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Filmes - Evolution

por beatriz j a, em 08.10.16

 

 

Filme estranho. Passa-se num lugar imaginário, com uma paisagem rochosa, vulcânica, à borda de àgua, numa comunidade de mulheres que fazem lembrar enguias e rapazes em início de adolescência de quem elas são guardiãs mais do que mães porque não há ali afecto. Não há homens. Os rapazes são sujeitos a experiências médicas.

 

 

O filme é todo num tom entre o cinza e o sépia, desprovido de adornos visuais (nesse aspecto é como uma pintura de Rothko onde nada nos distrai e quanto mais nos focamos mais nos perdemos em nós mesmos. É um filme mnésico/introspectivo) mas não auditivos e os ruídos activam a memória da nossa sensação desses ruídos: o barulho das bolhas de ar na água, dos sapatos a pisar a areia grossa, do vento, do mar a bater nas rochas, do lápis a riscar o papel... No hospital, que parece saído da Segunda Grande Guerra, quase que cheiramos o cheiro a formol de tal maneira aquele cenário amarelo-esverdeado (como a pele das mulheres que lembram enguias) húmido nos atinge.

 

O filme não tem propriamente uma história, um enredo. Eu vi-o como uma metáfora da vivência da adolescência ou, melhor, da vivência das transformações da adolescência: a incompreensão do corpo, a distância do mundo dos adultos, o sangue (a única cor do filme são os calções encarnados do rapaz principal, de uma estrela do mar e do cabelo de uma enfermeira que se envolve com ele), o misto de curiosidade e medo com a gravidez e o parto (vê-se uma cesariana).

A adolescência como uma ilha ao mesmo tempo bela, assustadora e muito estranha. Como faz muito bem esse serviço de nos activar a memória das sensações é desconfortável sem ser um filme de terror como o anunciam. 

 

Sempre me pareceu que as pessoas que dizem que gostavam de voltar à adolescência o dizem porque já não se lembram como era. Recalcam as memórias ou seleccionam apenas episódios divertidos mas reprimem a memória das sensações tal qual como eram vividas, experimentadas. Uma pessoa que trabalha com adolescentes e repara vê muita coisa. Neles e em si.

 

 

 

 

publicado às 20:21



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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