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Propinas ou não propinas

por beatriz j a, em 16.01.19

 

Universidades públicas para ricos

Querer reduzir as propinas da licenciatura, dizendo às universidades para se financiarem com as propinas do mestrado, é pior do que um presente envenenado.

 

Este artigo faz um diagnóstico que me parece correcto quando diz que propôr às universdades que se financiem com os mestrados é um artifício que não resolve o problema aos alunos, dado que as licenciaturas pós-bolonha não têm grande valor sem os mestrados e dado o preço exorbitante destes últimos.

 

O que não me parece correcto é a solução que propõe que consiste em continuar a cobrar propinas  mas deferir o seu pagamento para depois de acabado o curso com um contrato de empréstimo. Este é o modelo americano que está em falência -o ensino universitário está em decadência em parte por causa deste mercantilismo e estão com falta de alunos- devido a os alunos estarem tão endividados à saída da universidade que só uma pequeníssima minoria que arranje trabalho muitíssimo bem pago consegue pagar antes dos 40 ou 50 anos.

Ora, nós somos um país onde os empregadores esperam que após o curso os alunos estagiem de borla e que quando comecem a trabalhar o façam pelo salário mínimo em condições de precaridade. De modo que isso é uma falsa solução.

 

Depois diz que as propinas são apenas um sétimo do custo anual de estudar na universidade, coisa que ronda os 5800€. Pois, acredito que seja verdade mas são um sétimo de custo fixo enquanto os outros são variáveis. Quero dizer, eu dou aulas numa escola que tem muitos alunos com muitas dificuldades económicas a par de outros que têm bastante dinheiro. Eu vejo que os alunos com dificuldades económicas que querem estudar estão habituados a fazer sacrifícios. Compram menos coisas e mais baratas, comem sempre na cantina, quando não conseguem comprar livros pedem emprestado, etc. São pessoas que não tendo que pagar propinas na universidade, se quiserem ir estudar, fazem os sacrifícios que já estão habituados a fazer. Ajustam-se. Agora, se têm custos fixos a que não podem fugir não têm hipótese. Outro dia um aluno perguntava-me se quando fui estudar Filosofia não tive medo de me arrepender ao fim de um ano ou dois e depois perder o dinheiro das propinas desses anos... só que quando tirei o curso não se pagava propinas. Muitas pessoas que são a favor de pagar propinas são do meu tempo e não as pagaram.

 

Até estou de acordo com o argumento segundo o qual o que faz sentido é aumentarem-se as bolsas e as ajudas a quem não tem dinheiro em vez de se pagarem os custos aos alunos com dinheiro. O problema é que isso choca com a realidade e a realidade é que os governos vão buscar dinheiro aos que menos têm. Cada vez mais as ajudas estão condicionadas por mais entraves e é preciso ser-se praticamente indigente para se conseguir uma pequena ajuda do Estado e mesmo nesses casos, se a pessoa falha um papelinho dos inúmeros que obrigam a entregar num prazo de dois dias ou assim, perde todos os direitos. Essa é a realidade. Há uns poucos meses o Centeno quis anular os prémios de desempenho escolar aos alunos mais pobres e só não o fez porque a notícia causou tal escândalo em todo o lado que voltaram atrás na medida. Mas pensaram em fazê-lo.

 

De modo que propôr como solução que o Estado dê bolsas a quem não tem dinheiro é igual a propôr que vá buscar o dinheiro aos mestrados. No papel parece muito bonito e razoável mas na realidade não funciona porque os governos tiram a quem tem menos para dar a quem tem mais.

Ora, o que interessava era uma proposta que efectivemente permitisse que quem não tem dinheiro mas quer estudar o pudesse fazer sem ter que se prostituir para pagar as dívidas contraídas como acontece muito nos EUA e em Inglaterra.

 

publicado às 09:44



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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