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Marcelo exorta portugueses a "despertarem" e "agirem" contra populismos

Tem sido um tema recorrente nos discursos do Presidente da República: o apelo à acção contra os perigos para a democracia. Num texto para a TSF, Marcelo insiste na mensagem.

 

É que nós podemos pouco mais podemos fazer que falar e votar mas o Presidente está em posição de agir contra estas forças que fazem nascer os populismos e não o tem feito.

 

O modelo económico-financeiro do país e da Europa dos útimos vinte ou trinta anos não são de molde a que se possa ter visões e valores políticos de inversão da tendência de degradação do que é público em favor da construção de forças de interesses privados que colidem com o desenvolvimento positivo das democracias.

 

Falo de três factores: o sacrifício do investimento público com benefício do investimento cego na banca sem responsabilização; a desresponsabilização recorrente dos políticos que causam danos ao país e o fecho dos círculos políticos a qualquer aragem de forças de renovação.

 

Primeiro: tem havido um movimento consciente de proletarização faseada das três grandes áreas públicas das quais dependem as democracias: primeiro foi a educação, logo a seguir a saúde e agora começa-se a degradar a justiça, também.

 

Primeiro proletarizararam-se os professores, reduzidos a funcionários facilitadores de certificações, controlados pelo Estado na sua missão de poupar dinheiro para investir na banca e em empreendimentos financeiros e políticos duvidosos que beneficiam entidades particulares cativadores dos bens públicos. A proletarização dos professores (longas horas de trabalho mal pago, burocrático, com excesso de turmas e alunos e sem benefício para estes) e a proletarização dos currículos na sua pobreza de aprendizagens essenciais niveladas pelo mais pobre de espírito, leva à degradação do próprio ensino e, portanto, ajuda a formar cidadãos menos capazes, menos conscientes, mais indulgentes, mais medrosos, consumistas e impotentes.

Nesta destruição consciente da educação, dia sim dia não saem notícias a caluniar e degradar o estatuto dos professores, sacrificados na mesa da auto-indulgência dos políticos.

 

A seguir proletarizaram-se os enfermeiros e os médicos. Essa operação ainda está em curso. Dia sim dia não demonizam-se os enfermeiros como se fez com os professores, descritos como gente indigna que pouco faz e só pensa em dinheiro.

Os médicos a mesma coisa: transformados em tarefeiros que correm de um hospital para outro para ganhar um salário, obrigados a fazer trabalho de enfermeiros e ajudantes, trabalham dezenas de horas de enfiada, mal pagos (Médico: profissão de risco) e deprimidos; é evidente que os serviços se deterioram o que tem efeito na saúde dos doentes, postos em situações de impotência perante os poderes, por medo e falta de meios para se curarem. Logo, cidadãos mais manipuláveis. Os póprios médicos em situação precária individualizam-se e calam-se.

 

Os juízes estão agora a começar a ser atacados. Há falta de procuradores (Combate à violência doméstica vai regredir, avisam procuradores), há problemas com a discussão e aprovação do estatuto dos juízes e de cada vez que essas coisas vêm à discussão começam a aparecer nos jornais notícias a degradar a imagem dos juízes como há pouco onde se dizia que os juízes que não trabalham são os que ganham mais e etc. A destruição da imagem dos juízes leva ao controlo da justiça pelos políticos o que por sua vez leva à degradação da democracia pela falta de independência da justiça face aos interesses dos políticos.

As forças de investigação e segurança, como a PJ, têm menos pessoal que há dez anos para trabalhar... excesso de trabalho sem compensação. Qualquer dia temos que fazer como os brasileiros, se tivermos dinheiro, lá está, e contratar jagunços para protecção...

 

Estas forças: professores, médicos e juízes, pela natureza das suas profissões de contactarem directamente com o povo são, em geral, profissões onde tradicionalmente mais se luta por uma visão da sociedade mais justa, são profissões já de si viradas para a utilidade social e, talvez por isso, são as forças que geralmente mais exercem pressão -directa ou indirectamente- nos poderes públicos para o desenvolvimento dos direitos das pessoas e progresso social.

