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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
José Correia Azevedo. “Os médicos não fazem nada sem os enfermeiros”
...a proposta que fizemos tinha três fases, isto em termos salariais, para que os enfermeiros tenham um aumento de 800 euros até 2019.
Acha que existe ainda uma excessiva valorização do trabalho médico?
Pois, é o problema da mística. Os gregos fizeram o caminho do mito à razão, inventaram a lógica. Os médicos é o contrário: partiram da razão para o mito. Tudo é medicina e os outros andam à volta. É um erro crasso. Os médicos não fazem nada sem os enfermeiros.
Independentemente de os enfermeiros terem razão em quererem ter uma carreira e ser pagos por terem uma especialidade e independentemente da tutela ter ou não ter agido honestamente com eles há coisas que não se percebem. Os enfermeiros querem ser todos aumentados 800 euros em dois anos?!
“Os médicos não fazem nada sem os enfermeiros”? Por essa ordem de ideias ninguém faz nada sem os professores dos quais dependem praticamente todas as outras profissões... ...isso não é um argumento válido.
Os ganhos das profissões (exceptuando políticos e amigos onde o desmando é total) estão ligados com o investimento financeiro, anos de estudo, grau de responsabilidade e lei da procura e da oferta.
Se formos ver o plano de estudos de um enfermeiro, são quatro anos de licenciatura, mais um ano para quem quer fazer uma especialidade. Se formos ver o plano de estudos de um médico, são seis anos obrigatórios e mais outros tantos para fazer uma especialidade. São doze ou mais anos a estudar. É um enorme investimento de tempo e de dinheiro. Depois, a responsabilidade de um enfermeiro não é a de um médico. Se alguma coisa não corre bem com o nosso tratamento é ao médico que vamos pedir responsabilidades não ao enfermeiro. E um médico tem que passar o resto da vida a estudar porque ninguém aceita que o médico lhe diga, 'olhe, isso estudei na faculdade há muito tempo e já não me lembro ou já não é assim e agora não sei como se faz'. Estamos à espera que estejam actualizados e não é com uma formação de umas horas por ano.
É claro que a lei da procura e da oferta faz com que um atuário ou um canalizador possam ganhar mais que um cirurgião mas a questão é que se não há alguma compensação para uma pessoa perder mais de uma década de vida e uma data de massa a tirar uma especialização, vai tudo ser canalizador ou enfermeiro ou outra coisa qualquer que não requeira tanto tempo, tanto trabalho e tanto dinheiro. E se assim for, perdemos todos porque depois precisamos deles e não os temos.
Uma coisa é os enfermeiros terem direito a ter uma carreira outra é dizerem que tudo depende deles. Isso não se percebe.
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