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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Yascha Mounk distingue em, The People vs. Democracy, a democracia do liberalismo. A democracia liberal, diz, tem duas componentes - 'democracia', um conjunto de instituições eleitorais vinculativas que traduzem efectivamente as visões populares em políticas públicas e, 'instituições liberais' que são aquelas que protegem efectivamente o Estado de Direito e garantem os direitos individuais aos cidadãos. Uma sociedade é uma democracia liberal se combina instituições democráticas e liberais. Segue-se que algumas sociedades podem ser democráticas mas não liberais ou liberais mas não democráticas.
Em seu entender, a essência do populismo está em oferecer soluções fáceis a problemas complexos, aproveitando-se do facto dos eleitores não querem ouvir dizer que o mundo é complexo e que não há soluções imediatas para os seus problemas. Face a políticos que não sabem, eles mesmos, lidar com um mundo cada vez mais complexo, os eleitores estão dispostos a votar em alguém que lhes prometa uma solução simples e imediata, como construir um muro, por exemplo.
Sendo a resposta de construir um muro, uma resposta simples, o facto de não ter sido adoptada há mais tempo só pode dever-se a uma conspiração dos inimigos do povo (políticos corruptos, agentes estrangeiros) donde a única solução passa por eleger um homem honesto e dar-lhe poder para interpretar a voz do povo, em vez de deixar falar o próprio povo. E é assim que as democracias se separam do liberalismo.
O liberalismo não democrático liga-se à ascensão da tecnocracia: especialistas, burocratas, lobistas, todos alimentam uma oligarquia que vai minando o liberalismo. Quando a tecnocracia se combina com a oligarquia, a influência dos eleitores começa a ser marginal e a mistura de ambas fertiliza o terreno para o populismo: é por as pessoas terem perdido a sua voz que o populista tem sucesso ao defender querer restaurar a sua voz. Segundo o autor, o populismo autoritário é a reação típica à oligarquia e à tecnocracia.
Acho que este livro responde ao artigo sobre a ascensão dos autocratas e ao ataque das democracias liberais: é que estas deixaram-se enredar numa tecnocracia oligárquica, em parte por os políticos serem pessoas muito ignorantes e impreparadas para estes problemas e não terem, nem políticas, nem visão, nem estofo para o mundo em que vivemos.
A crise na Filosofia não tem ajudado...
Durante um tempo, aqui em Portugal, pese embora todos os erros e extremismos próprios das revoluções, o 25 de Abril possibilitou o surgir de um Estado democrático e liberal - as instituições democráticas funcionavam e aos pouco instituiu-se a defesa dos direitos dos cidadãos. Infelizmente, aquilo que nos ajudou economicamente, a entrada na UE, também nos prejudicou politicamente na medida em que fomos, e somos, pressionados à conformidade com uma oligarquia tecnocrata que abriu caminho aos populismos e autocracias por não ter cumprido as expectativas e nos está a arrastar para o mesmo mal que ataca os outros.
No entanto, temos hoje mais noção destes perigos do que havia há 30, 40 ou 100 anos. Isso deve-se, penso, à universalização da educação e aos efeitos positivos da globalização. Há uma consciência dos perigos que a situação actual carrega, pese embora não pareça haver soluções.
Como é que se resolve este problema, segundo o autor? Com essa capacidade que a razão tem de ser objectiva, de querer compreender, de resistir aos populismos, de falarmos uns com os outros, de nos juntarmos e de lutarmos pelos nossos direitos e pelos nossos valores democráticos e liberais mesmo que impliquem sacrifício (segundo o autor, à medida que cresce a autocracia cada vez será mais difícil alguém tomar uma posição individual que a contrarie) pois os tempos estão difíceis e temos que saber erguer-nos à sua altura, nós o povo, já que as oligarquias cada vez menos nos representam.
post scriptum em três partes:
1ª, parece-me que a defesa da educação é a forma mais eficar de lutar contra os autocratas, os oligarcas, os tecnocratas e todos os que semeiam populismos. Um povo consciente e [filosoficamente] educado está mais preparado que um povo ignorante, sem defesas;
2ª, a luta dos professores é uma luta pelos direitos contra políticos submissos à oligarquia dos tecnocratas que nos arrastam para uma situação de apatia e desesperança na política, problema muito grave que já se vê há algum tempo no país e que ninguém aborda como se não existisse;
3ª o PCP mostrou, com a sua reacção negativa à iniciativa legislativa dos professores aquilo que é e sempre foi: um partido que defende a oligarquia como forma de governo e a marginalização da vontade popular.
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