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Liberdade de expressão, respeito e religião

por beatriz j a, em 08.01.15

 

 

 

Vamos lá deixar aqui uma coisa muito clara: nenhuma caricatura, desenho, piada, revista brejeira ou até ordinária que goze com as igrejas alguma vez será tão ofensiva para as religiões como as religiões são para as mulheres.

 

Todos os dias temos que ouvir líderes religiosos defender que é bom as mulheres serem educadas pela força ou apedrejadas ou que não devem estudar para serem submissas ou que devem restringir-se ao espaço doméstico, ter filhos e cuidar deles como se fossem porcas reprodutoras ou que não devem deslocar-se ou trabalhar sem autorização dos maridos ou pais ou irmãos ou que devem esperar a possibilidade de serem violadas se não se vestirem de acordo com a modéstia religiosa ou que devem velar-se para não terem identidade pública ou que o seu papel na sociedade humana é equivalente ao dos morangos que enfeitam um bolo ou que devemos respeitar as culturas que não respeitam os seus direitos humanos mais básicos ou que devem casar-se aos 7, 8 ou 10 anos ou que devem ser proibidas de serem donas do seu próprio corpo, etc., etc., etc.

A mesma coisa, mais ou menos, poderia ser dita sobre as ofensas diárias que os líderes religiosos dizem dos homessexuais, bissexuais, transsexuais.

 

No entanto, não é por os líderes religiosos, nomeadamente os cabeças das Igrejas, serem pessoas que todos os dias me ofendem, a mim e a muitos milhares, milhões de mulheres sem o mínimo respeito pelos nossos direitos humanos mais básicos e nos degradadam pelo modo como falam de nós e a nós se dirigem, como se fôramos crianças mais ou menos deficientes mentais, que exigimos que sejam mortos ou proibidos de falar ou andar livremente nas sociedades.

 

Nenhuma igreja tem o direito de exigir não ser ofendida por opiniões alheias.  O único travão à liberdade de expressão, por muito repugnante que uma opinião seja (como o caso das opiniões das Igrejas sobre as mulheres e o seu 'papel' na sociedade), é a defesa e o incitamento ao crime. A única coisa que as Igrejas podem exigir é a liberdade de prestarem e viverem o seu culto sem medos e restrições e todas têm o dever de respeitar os direitos dos outros sob pena de não passarem de uma seita de malfeitores que defendem uma coisa mas fazem o oposto: fazem o mal aos outros.

 

Acreditar, ou não, num Deus, é uma posição metafísica que tem consequências para a vida da pessoa que faz essa opção mas em nada obriga outros. Seguir uma religião organizada, seja ela qual for é um estilo de vida como ser vegetariano ou epicurista. Também aqui só o próprio é obrigado aos preceitos do culto da sua escolha mas o seu estilo de vida eleito em nada obriga os outros.

 

O humor, mesmo que de mau gosto, tem uma função sanitária nas sociedades: mostra o ridículo, a pomposidade bacoca, a contradição de princípios, a hipocrisia e outros males das instituições que querem ser faróis dos outros à custa de manterem às escuras os caminhos alternativos. O humor é o nosso bobo de côrte e desde que não ultrapasse os limites da lei, tudo lhe é permitido dizer, mesmo ofender a opinião de religiões de machos. Não de homens mas de machos. Religiões de machos. Aliás, as religiões é que podiam aprender a pedir desculpa, antes de o exigir aos outros...

 

 

publicado às 19:30


9 comentários

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De Luna a 10.01.2015 às 21:13

Concordo tanto consigo...A minha família é religiosa, enfim, é missa todos os domingos (e lá tenho eu de ir, não sei fazer o quê, já que não faço lá nada), ainda há um bocado aquele pensamento que a mulher tem é de ficar em casa com os filhos e o homem que trabalhe, quem não acredita em Deus é um herege que vai para o inferno. Eu nem costumo estar com muita atenção lá na igreja, mas no outro dia estava eu lá e o padre estava com uma conversa do género de "enquanto os homens trabalham para ganhar o sustento da família as mulheres ficam em casa com os filhos", chamou-me a atenção isto, porque é uma coisa tão estúpida e machista de se dizer que me meteu tantos nervos...Já deu para entender que a minha crença na religião não existe, de cada vez que alguém me pergunta o porquê eu digo sempre que não concordo com os pressupostos da igreja, com a materialização da mulher e que não é preciso acreditar-se numa entidade superior para se ter respeito pelos outros e os outros valores que eles apregoam. Não sou nenhum morango e não vou ser submissa porque alguém a quem eu não reconheço autoridade sobre mim me disse que era o certo assim. Quer dizer, se eu não quiser ter filhos tenho de admitir que estou errada e que eu devia tê-los porque só sirvo como alojamento de outro ser? Enfim, este tipo de pensamento causa-me revolta. Respeito a religião dos outros, mas não gosto que me tentem impor este tipo de coisas.
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De beatriz j a a 10.01.2015 às 21:22

Pois, é isso exactamente o que eu penso. Uma pessoa, mesmo que acredite numa entidade sobrenatural como origem e explicação da existência, não tem que se submeter a religiões que promovem a degradação das mulheres.
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De Luna a 11.01.2015 às 21:20

Obviamente...Proclamam o respeito pelo outro, mas o respeito pelo outro já se pode não verificar quando se trata de mulheres. Enfim.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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