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Filmes - O Corvo Branco

por beatriz j a, em 23.06.19

 

Fui ver este filme com uma amiga. Éramos as pessoas mais nova na sala que estava bem composta. A média de idade devia andar nos 70 anos. Pessoas de canadianas, muita gente com muita dificuldade em andar. Seria de esperar que chegassem a horas mas isso era se não fossem portugueses... muitos chegaram quando a sala já estava às escuras, não viam os degraus, tropeçavam, depois falavam alto, 'não vejo nada!' e coisas do género. Parecia uma cena cómica. Acendi a luz do meu telemóvel e apontei para os degraus e estive assim a fazer de arrumadora ou lá o que é durante um tempo até que se sentassem. Durante os créditos finais passa uma filmagem de Nureyev a dançar. Pois a brigada da bengala resolveu sair, às escuras, outra vez sem ver as escadas e a queixar-se... enfim...

Não sei se média de idade das pessoas diz algo sobre o desconhecimento da figura de Rudolf Nureyev e de falta de interesse pela dança nas gerações mais novas ou se foi só um acaso.

 

Seja como for, o filme é muito bom. A realização é de Ralph Fiennes, o que me surpreendeu porque não sabia que ele também era realizador, além de actor. Ele faz no filme o papel de Pushkin (muito bem, diga-se de passagem), o bailarino e professor de dança que mais tarde também treinou Baryshnikov. Quem faz de Nureyev no filme é o bailarino ucraniano, Oleg Ivenko. Não é fácil fazer de Nureyev, um indivíduo com uma personalidade intensa e electrificante, com aqueles olhos enormes 'de fome de absorver tudo' como diz Ralph Fiennes. 

 

O filme conta a viagem da companhia de Ballet de Kirov a Paris no fim da qual, já no aeroporto e perante a eminência de voltar a uma União Soviética que via como uma jaula, Nureyev desertou para o Ocidente. O filme é baseado num livro da jornalista Julie Kavanagh que escreveu a biografia de Nureyev depois de uma investigação de dez anos.

 

À medida que acompanhamos a excitação de Nureyev à descoberta da liberdade nessa visita da companhia de bailado a Paris onde causa um grande sururu como dançarino, vamos tendo flashbacks da infância dele e do percurso como dançarino em Leningrado. A personalidade dele e a fome de se expandir pela dança.Tudo muito bem feito e filmado com bons diálogos, cenas de dança muito boas e a música dos clássicos.

O filme consegue mostrar a maneira como a vida dele está presente na dança, quer dizer, ele dançava o que era e o que tinha vivido e isso transparecia: a infância de grande pobreza, a luta por suceder num país que o enjaulava, a ele e ao seu talento, a vontade de se instruir na arte, a fome de ser. 

O filme chama-se O Corvo Branco. Em russo esta expressão designa aqueles que são diferentes e únicos e que por isso não se encaixam na normalidade. No filme vê-se a solidão que isso acarreta acompanhada de uma certa distância, endógena, uma coisa interior, não treinada.

 

Nureyev desperta para o mundo da arte quando a mãe ganha um bilhete para a ópera e o leva, com as irmãs, muito novo, com cinco anos ou assim, a ver o espectáculo. A magia dessa experiência despertou-o para a arte.

Compreendo-o perfeitamente. O mundo das artes performativas é um mundo cheio de magia. Uma pessoa senta-se, as luzes apagam-se, a cortina sobe e de repente estamos noutra realidade, que sendo irreal, é mais real que o real (a maioria das pessoas nas 'cenas' das [suas] vidas não são reais, são máscaras de conveniência), quando o apanha e revela as suas raízes profundas, os seus modos de ser. 

Gostei imenso do filme. Imagens belas. São duas horas que passam a correr. Hei-se vê-lo outra vez.

 

 

publicado às 19:33


7 comentários

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De Manuela a 24.06.2019 às 23:31

Tenho de ir ver esse filme!
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De beatriz j a a 24.06.2019 às 23:32

vale muito a pena. também queria ver o documentário sobre o Pavarotti.
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De Anónimo a 08.07.2019 às 08:12

A critica para quem gosta de arte revela ligeireza insensibilidade. Felizmente nao estavam jovens a comer pipocas e com luzes de telemóveis.
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De beatriz j a a 08.07.2019 às 08:15

'ligeireza insensibilidade'? Em quê? Onde? Ou é só acusar sem justificar?
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De Anónimo a 08.07.2019 às 08:13

A critica para quem gosta de arte revela ligeireza insensibilidade. Felizmente nao estavam jovens a comer pipocas e com luzes de telemóveis. Helena Simões
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De Monica Chio a 28.03.2020 às 02:10

Adorei a crítica.
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De beatriz j a a 28.03.2020 às 04:41

Obrigada :)

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