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Então não é que depois de descobrirmos, na semana passada, que a mulher de Pedro Nuno Santos foi nomeada para o governo por Duarte Cordeiro, descobrimos, esta semana, que a mulher de Duarte Cordeiro foi nomeada pelo governo para coordenar um fundo de 55 milhões de euros acabadinho de criar?

 

Como isto já ultrapassou todos os limites da falta de ética e de pudor político, é preciso fazer a pergunta: estas nomeações de famílias inteiras para o governo para mexerem em dinheiros públicos é apenas uma falha de carácter de Costa ou, estará ele, intencionalmente, a querer acabar com a democracia enquanto regime que tende para a equidade e mérito para passar a ter um regime classicista edificado sobre a normalização da corrupção da nomeação que garanta a sua perpetuação no poder, se não directamente, através dos seus familiares e amigos?

 

Para mim é evidente que nem o Costa nem os governantes com familiares momeados nem os próprios familiares nomeados têm mérito político. Alguns até podem até ser bons técnicos, o que também não parece ser o caso dadas as deficiências de currículo para os cargos mas, mesmo que o sejam, um cargo político onde se tomam decisões de políticas públicas precisa de pessoas com mérito político e não apenas meros técnicos. Os técnicos são as pessoas de quem os políticos se rodeiam para aconselhamento antes de tomar decisões políticas, de modo a estarem na posse de todas as informações pertinentes, os políticos têm que nortear-se por valores, neste caso, valores democráticos, i.é., a equidade, a justiça, a igualdade de oportunidades, a redistribuição da riqueza gerada pelos impostos, o mérito, a valorização da diversidade, da independência, da imparcialidade, etc. 

 

Coisas simples: a virtude é uma qualidade positiva, benéfica, de carácter, que torna a pessoa melhor em si mesma, nas suas intenções e nas suas acções. O vício é uma qualidade negativa, maléfica, que torna a pessoa pior em si mesma, nas suas intenções e nas suas acções. 

 

A virtude política é a ética, sem a qual, em vez de gerir a coisa pública para o bem de todos, dentro do possível, o governante se torna um comerciante de interesses e de favores. Por conseguinte, o mérito político está na sua virtude que é a ética e o demérito no seu vício que é a mercância de interesses individuais. Um político tem que nortear-se por princípios éticos, caso contrário cai no vício, perde a noção do seu dever e a finalidade do seu trabalho.

 

Costa, com estas nomeações, quer poder exercer o poder sem nenhum contraditório, o que consegue, pois estes nomeados, pela posição de fragilidade em que estão, dada a sua nomeação de favor, não têm nenhum possibilidade de exercer autonomia no trabalho (percebemos muito bem o que é agora o dia a dia do governo, 'Oh Vieira, diz aí à tua filha que precisamos que aprove isto e aquilo...' e etc.)

Ora, um político que afasta vozes discordantes e independentes mostra, nesse comportamento, autoritarismo e incapacidade de entender o 'outro' como uma voz legítima e importante. Não podendo mandá-lo calar ou prender (que era o que faria se pudesse, o que se viu na reacção às greves), retira-lhe a legitimidade rodeando-se de pessoas que executam as ordens sem mais e dispensam a atenção à crítica.

 

Que o Costa não tem valores democráticos, só um cego/dogmático o nega, tendo em conta o seu comportamento, sobretudo neste último ano e meio, que ao início da governação ainda não tinha o descaramento que agora tem. e porque é que o tem? 

 

Se estas nomeações de famílias inteiras (e sabe-se lá dos familiares em cargos menores da administração pública que não são falados) tivessem sido feitas pelo governo anterior já havia uma revolução mas os jornais estão na mão do irmão e amigos e dos sicofantas do regime de modo que até o Presidente da República, uma pessoa que tínhamos na conta de pessoa com mérito político, na ganância de ser eleito outra vez, diz que é normal. Dizer na mesma frase que é normal famílias estarem na maior promiscuidade no governo com a mão no saco do dinheiro e que é normal os trabalhadores serem prejudicados nas suas justas reivindicações é o estado a que chegámos com este governo da pseudo-esquerda e este pseudo-Presidente do povo.

 

Que os nomeados tenham aceite os cargos neste quadro de ausência de voz independente mostra a sua falta de mérito político, isto é, de consciência do dever de nortearem-se por princípios éticos. Como estão a ser lançados por Costa para serem futuros ministros e administradores públicos, o que nos espera é assustador... espera-nos a perpetuação deste sistema anti-democrático.

 

Depois, as coisas acontecem como se vê nesta noticia Com as empresas da mãe e da companheira, Jorge Barnabé (ex-assessor do PS) já faturou mais de um milhão de euros com câmaras socialistas do Baixo Alentejo. São nomeados e deixam lá os links para as empresas e interesses dos familiares de maneira que, mesmo quando saem dos cargos, continuam a ir aos cofres públicos.

 

Todos os que contribuem, directa ou indirectamente para esta decadência da vida democrática são responsáveis pelo que vier a acontecer porque as acções, toda a acção, quer queiramos ou não, muda, por pouco que seja, o decorrer do curso das coisas e, nenhuma acção existe sem consequências.

 

publicado às 06:45


4 comentários

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De Manuela a 22.03.2019 às 18:22

As nomeações de familiares existiram toda a vida em Portugal, antes e depois do 25 de Abril. Isto é o normal aqui no nosso "cantinho"onde reina a paz e o sossego tão apreciados por todos. Nada de "coletes amarelos" nem coisas desse género. Que venha cá o Papa outra vez, que é disso que precisamos. E se não for o Papa também cá temos o prof Marcelo que até vai de carro ao Marquês de Pombal para ver se está tudo controlado, como ele fez aquando da minúscula manif dos "coletes" que juntou 10 pessoas.
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De beatriz j a a 22.03.2019 às 18:25

Mas isto é demais... nunca tínhamos tido famílias inteiras de serventes no governo... isto é já um sintoma muito perigoso.
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De Manuela a 22.03.2019 às 18:37

Mas isto acontece por causa dos partidos....toda a gente sabe que um partido é uma verdadeira agência de emprego! Até o meu pai, que tem 96 anos, às vezes, para me irritar, diz que eu devia ter-me metido num partido!
Antes do 25 de Abril, como só havia um partido, eram as boas famílias que controlavam isto.
Nada mudou! Há é mais gente a beneficiar dos privilégios.....
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De beatriz j a a 22.03.2019 às 18:41

Mas o 25 de Abril também foi para acabar com essa situação de meia dúzia de famílias controlarem e serem donas do país como se fossemos uma monarquia. Era suposto termos evoluído democraticamente e haver mobilidade social. É para isso também, embora não só, que existe a escola pública e foi por isso que se democratizou o acesso à educação.

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