Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Os filmes de Yorgos Lanthimos têm um ponto de vista sobre um certo aspecto da realidade e fazem-nos pensar.
Este filme é sobre a rainha Anne [a que constituiu, no século XVIII, o Reino Unido] e as suas duas favoritas, personagens da nobreza que existiram mesmo e que governaram a Inglaterra, entre si, durante muitos anos. O filme é uma trágico-comédia negra e opressiva. A maior parte do filme passa-se em meia dúzia de salas do palácio da rainha com as duas mulheres a lutarem pelo favor da rainha com o fito de obter o poder e controlo da côrte e do país. Nesse sentido é opressivo porque as três são pessoas manipuladoras numa relação de forças completamente disfuncional.
No meio desta luta, decidem ir para a guerra com a França, subir os impostos à população... enfim, aquela loucura contida delas afecta a vida e os acontecimentos importantes de todo um país.
O que acho interessante no filme é o conseguir, através deste caso particular, mostrar o que é a disfunção e a loucura alienada do poder que afecta inconscientemente a vida de milhões de pessoas. O que quero dizer é que esta situação que se vê no filme, vemo-la ao longo da história inúmeras vezes. Pessoas disfuncionais, mal formadas, completamente alienadas e indiferentes à realidade dos milhões de vidas que controlam e afectam numa espiral concêntrica insana.
Não falo apenas das enormes tragédias que mudaram o mundo, como a dos nazis, alienados numa cúpula de loucura psicótica e cega em torno dum lunático desvairado ou de Estaline, claustrofóbico que vivia para matar colaboradores à tripa-forra, fechado nas sua paranóias de perseguição; falo da Catarina de Médicis, por exemplo, que a certa altura governava a França com os seus filhos como marionetas e as suas prostitutas armadas de venenos com que matavam opositores, ao mesmo tempo que decidia as guerras e os saques à população; falo do reinado do Luís XIV, a certa altura fechados em Versailhes numa corte lunática de intrigas e traições onde era mais grave falhar a etiqueta que falhar o inimigo; falo dos Papas que viviam fechados no Vaticano com os seus escravos sexuais e decidiam guerras ao pequeno almoço; falo dos governos que perdem o sentido da realidade e começam a governar para si próprios e para as suas disfunções partidárias; falo das pequenas-grandes tragédias como a que nos aconteceu quando meia dúzia de tipos mal formados (Oliveiras e Costas, sócrates, zenas, granadeiros, varas, salgados, etc.) formavam um clube de bandidos que viviam em circuito fechado entre bancos, governos e administrações a mandar no país e a decidir a pobreza dos concidadãos enquanto os delapidavam para fazerem viagens, comprarem iates e outras futilidades.
É isso que o filme mostra genialmente: como duas, três ou meia dúzia de pessoas, numa posição de poder, afectam tragicamente a vida dos outros, na mais completa alienação e disfunção sociais.
O filme apanha o carácter trágico da situação e uma certa propriedade de ridículo que essas pessoas têm. Vemos esse ridículo-trágico nessas figuras quando são postas em contraste com a realidade, fora dos círculos fechados em que vivem as suas disfunções.
Vemo-lo no Hitler, mas também o vemos no Trump, no Sócrates, de há uns anos para cá no Putin (desde que se tornou uma caricatura de si mesmo), no Erdogan, quando aparece nas eleições a descer uma escadaria ladeada com as figuras dos imperadores Otomanos e em muitos outros líderes disfuncionais mas com a mania das grandezas.
Enfim, o filme apanha isso impecavelmente. Depois o bom gosto da música, dos diálogos, da cinematografia, das roupas, dos cenários, o trabalho extraordinário das três actrizes, tudo concorre para esta visão trágico-cómica do poder quando exercido deste modo.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.