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da experiência das aulas

por beatriz j a, em 28.08.17

 

 

Não vejo que cada aluno tenha a sua maneira de aprender como geralmente se assume quando se fala neste assunto da aprendizagem. Não é isso o que observei nestes cerca de trinta anos a dar aulas de Filosofia a adolescentes, geralmente entre os 15 e os 19 anos. Não é como se usassem processos mentais diferenciados: todos têm os instrumentos que os tornam capazes de imaginação, de análise dedutiva, de comparação, de generalização indutiva, etc.

O que acontece é que chegam às aulas com esses instrumentos em estádios diferentes de desenvolvimento. A maioria, em geral, já exercitou muito a imaginação mas pouco a capacidade dedutiva, por exemplo. Acresce ainda a diferença de contextos intelectuais, físicos e psicológicos que cada um traz e com os quais filtram a informação de modo personalizado.

 

Há alunos com um nível de linguagem muito bom a facilitar a maleabilidade mental, a acomodação de novos conhecimentos e a ligação a outros conhecimentos de outras áreas e há alunos que não dominam minimamente a língua. Há alunos que já viajaram, tiveram contacto com outras culturas e têm mais facilidade em relativizar a sua própria maneira de ver o mundo, outros nunca saíram sequer da cidade em que vivem e tudo o que é estranho lhes faz confusão. Há alunos com uma tal falta de auto-estima que acham que tudo vai ser dificílimo e desistem à primeira frustração, outros têm muita confiança em si mesmos e são proactivos. Uns alunos tiveram a curiosidade estimulada, outros não vêem interesse em coisa alguma. Há alunos em depressão que andam por ali distantes como se tivessem uma parede entre eles e o mundo. Há raparigas e rapazes que chegam completamente formatados: antes de nascerem já os pais punham o quarto todo cor-de-rosa ou azul, com princesas ou bolas de futebol, conforme os casos e o reforço do estereótipo é tão grande que têm dificuldade com tudo o que sai do papel para que os treinaram. Há alunos que acabaram de descobrir a sexualidade e não conseguem concentrar-se noutra coisa. Há alunos que nunca foram ensinados a estudar e não têm nenhuma disciplina mental. Há alunos que têm famílias que os apoiam, outros estão sózinhos. Há alunos que têm pendor muito forte para uma disciplina, como a Biologia, a Educação Física ou a Matemática, por exemplo, e traduzem toda a aprendizagem nessa linguagem. Há alunos que filtram tudo pela religião que professam. E muitos outros factores existem.

 

O importante e, díficil também, é perceber onde cada um está neste processo de desenvolvimento e compensar - com a quantidade de alunos dentro das salas de aula é impossível fazer-se o trabalho como se poderia fazer.

O problema da linguagem é fundamental porque sem a ferramenta dos conceitos nenhuma ideia se trabalha. Portanto, nesta idade, alguns problemas são já muito difíceis de ultrapassar. Se um aluno está no 10º ano com um nível de linguagem de 5º ano não há muito que se possa fazer por ele. No ano passado tive um aluno do leste europeu que estava pela 3ª vez no 10º ano. Falava  e percebia muito mal o português apesar de estar cá desde o 5º ano. Trabalhou imenso, imenso e acabou por chumbar porque não conseguiu passar a várias disciplinas. Estes casos custam muito a engolir... A escola-sistema falha muito na falta de acompanhamento e apoio sistematizado para estes alunos que precisam de um trabalho especializado e um cuidado especial para melhorar alguns instrumentos fundamentais ou compensarem os seus contextos pobres. Faltam professores, psicólogos, terapeutas, assistentes sociais. Não se fazem omeletes sem ovos...

Às vezes é ao contrário e um aluno está tão à frente dos outros que o desafio é não deixar que se desmotive pela falta de estímulos ao seu nível.

 

O que queria dizer, finalmente, é que não vejo os alunos a aprender de maneira diferente, com recursos intelectuais diferentes, vejo-os é muito assimétricos contextualmente.

 

Como é que se percebe o ponto de desenvolvimento de cada um e se pode fazer essa compensação? Eu sei como faço mas isso fica para a próxima.

 

publicado às 17:48


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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