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Filmes: 'The Children Act'

por beatriz j a, em 23.09.18

 

 

Fui ver este filme. Muito bom. Um filme que faz pensar e que faz que nos pensemos.  Li algumas críticas que acham mal tratado o final do caso rapaz com leucemia mas a mim parece-me que o filme não é, primeiramente, sobre esse assunto.

O filme é sobre uma juíza num tribunal de família em Londres. Ela é uma pessoa muito forte e determinada (está num meio tradicionalmente masculino), muito cerebral, focada no trabalho, conscienciosa mas algo distante, em termos emocionais, o que vemos ter a ver com a maneira como se habituou a cultivar uma distância emocional dos casos que tem que julgar. Sendo um tribunal de família, todos os casos que lá chegam são emocionalmente difíceis, porque há sempre alguém ou, às vezes, todos, em grande sofrimento. 

 

O filme apanha-a numa crise do casamento. Ela não teve filhos por estar sempre tão focada no trabalho, o marido que sofre com isso mais que ela, vêmo-lo numa cena com as sobrinhas, tenta desesperadamente salvar o casamento à medida que ela se distancia emocionalmente. Há uma cena logo no início em que ela está a trabalhar à noite, em casa, e ele aparece e pergunta-lhe, 'não te vens deitar?', ao que ela responde, que ainda tem que trabalhar no caso do dia seguinte que é o dos gémeos siameses onde tem que decidir se autoriza o hospital a separá-los, sendo que isso sacrifica a vida de um deles, e lê uma frase do relatório médico em voz alta, 'o coração de Michael [um dos gémeos] é normal e é ele que sustenta os dois' - percebemos que a frase se aplica à condição deles mesmos, onde o marido sustenta, emocionalmente, o casamento de ambos. O marido, numa tentativa desesperada de conseguir que ela o ouça, provoca-a e diz-lhe que está a pensar ter um caso com uma outra mulher. 

 

Tudo isto se passa ao mesmo tempo em que lhe aparece no tribunal o caso de um adolescente de 17 anos que sofre de leucemia, precisa de uma transfusão de sangue mas é, juntamente com a família, testemunha de Jeová e recusa o tratamento. O rapaz, para quem ela é um bocado cruel à força de não querer nenhum envolvimento emocional com os 'casos', apesar de se sentir atraída por ele que lhe lembra o filho que podia ter tido, acaba por espoletar nela uma tomada de consciência de si própria, do ponto em que se encontra, no casamento e na vida, do modo como toca a vida das pessoas que julga e como a frieza emocional não salva ninguém e não é remédio para coisa alguma.

 

Interpretações excelentes, a começar por ela mesma. Cenários muito bons. Vemos o tribunal a funcionar, não como é costume nos filmes, como se fosse um espectáculo mas como as coisas são na rotina no dia a dia. Diálogos muito bons, muito reais, de pessoas reais.

Enfim, o filme prende-nos desde a primeira cena até à última.

 

 

 

publicado às 16:04



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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