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Just saying... the obvious...

por beatriz j a, em 30.08.17

 

 

Todos os estudos mostram que as raparigas têm facilidade na linguagem e comunicação e que os rapazes têm dificuldades nessa mesma área. Mesmo que isto seja verdade*, a solução não é separarmos os exercícios e testes das raparigas e dos rapazes, dando-lhes a elas textos complexos com exercícios complexos e a eles, textos com a lista do supermercado para ir ao encontro das limitações da sua natureza. Pelo contrário, se naturalmente eles são piores em uma área, têm que trabalhá-la mais para a desenvolver. Da mesma maneira, a ser verdade que as raparigas têm menos aptidão para a orientação espacial, a solução pedagógica não é reforçar a dificuldade dando tarefas mais fáceis mas, justamente, compensar com estímulos o desenvolvimento. Óbvio, não?

 

*desconfio muito destes estudos que professam estas e outras petições de princípio dogmáticas acerca das capacidades femininas e masculinas; volta e meia dou-me ao trabalho de seguir os estudos até às fontes e à experimentação que lhes deu origem e o que vejo é que têm por base interpretações de experimentos já de si enviesados. Por exemplo, aqui há tempos estive a ler uma experiência feita por dois investigadores, homens, em que punham numa sala carrinhos, aviões e livros e deixavam as crianças escolher. Concluiram que as raparigas são melhores na linguagem porque escolhiam os livros e os rapazes gostam mais de explorar coisas porque escolhiam os aviões e os carros. Ora, é evidente, como diziam os revisores da experiência, que estes investigadores homens, escolheram 'coisas' que fazem já parte da educação dos rapazes, carros e aviões. Não sabem se, tendo posto lá dentro vestidos, bonecas e livros, as raparigas não se interessavam por desmanchar os vestidos e as bonecas (coisas) e os rapazes por ler os livros. Ou seja, os investigadores, homens, poluíram o estudo desde o início com as suas escolhas mas não se coibiram de tirar conclusões dogmáticas como se tivessem chegado a uma verdade.

 

Outro exemplo, no dia em que fui ao hospital levar a vacina, fui ao café. Estava lá uma mãe com dois filhos, uma rapariga e um rapaz, de idades de seis e sete anos ou por aí. Estavam a comer uma sandes e levantaram-se. A mãe diz para a rapariga, 'deixa-te estar sentada a comer. Uma senhora tem sempre classe.' Depois voltou-se para o rapaz e disse, 'podes ir explorar até ao elevador'. Estes reforços de estereótipo de género são constantes e penso que as pessoas nem se dão conta do que fazem mas estas coisas têm consequências no desenvolvimento das crianças.

 

Outro exemplo, não tenho nenhum sentido de orientação, mas é porque não conduzo, de modo que enquanto o/a condutor/a se preocupa com direcções e sentidos norte e sul, etc., eu vou a apreciar a paisagem, reparar nos monumentos, nas pessoas, na natureza, distraída a pensar em qualquer coisa, etc. Quer dizer, nunca estimulei isso em mim e, em geral, vou dar aos sítios, sem me perder, por intuição. Sou péssima a memorizar nomes de pessoas porque não faço o mínimo esforço. Todos os anos tenhos que pôr na cabeça centenas de nomes e caras de alunos e depois deitá-los fora e pôr outros novos. Não estou para gastar tempo e espaço de memória com coisas temporárias. Tenho técnicas para facilitar a memorização mas não valorizo essa habilidade de modo que não a desenvolvi e levo muito mais tempo que os colegas a saber o nome dos alunos.

 

É óbvio que a educação deve estimular e esticar ao máximo, se puder, as potencialidades (que são plásticas) e não reforçar as dificuldades. E quem anda no meio da educação, seja na escola, seja na editora que faz livros para a educação, se não percebe isso, dedique-se à pesca mas não estrague as possibilidades das pessoas.

 

publicado às 15:06


Pois... não há dinheiro...

por beatriz j a, em 04.06.15

 

 

Portugal abaixo da média europeia no consumo e tráfico de droga

 

 

Tags:

publicado às 16:06


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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