 

Proletarizados, enfraquecem. Enfraquecidos, fazem menos pressão, tornam-se mais individualistas e mercantis. Individualistas como, aliás, os querem as forças políticas completamente dominadas pelos grupos económico- financeiros que querem cidadãos em constante competição (destruidora do tecido social) por bens de consumo e prazer, cada vez mais enfraquecidos nos seus direitos e menos reivindicativos.

 

A degradação do espaço público leva ao ressentimento contra os políticos e forças financeiras e à desresponsabilização destes à medida que cresce o fosso entre poderosos e ricos e povo em geral. A desresponsabilização gera mais ressentimento, frustração e desistência - porque a diferença de forças entre o Estado e os amigos do Estado e os cidadãos particulares em geral, é demolidora.

Cada vez que um político quer destruir uma pessoa ou uma força manda os jornais fazer uma campanha até quebrá-las e cada vez que quer promover-se manda os jornais escreverem artigos masturbatórios.

 

Segundo: desresponsabilização recorrente dos políticos e dos gestores que causam danos ao país e clientelismo vergonhoso, desde receberem mesmo dinheiro à descarada até empregarem toda a família e amigos no Estado e viverem de fraudes nos salários e ajudas de custo e etc. E isto à custa de nos roubarem nos impostos, nos salários congelados, etc.

Não só não são responsabilizados como são enviados a destruir o pelouro a seguir como os padres pedófilos que eram enviados de paróquia em paróquia como é o caso de tantos gestores de bancos e empresas públicas que são premiados pela incúria, incompetência e até corrupção. Isto causa a total descrença na política e na banca. Se houvesse uma alternativa à banca no que respeita a guardar os nossos bens, nem um tostão ficava nos bancos.

 

Finalmente, os partidos fecharam a possibilidade de novas forças rejuvenescerem estes quistos que tomaram conta dos partidos e os transformaram numa espécie de 'famiglias' com os seus corruptos, os seus caceteiros e tudo.

 

É isto, senhor Presidente, que está na origem dos populismos. É as pessoas assistirem, impotentes, à degradação das forças democráticas para benefício de uns poucos e, a certa altura, cada vez mais proletarizados, enfraquecidos e impotentes para mudar o rumo da situação entrarem naqueles raciocínos de, 'perdidos por cem, perdidos por mil' ou, 'quanto pior melhor para ver se isto dá uma volta', etc.

 

O senhor, que está em posição de agir, tem compactuado com os Centenos que tudo sacrificam pelo poder e pelas falsas ideias dos mesmos interesses financeiros e políticos que laboram para a destruição do espaço público e das pessoas que dele vivem -todos nós- e que são coniventes com os cegos europeus que nos conduzem dia após dia ao desastre colectivo. Sim, porque veja, senhor Presidente, o que eu faço atinge a minha família, os amigos, os alunos, os colegas e os que me lêem, talvez, mas o que o senhor enquanto Presidente e outros políticos com cargos importantes fazem, atingem logo directamente milhões e indirectamente dezenas ou centenas de milhões.

 

De modo que, acorde o senhor, desperte e lute contra os populismos pois para o primeiro-ministro e ministro das finanças, populismo é lutar pelo bem estar das pessoas em detrimento dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros e para eles isto vai de vento em popa!

 

Há pouco tempo, um amigo, religiosamente PS, numa discussão deste assunto, disse-me, 'mas os pobres não se queixam deste governo, os únicos que se queixam são vocês (profs), os médicos, os enfermeiros e juízes que estão bem na vida...' pois, os pobres não se queixam porque já não têm nenhuma força para se queixarem, completamente dependentes que estão de pensões e salários miseráveis ao passo que estes que ele citava são ainda os que conseguem lutar por uma sociedade mais justa. Por enquanto. Enquanto não os destruírem completamente e com eles o que resta da 'res publica'.

 

Este Presidente não faz um gesto a favor de nenhum deste profissionais, só dos discursos dos governos contra eles. E faz questão de estar sempre ao lado dos banqueiros e gestores para benefício de quem o país está a ser destruído.

 

Acorde o senhor e aja ou, pelo menos, não compactue com a destruição dos pilares da res publica!

 

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publicado às 16:01



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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