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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
Como isto já ultrapassou todos os limites da falta de ética e de pudor político, é preciso fazer a pergunta: estas nomeações de famílias inteiras para o governo para mexerem em dinheiros públicos é apenas uma falha de carácter de Costa ou, estará ele, intencionalmente, a querer acabar com a democracia enquanto regime que tende para a equidade e mérito para passar a ter um regime classicista edificado sobre a normalização da corrupção da nomeação que garanta a sua perpetuação no poder, se não directamente, através dos seus familiares e amigos?
Para mim é evidente que nem o Costa nem os governantes com familiares momeados nem os próprios familiares nomeados têm mérito político. Alguns até podem até ser bons técnicos, o que também não parece ser o caso dadas as deficiências de currículo para os cargos mas, mesmo que o sejam, um cargo político onde se tomam decisões de políticas públicas precisa de pessoas com mérito político e não apenas meros técnicos. Os técnicos são as pessoas de quem os políticos se rodeiam para aconselhamento antes de tomar decisões políticas, de modo a estarem na posse de todas as informações pertinentes, os políticos têm que nortear-se por valores, neste caso, valores democráticos, i.é., a equidade, a justiça, a igualdade de oportunidades, a redistribuição da riqueza gerada pelos impostos, o mérito, a valorização da diversidade, da independência, da imparcialidade, etc.
Coisas simples: a virtude é uma qualidade positiva, benéfica, de carácter, que torna a pessoa melhor em si mesma, nas suas intenções e nas suas acções. O vício é uma qualidade negativa, maléfica, que torna a pessoa pior em si mesma, nas suas intenções e nas suas acções.
A virtude política é a ética, sem a qual, em vez de gerir a coisa pública para o bem de todos, dentro do possível, o governante se torna um comerciante de interesses e de favores. Por conseguinte, o mérito político está na sua virtude que é a ética e o demérito no seu vício que é a mercância de interesses individuais. Um político tem que nortear-se por princípios éticos, caso contrário cai no vício, perde a noção do seu dever e a finalidade do seu trabalho.
Costa, com estas nomeações, quer poder exercer o poder sem nenhum contraditório, o que consegue, pois estes nomeados, pela posição de fragilidade em que estão, dada a sua nomeação de favor, não têm nenhum possibilidade de exercer autonomia no trabalho (percebemos muito bem o que é agora o dia a dia do governo, 'Oh Vieira, diz aí à tua filha que precisamos que aprove isto e aquilo...' e etc.)
Ora, um político que afasta vozes discordantes e independentes mostra, nesse comportamento, autoritarismo e incapacidade de entender o 'outro' como uma voz legítima e importante. Não podendo mandá-lo calar ou prender (que era o que faria se pudesse, o que se viu na reacção às greves), retira-lhe a legitimidade rodeando-se de pessoas que executam as ordens sem mais e dispensam a atenção à crítica.
Que o Costa não tem valores democráticos, só um cego/dogmático o nega, tendo em conta o seu comportamento, sobretudo neste último ano e meio, que ao início da governação ainda não tinha o descaramento que agora tem. e porque é que o tem?
Se estas nomeações de famílias inteiras (e sabe-se lá dos familiares em cargos menores da administração pública que não são falados) tivessem sido feitas pelo governo anterior já havia uma revolução mas os jornais estão na mão do irmão e amigos e dos sicofantas do regime de modo que até o Presidente da República, uma pessoa que tínhamos na conta de pessoa com mérito político, na ganância de ser eleito outra vez, diz que é normal. Dizer na mesma frase que é normal famílias estarem na maior promiscuidade no governo com a mão no saco do dinheiro e que é normal os trabalhadores serem prejudicados nas suas justas reivindicações é o estado a que chegámos com este governo da pseudo-esquerda e este pseudo-Presidente do povo.
Que os nomeados tenham aceite os cargos neste quadro de ausência de voz independente mostra a sua falta de mérito político, isto é, de consciência do dever de nortearem-se por princípios éticos. Como estão a ser lançados por Costa para serem futuros ministros e administradores públicos, o que nos espera é assustador... espera-nos a perpetuação deste sistema anti-democrático.
Depois, as coisas acontecem como se vê nesta noticia Com as empresas da mãe e da companheira, Jorge Barnabé (ex-assessor do PS) já faturou mais de um milhão de euros com câmaras socialistas do Baixo Alentejo. São nomeados e deixam lá os links para as empresas e interesses dos familiares de maneira que, mesmo quando saem dos cargos, continuam a ir aos cofres públicos.
Todos os que contribuem, directa ou indirectamente para esta decadência da vida democrática são responsáveis pelo que vier a acontecer porque as acções, toda a acção, quer queiramos ou não, muda, por pouco que seja, o decorrer do curso das coisas e, nenhuma acção existe sem consequências.
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