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Mais um texto com insinuações e falácias

por beatriz j a, em 14.06.15

 

 

A pressão dos exames e a descontracção das pausas escolares

Joaquim Homem de Gouveia, um de jovem de 15 anos (...) O que ele não percebe mesmo é porque é que as escolas colocam tanta pressão sobre os alunos. “Não entendo porque fazem isso. Estão sempre a falar do que vem e do que pode vir no exame”, exclama. 

Não percebe? As escolas pressionam os alunos porque o MEC as pressiona, porque o ministro não fala em outra coisa e porque podem ser penalizadas por causa das notas de exames.

 

 Hélder de Sousa não hesita em considerar ser esse “o maior erro que se comete em matéria de prática de sala de aula”...

Mas que frase tão reveladora! O MAIOR ERRO? Lá está como o MEC e suas instituições põe os exames à frente de tudo que até pensa que o maior erro nas aprendizagens tem que ver com a preocupação com exames. Nesta frases vê-se que não fazem ideia do que é uma sala de aula numa escola de ensino básico e secundário...

 

Mas aponta outra via, mais trabalhosa e, aparentemente, mais consequente, cujo objectivo seria as escolas darem prioridade à identificação das competências-padrão necessárias para os alunos serem capazes de processar a informação em qualquer contexto.

Mais trabalhosa, é uma maneira subreptícia de insinuar que os professores preferem o que dá menos trabalho... "Competências que permitem processar a informação em qualquer contexto": isto é uma maneira tortuosa de dizer, ensinar a não stressar no contexto de exame. Pois, os professores devem deixar de dar matéria obrigatória para fazer Yoga e outros exercícios de relaxamento com os alunos... talvez se o MEC não passasse a vida a falar dos exames e só desse importância aos exames [os alunos estão atentos às notícias sobre os exames, sabe?] não houvesse esta pressão.

 

A proposta comporta uma autêntica ruptura na mudança de mentalidades [aqui insinua-se que o problema é a mentalidade dos professores... para variar...] em toda a comunidade escolar, que teria de ser capaz de sacudir a pressão e não ter medo de enfrentar conclusões adversas [portanto, aqui reduz-se o problema dos exames a professores que têm medo de enfrentar consequências adversas...].

 

A avaliação minuciosa dos conhecimentos dos alunos nos vários domínios, analisar a evolução dos seus resultados ao longo do ano [os professores avaliam os alunos mas a avaliação não é sempre em forma de teste de exame porque isso é anti-pedagógico e redutor. No entanto, dada a importância que o exame assume na nota final dos alunos e entrada para a universidade, tem que lhe ser dada proridade. Por isso, muitos, mas muitos testes, têm que ser feitos exactamente com a estrutura do exame pois de outro modo, os alunos chegam ao exame e perdem imenso tempo a perceber como devem mobilizar os conhecimentos e técnicas para responder áquela estrutura de teste. Ao contrário do que este senhor diz, não há respostas absolutas independentes dos contextos, nem técnicas universais que sirvam para quaisquer contextos. As respostas, as técnicas e as soluções têm que adequar-se aos contextos em causa. Daí que os professores se preocupem com o treino do contexto de exame para que os alunos não sejam surpreendidos. Tanto isto é assim que o IAVE -antes GAVE- divulga com antecedência a matriz e a estrutura de exame, coisa que este senhor muito bem sabe...] e, sobretudo, ensiná-los no que está mal aprendido requer tempo.

 

E é por isso que não se entende a proposta agora feita pelo Conselho das Escolas ao Ministério da Educação de fazer uma pausa no meio do primeiro período de aulas. Quando toda a gente se queixa, inclusivamente os professores, de falta de tempo para dar as matérias e quando já existem tantas férias escolares, esta é uma ideia ao arrepio de todas as exigências. E que não abona nada a favor da imagem das escolas.

 

Requer tempo, sim, mas a falta de tempo não está em os professores ou os alunos terem férias a mais. A segunda fase de exames acaba em vinte e tal de Julho, portanto, para imensos alunos, o ano lectivo já acaba quase no fim de Julho. O problema da falta de tempo está na dimensão das turmas, dos programas e na sua incoerência, na quantidade de papelada burocrática inútil que produzimos, no número infindável de reuniões inúteis que se fazem no básico e que deixam as pessoas exaustas.

Por exemplo, a carga horária dos programas de Biologia, Física e Psicologia (e não sei se mais outros) do 12º ano foi reduzida em um terço das aulas e os programas que já eram enormes, não foram mexidos, de modo que esperam que os professores dêem os mesmos programas, e com qualidade, com menos 33% de aulas...?

Não há coerência nem políticas na educação: há a obsessão com os exames, obsessão em poupar dinheiro na educação, obsessão com a instrumentalização da educação e obsessão em acusar os professores para se livrar de responsabilidades.

Eu e muitos milhares de professores estamos à espera de um ministro e outros responsáveis da educação que tenham uma política para a educação e, também, um pouco de responsabilidade. Experimentam tudo à balda. Nós fazemos tudo, todas as ideias que as mentezinhas do MEC inventam:

- Agora é preciso fazer mais 3 reuniões por semana: nós fazemos;

- Agora é preciso produzir mais 20 relatórios por período: nós fazemos;

- Agora é preciso passar a usar materiais interactivos: nós fazemos;

- Agora é preciso passar a ter mais seis alunos em cada turma: nós fazemos;

- Agora é preciso fazer formações inúteis: nós fazemos;

- Agora é preciso... etc, etc., etc.... nós fazemos tudo, alteramos tudo, adaptamo-nos a tudo e depois as coisas não funcionam. Ao MEC não lhe passa pela cabeça que talvez esteja a fazer qualquer coisa muito mal. Não! Pois se eles são excelentes a pensar 'coisas'. O mal tem que ser sempre dos professores. Só que as pessoas começam a não acreditar nisso porque toda a gente vê que os professores têm sido pau para toda a obra e fazem tudo. E na realidade o abandono escolar baixou, os alunos portugueses melhoraram os resultados nos PISA.

 

Mas da parte do MEC, cada vez têm mais poder e retiram autonomia aos professores para fazerem tudo à maneira pessoal do senhor ministro x ou y e de seus ajudantes e é o que se vê... fazem as coisas mal e atiram a responsabilidade para cima dos professores.

Quem não se lembra dos testes intermédios que faziam parar duas semanas de aulas a meio do 2º período para nada? E o PET este ano que roubou aulas a disciplinas? Com ameaças aos professores que foram obrigados a faltar às suas aulas e tudo, para organizarem um exame inútil de inglês ao serviço de uma instituição estrangeira. 

As aulas servem para tudo, retiram-se aulas aos programas, os professores podem ser colocados em Novembro como aconteceu o ano passado, as escolas estão com ambientes péssimos por causa das implementações do MEC mas depois o problema são os professores terem muito descanso?

 

Aliás, porque é que continuamos sem saber quem são as pessoas que fazem os exames nacionais? Têm medo das consequências adversas? 

 

 

publicado às 10:55


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