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O que custa aos Macrons deste mundo

por beatriz j a, em 07.03.19

 

... entre os quais se contam a parelha de quem não falo para não me enervar é a comunicação ter deixado de ser unidirecional. Dantes, os governantes falavam, discursavam as suas vaidades, engodos e/ou embustes praticamente sem contraditório. Os jornais faziam o seu trabalho de veículos dos governos do momento, excepto um ou outro jornal ou jornalista decente e com sentido deontológico. Os jornais tinham dois ou três opinidores, influenciadores que eram respeitados e até reverenciados.

A população em geral não tinha maneira de fazer crítica e contraditório do discurso do poder. Mesmo se tinham reivindicações, estas eram intermediadas por sindicatos ou outros mediadores autorizados e, em parte, dominados pelo poder. A critícia era pouca e chegava com grande delay ao poder que pouca importância lhe dava porque eram casos isolados uns dos outros.

 

Só que agora as pessoas ligam-se directamente umas às outras, funcionam em redes autónomas, livres do controlo governamental.

De repente, com as redes sociais, as pessoas dizem o que pensam sem mediação e sem pedir autorização. Fazem bypass dos mediadores tradicionais, incluindo os jornais. Através do FB ou do WhatsApp ou outra coisa qualquer, trocam informação directamente, cada um informa do seu contexto e, trazem para a praça pública assuntos que em outros tempos nunca sairiam dos gabinetes. 

 

É claro que isso incomoda o poder: habituados a comunicação unidirecional em tom imperativo de assunto fechado à discussão.

Isso ainda se vê nos dois de quem não falo, viu-se a propósito dos enfermeiros, viu-se na equipa da educação que chegou ao ponto de defender que os professores deviam ser proibidos de se poder manifestar a fazer greve, no governo que não sabe dialogar, no incompetente do Montepio que não percebe o mal de fazer os outros pagar as suas multas porque é assim que todos os banqueiros estão habituados a roubar agir e por aí fora.

 

Agora vêem-se confrontados com a crítica directa e no momento e de repente os seus discursos de vaidade não funcionam a não ser com os arregimentados dos partidos.

 

Os próprios políticos e satélites que se queixam das redes sociais, são os primeiros a ir para o twitter, o FB e outras redes ameaçar pancada, chamar palavrões a toda a gente que deles discorda, espalhar mentiras, falsas notícias e por aí fora.

 

Veja-se o que se passa em França com os coletes amarelos. O Macron, de repente, foi obrigado a considerar os interesses de pessoas, trabalhadores, a quem tradicionalmente não liga um átomo.

 

É a democracia a funcionar e o que isto mostra é a falta de cultura democrática dos nossos governantes que gostavam de poder ter um lápis vermelho e censurar todos os críticos.

Parece que hoje foram para o Parlamento discutir como proibir as fake news. Têm que começar por proibir-se a si mesmos.

 

Não são as fake news que estão a destruir a democracia, são os partidos políticos que pela sua actuação de cliques e gangs de distribuição de poder e privilégios fizeram a democracia liberal cair em descrédito. Aquilo que era o ideal de muitos países no mundo, a democracia ocidental, nomeadamente a europeia, hoje em dia é vista como pior que as democracias iliberais, justamente pela falta de ética dos governantes e partidos que lideram.

 

Não é nada de novo, infelizmente. Já Teofrasto, o académico grego sucessor de Aristóteles, em 300 AEC, descrevia os 'boateiros' como indivíduos que disseminavam falsos rumores pela cidade, citando fontes oficiosas para alcançar interesses próprios e prejudicar alheios.

 

Se os políticos fossem pessoas com valores democráticos e a generalidade dos jornais não fossem sicofantas do poder e, uns e outros, tivessem brio na justeza do que dizem e fazem, seria difícil disseminar falsas notícias... mas como todos os dias são apanhados a enganar, iludir, mentir, corromper, traficar influências, abusar do poder, tentar esconder aldrabices, atribuir aos outros as malfeitorias que fizeram e por aí fora, é fácil acreditar em falsas notícias de boateiros.

 

publicado às 19:49



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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