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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Mario Vargas Llosa - “Os heróis discretos são a grande reserva moral de um país” (excertos da entrevista)
Sobre o papel da cultura e da literatura na inversão do adormecimento das sociedades, na compreensão dos fenómenos de barbárie, na manutenção de uma necessária crítica beligerante:
Essa é uma das ideias fundamentais do seu pensamento, nomeadamente no ensaio A Civilização do Espectáculo, em que defende que o papel da literatura, da cultura, é ajudar as pessoas a libertarem-se das suas circunstâncias adversas.
Sem dúvida nenhuma. A literatura não é apenas uma fonte maravilhosa de prazer. Cumpre, além disso, uma função social e histórica de primeira ordem que é a de desenvolver nos leitores um espírito crítico. Depois de termos lido uma grande obra literária, um grande romance, um grande poema, um ensaio, regressamos ao mundo real convencidos de que a realidade está mal feita, que está muito aquém daquela ficção que somos capazes de inventar através da fantasia e da palavra. Isso faz-nos olhar para a nossa envolvência social, cultural e política com olhos muito críticos. E creio que essa é a razão pela qual a literatura, ao longo de toda a História, foi sempre vista com muita desconfiança e com muito temor pelos governos autoritários, pelas ditaduras, por todos os regimes que, no fundo, tratam de controlar a vida e querem demonstrar aos cidadãos que o mundo está bem feito. É essa a razão da censura. E efectivamente a literatura é um perigo para esse tipo de regimes porque tem sempre uma atitude muito crítica face ao mundo tal como ele é.
Mas que pode hoje a literatura contra a indiferença e o conformismo dos cidadãos, nomeadamente dos jovens?
O problema é que a literatura hoje em dia vive uma crise muito profunda, converteu-se sobretudo em entretenimento, perdeu a sua pugnacidade, a sua beligerância crítica, e busca sobretudo entreter. E o entretimento também é uma espécie de adormecimento, uma maneira de desmobilizar criticamente os cidadãos. Creio que essa crise da cultura, que é muito profunda na minha opinião, pode ter um efeito gravíssimo na vigência da democracia e da liberdade. Pela primeira vez na história, o pesadelo de [George] Orwell, de uma ditadura tecnológica, com um absoluto controlo sobre a vida das pessoas, um mundo de cidadãos convertidos em autómatos, já é possível. Isso acontece por causa da degradação da cultura no nosso tempo.
Considera que esta deriva da cultura para o entretenimento, a sua banalização, foi intencional?
Não, não, foi acontecendo. O desaparecimento do espírito crítico vem com a frivolização de uma cultura que só procura entreter e divertir, e que se converteu muito mais num espectáculo do que o que tradicionalmente era: pensamento, ideias, uma visão crítica da realidade, da vida e de todas as manifestações das relações humanas. Creio que esse problema – um problema mundial, porque dá-se tanto em países desenvolvidos,como em países subdesenvolvidos – é a maior ameaça à democracia. No passado, a democracia tinha a ameaça do comunismo, do marxismo, de doutrinas totalitárias, mas essas doutrinas caíram por si e não são hoje o perigo maior que tem a cultura democrática. A democracia, o inimigo maior tem-no no seu seio, e é o desaparecimento da cultura enquanto questionamento constante da realidade.
O filósofo francês Gilles Lipovetsky, com quem tem debatido publicamente estas questões sobre o papel da cultura nas sociedades actuais, lembra que a alta cultura não impediu barbáries como o nazismo.
Mas foi a cultura que permitiu derrotar o nazismo. Agora não temos uma cultura capaz de derrubar nada, porque a cultura tornou-se uma derrota em si mesma. Creio que foi a cultura que nos permitiu compreender a barbárie que significava o nazismo, a barbárie que significava o comunismo. E penso que a democracia triunfou em grande parte graças às ideias, valores, sonhos, fantasias e objectos artísticos criados por uma cultura que era fundamentalmente crítica, questionadora da realidade. Com a cultura transformada em algo passageiro, fugaz, não sei quem nos defenderia de novo das ameaças.
Sobre a crise da Europa:
Crê que há o perigo de ressurgimento dos regimes totalitários nesta velha Europa?
Desgraçadamente há alguns sintomas inquietantes – por exemplo, a grande criação cultural, política, moderna que é a União Europeia vive hoje em dia uma crise muito profunda. Há movimentos antieuropeus que estão a recorrer aos velhos recursos nacionalistas, racistas, e, ainda que sejam minoritários, significam um grande perigo. O retorno aos nacionalismos seria uma grande tragédia para a Europa neste mundo globalizado.
As cifras económicas melhoraram um pouco, e mostram que os diferentes países estão a progredir, mas instalou-se, entre os cidadãos, uma certa incapacidade de acreditar.
Há uma grande desconfiança na classe política e considero que justificada. As estruturas políticas estão muito distanciadas da realidade, desfasadas. A corrupção, por outro lado, contribuiu muitíssimo para o desprestígio da política. Isso fez com que movimentos anti-sistema, extremistas, tanto de direita como de esquerda, tenham crescido muito. Esse perigo, há que enfrentá-lo de forma muito resoluta, com maior transparência, castigando os corruptos, devolvendo à opinião pública a fé nas instituições, que é algo absolutamente fundamental para que uma cultura democrática funcione.
Sobre o erotismo e o amor:
Fonchito e Lucrécia, com don Rigoberto, são protagonistas, em vários dos seus romances, de episódios de amor e erotismo. Há neles sempre um jogo com tabus e proibições, como quando Fonchito pede a Lucrécia que imite as poses das mulheres pintadas por Egon Schiele.
George Bataille dizia algo que me parece muito certo e que era que, se desaparece a ideia de transgressão e de tabu, desaparece o erotismo. Creio que o erotismo é uma espécie de jogo altamente civilizado no qual um par inventa uma mise-en-scène para enriquecer o jogo do amor. Então, se a transgressão não existe, há que inventá-la para que o erotismo surja e enriqueça o amor físico, desanimalizando-o, acrescentando-lhe um elemento de espiritualidade e de criatividade artística. Creio que essa é a ideia básica do erotismo.
Crê que isso pode ser compreendido pelos jovens de hoje que perante o sexo se fazem adultos muito cedo?
Não por muitos, porque converteram o sexo numa espécie de desporto passageiro e efémero. Creio que o amor é muito mais profundo do que aquilo que muitos jovens hoje em dia fazem com ele, graças à liberdade que existe.
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