, quer passivamente com as suas fraudes são cúmplices e co-responsáveis pela crise em que estamos, derivada de tanta ignorância incompetente de gente que tem cursos mas que equivalem a nenhum saber, de tanto roubo e corrupção que nos depauperaram durante décadas.

E não é só cá: a Alemanha, a França, a Áustria, a Rep. Checa... quantos casos de ministros e até presidentes, nestes últimos tempos, vieram a lume?

A fraude nas escolas devia ser combatida como a peste negra porque se propaga da mesma maneira altamente contagiosa e porque, embora não visíveis imediatamente a olho nú, tem os mesmos efeitos devastadores de dizimar sociedades inteiras.

 

publicado às 06:34


Um ano na vida desta professora - 58

por beatriz j a, em 15.03.12

 

 

 

 

 

Ontem tive um desaguisadozinho naquela turma híbrida. Dá-se o caso de terem teste na segunda feira e estarmos a falar de métodos de estudo e a metade da turma que vem de Desporto ter a lata de dizer na minha cara que copiam desde sempre para todas as disciplinas. Que nisso do copianso têm curso superior.

Levei aquilo muito a mal e disse-lhes o que penso sobre copiar: estou profundamente convicta que há uma relação entre o copiar e a situação em que o país está, isto é, os alunos que ganham na escola o hábito de copiar e se safam com isso são os que depois vão para os diversos trabalhos e para a política, se for o caso, cometer fraudes, abusar dos poderes, corromper e ser corrompidos e contribuir para a degradação da vida democrática e moral do país pois estão habituados a fazer qualquer coisa para passar à frente.

Aqui disseram-me que eu tinha que admitir que saber copiar revela inteligência e dá trabalho: afinal, para fazerem cábulas têm que estudar! Quanto a revelar inteligência, disse-lhes que roubar um quadro de um museu revela inteligência e não é por isso que valorizamos, desculpamos ou admiramos os ladrões; em segundo lugar, não é verdade que para fazer cábulas tenham que estudar, como se prova pelo facto de alunos péssimos, incapazes de fazerem qualquer coisa positiva por si próprios, serem muitas vezes muito bons nesse serviço.

Ser-se espertalhão e ter talento para o embuste não significa saber trabalhar.

Um teste não serve apenas para classificar, tem também um papel pedagógico: testa e treina a capacidade do aluno dominar a tensão e a ansiedade próprias de não ter a certeza de se lembrar do que é necessário, ser capaz de lembrar-se da matéria sob pressão, ser capaz de gerir o tempo que tem para o trabalho, etc.

Um aluno que estude e faça os testes sem cábulas tem todo um trabalho intelectual de organização, associação e arquitectura de  ideias e conteúdos de modo a saber, na altura do teste, recorrer à memória e aos conteúdos organizados e seleccionar os que interessam na resposta à questão. Um aluno que cabula, pode não compreender nada da matéria: geralmente os testes das disciplinas fazem perguntas sobre definições e fórmulas que eles só têm que copiar. Quer dizer, não aprendem nada com os testes que fazem e ficam sem noção do seu real valor.

Para além disso, é uma falta de respeito para com os colegas que trabalham e profundamente injusto que um aluno que não se dá ao trabalho de estudar e antes do teste pede o caderno a alguém e faz umas cábulas tenha a mesma nota, ou até melhor que outro que faz os possíveis para ultrapassar as suas dificuldades.

O que mais me choca nisto tudo é o à vontade com que disseram aquilo, pois mostra estarem habituados a que estas declarações sejam entendidas com graça. Pela maneira como a fraude está banalizada, isso dá a entender que a maioria dos professores, ou vê as cábulas e finge não ver, para não se chatear, ou não finge mas dá aquela de porreiraço que entende o copianço e até aprecia o engenho. É por estas e por outras que depois se ouve muito, relativamente à corrupção dos políticos, reações do género, 'É preciso reconhecer que foi esperto. No lugar dele fazia o mesmo'... e coisas assim.

Como me passei um bocado com estas declarações e preguei um sermão, começaram, 'Professora, acalme-se, é claro que consigo não se copia'.... pois claro, que eu nasci ontem e hoje já estou ali a dar aulas...

Acho que um professor tem que ser implacável nisso dos copianços. A profissão de professor e toda a educação assentam na verdade e na confiança. Todo o aluno espera, muito justamente,, que o professor fale verdade, seja de confiança e promova a justiça no espaço da sala de aula. Aceitar ser conivente, mesmo que não explicitamente, com uma mentira, é perverter todo o objectivo da educação. Porque os alunos, quando copiam, sabem muito bem que estão a tentar enganar o professor e o sistema, com a sua esperteza.

