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Há uma placa no Largo do Carmo a lembrar a acção de Salgueiro Maia no dia 25 de Abril de 1974.  A placa não é dourada nem está numa parede com pompa a brilhar. Não. Está no chão, sem protecções, onde pode ser, e é, pisada por toda a gente que por ali passa. E é assim que está bem. Parece-me a mim que é uma grande metáfora do espírito do 25 de Abril e dos heróis desse dia, pessoas como Salgueiro Maia cuja noção do dever e coragem foram determinantes para o seu sucesso, pessoas que fizeram a revolução a pensar nos outros.

 

Como todos sabemos, Salgueiro Maia saiu para a Revolução às 3.30h da manhã com um pequeno e simples discurso acerca de já não ser possivel adiar a acção para acabar com o 'estado a que isto chegou' e voltou ao quartel nesse mesmo dia às 23.30h com a revolução feita como deve ser.

 

Como também sabemos, a caminho do Terreiro do Paço, foram passando por forças da segurança que não se manifestaram e deixaram-nos passar sem problemas até chegarem à Rua do Arsenal onde parecia que o movimento podia ser travado mas não foi, em parte pela sua coragem de manter-se firme e em parte pela recusa dos militares de dispararem contra si, como conta o próprio.

Mais tarde ao chegar ao Largo do Carmo, já contava com o apoio da populção, 


“Pelo meio dia e trinta cerquei o quartel da G.N.R. do Carmo. Foi bastante importante o apoio dado pela população no realizar destas operações pois que além de me indicarem todos os locais que dominavam o quartel e as portas de saída deste, abriram portas, varandas e acessos a telhados para que a nossa posição fosse mais dominante e eficaz. Também nesta altura começaram a surgir populares com alimentos e comida que distribuíram pelos soldados”

 

O 25 de Abril não é obra de uma só pessoa como nenhuma revolução o é mas, há pessoas que nos momentos decisivos em que os destinos se decidem, para o melhor ou para o pior, têm a coragem de manter-se fiéis aos seus princípios e ideais, por vezes com a coragem de pôr a vida em risco e, são esses que fazem a diferença. Salgueiro foi essa pessoa.

 

Como também sabemos Salgueiro Maia manteve-se fiel aos seus princípios e, mesmo em plena revolução, quando a História nos mostra ser vulgar a deriva para o excesso no exercício do poder, manteve-se sempre dentro dos limites da acção ética, no respeito pelos outros, mesmo por aqueles que se queria derrubar. A placa no Largo do Carmo, está no sítio exacto onde ele se dirigiu a Marcello Caetano e outros governantes sitiados no quartel e partir do qual escoltou Marcello Caetano, sempre com grande contenção de emoções e dignidade, em segurança, até ao avião que o levou do país.

 

Essas acções dele deram a tónica ao que viria a ser a revolução: um movimento popular de liberdade e não de violência.

Há falsos heróis desse dia, há outros que foram vítimas da ditadura mas que usaram a revolução para se tornarem naquilo contra o qual lutaram e há os que não souberam, e não sabem, nem exercer o poder sem abusos, nem largá-lo.

 

Salgueiro Maia era um homem do povo mas foi um Senhor. Um herói da revolução popular que soube exercer o poder quando foi necessário (e perigoso) e largá-lo quando chegou o momento e foi necessário.

 

 

largo-do-carmo-placa-chc3a3o-2.jpg

lxi-3012-01.jpg

Placa de memória a Salgueiro Maia no Largo do Carmo

 

salgueiro2carmo-1.jpg

Salgueiro Maia no Largo do Carmo no dia 25 de Abril de 74

 

Salgueiro-Maia-na-Rua-do-Arsenal.jpg

Salgueiro Maia na Rua do Arsenal no dia 25 de Abril de 74 (não sei de quem é esta famosa fotografia)

 

publicado às 15:45


2 comentários

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De cheia a 25.04.2019 às 22:32

A famosa fotografia dos carros de combate, mostra os carros de combate da Escola Pratica de Cavalaria, comandados por Salgueiro Maia, e os do Regimento de Cavalaria nº7, de Lisboa, comandados por um general, que ordenou fogo contra os de Salgueiro Maia, mas os subordinados não lhe obedeceram, evitando um confronto sangrento.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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