 

Avisei-os, primeiro que ia dizer a todos os professores o que me tinham dito de fazerem cábulas e copiarem para todas as disciplinas; depois eles já sabem que o dia do teste comigo é como se fosse dia de exame: em cima da mesa está a folha de teste e a esferográfica e mais nada - mochilas e livros, tudo longe. Disse-lhes que, se apanhar alguém com cábulas, leva zero no teste (não quero saber se copiou muito ou pouco porque isso é como um ladrão roubar um banco e depois dizer, 'Ah mas eu só roubei metade das notas'...; se aparecerem testes com respostas iguais, levam os dois zero, tanto o que copiou como o que deixou copiar;  ainda levam zero no comportamento e passam a ter tratamento apropriado das pessoas em quem não se pode ter confiança.

É que até agora, esta turma, ou fez testes de lógica só com exercícios, e os testes tinham versão A, B e C (que eu já cá ando há muito tempo) ou fez trabalhos com defesa oral com avaliação individualizada. Mas o teste de segunda é um teste muito tradicional. Textos de filósofos que estivemos a dar para explicarem conceitos, ideias e teorias por palavras próprias.

Passo-me com esta praga dos copianços.

 

publicado às 17:43


copiansos

por beatriz j a, em 08.02.10

 

 

Jovens plagiam cada vez mais para trabalhos escolares
As crianças e jovens recorrem cada vez mais à Internet para fazerem os trabalhos escolares. No entanto, o objectivo é sobretudo plagiar, não fazer pesquisas, alerta a investigadora Cristina Ponte, coordenadora do EU Kids Online Portugal SOL
 
Não acredito que plagiem mais, têm é mais meios à disposição que facilitam o 'copianso'. Onde dantes era necessário ir à biblioteca consultar livros, com grande incidência nas enciclopédias, que eram duas ou três e que todos utilizavam, agora o google fornece milhares de sites sobre cada assunto, sendo que não é possível a um professor corrê-los todos. É claro que uma pessoa vê pelo nível de linguagem se o discurso é compatível com o aluno em questão e, se o trabalho é entregue em formato digital é fácil fazer copy - paste de pedaços do trabalho no google e assim ver se foi copiado. Mas isso só é válido para os sites abertos e tem outros inconvenientes.
Existem sites como o Caderno Diário e o Nota Positiva que se dedicam exclusivamente a fornecer material -trabalhos- para tudo quanto é tema passível de trabalho em qualquer disciplina. Os ditos sites estão organizados por anos de escolaridade e disciplina e dizem até a classificação que determinado trabalho disponibilizado on line teve do professor, de tal modo que há alunos que têm o descaramento de dizer ao professor que merecem melhor nota, baseados nas informações dos sites de onde retiraram o trabalho.
Neste país os currículos cada vez mais favorecem esse facto porque acabaram com os exames quase todos e incentivam a realização de trabalhos de pesquisa com utilização de recursos da internet. No entanto, o ensino do Português, apesar de muito falado tem sido descurado. Os autores que ensinam a língua desaparecem do programa em favor de autores menores ou até de textos jornalísticos e de programas de TV. Um aluno que não sabe ler nem escrever e que tem um vocabulário reduzido não está emj condições de saber filtrar as informações a que acede na internet. São as chamadas 'literacias'.
Há ministros a citar a Wikipédia publicamente como se fosse um recurso fidedigno quando buscamos informações de rigor.
O próprio primeiro ministro e amigos têm problemas de fraudes nos seus C.V. Parece que esta ministra da educação também tem no seu C.V. um mestrado que na verdade foram três meses sem tese numa universidade de Boston.
Como é que se moralizam os alunos com exemplos destes?
Todo a escola construída para que todos passem para a estatística, com testes americanos, passagens com sete negativas e tal,  e depois chega-se aos exames e aquilo parece um estado polícial de tal modo que os exames deixaram de ser uma etapa pedagógica e parecem uma inquisição judicial.
Está o sistema educativo cheio destas contradições. E, no entanto, um estudo feito num país nórdico há coisa de dois anos, mostrava claramente que existe uma correlação proporcional entre os hábitos de copiar nas escolas e o grau de corrupção dos países. É que, quem hoje batota na escola amanhã batota no emprego e na vida. A Finlândia era a que tinha menos 'copianso', cerca de 15%, Portugal era dos que tinha mais, cerca de 85%...será preciso dizer mais?
 
 

publicado às 22:49


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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