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Ainda há 50 mil chumbos no básico, Governo quer reduzi-los ao mínimo

 

Outro dia li no jornal que agora já não é no básico mas no secundário que se chumba mais. Pudera... no básico tornou-se, na prática e, em alguns casos na lei, proibido chumbar, de modo que os alunos chegam ao secundário num estado tão primário que não conseguem ultrapassar nenhum obstáculo. O governo há-de mandar passar todos no secundário e depois, evidentemente, hão-de voltar-se para as universidades e exigir que passem todos também e assim teremos no futuro pessoas muito qualificadas para fazer nada e não trabalhar que foi o que aprenderam com muitos anos de prática na escola.

Como me dizia uma aluna, outro dia, 'porque é que a professora complica tudo com peguntas? Porque é que não simplifica e assim é mais fácil estudar'.

Vou contar um episódio de há duas semanas: entrei com a turma do 12º ano na sala x para a aula do meio-dia. Assim que entramos, duas alunas que se sentam à frente, dizem, 'que nojo! Professora, venha cá ver o que está aqui em cima da mesa e no chão. Unhas dos pés!' Lá me enchi de coragem para ir olhar nojices, pus os óculos e fui ver. A mesa da frente e o chão estavam cheios de unhas de pés. A turma toda foi ver. Disse a uma das garotas para ir chamar a funcionária do bloco, porque temos instruções para avisar a funcionária de serviço quando as salas estão sujas ou com algo estragado, para poder-se saber quem foi a turma responsável. Entretanto fui à entrada da sala ver no horário de ocupação da sala, que está afixado à porta, quem era a turma e as disciplinas que tinham estado na sala nesse dia. É uma turma do básico. Bem, veio a dona H. com uma vassoura e uma pá e varreu aquilo e limpou. Aproveitei para perguntar-lhe se tinha visto quem era a turma que ali esteve, ela confirmou ser a turma x e acrescentou, 'a professora não tem ideia do que são os dessa turma'. 

 

Quando saí da aula fui ver, na sala de professores, quem era a DT dessa turma. No dia seguinte fui ter com ela e contei-lhe o episódio para ter conhecimento e poder tomar medidas. Ela não ficou surpreendida. A turma, disse-me, já leva várias participações disciplinares, repreensões registadas e ninguém os aguenta. Tem uns dez alunos que dominam a turma e não deixam os outros trabalhar. Passam as aulas a fazer barulho, falam com os professores com palavrões.

A turma tem lá alunos interessados mas têm medo destes e não se consegue trabalhar porque toda a aula é passada a gerir estes indivíduos. Isto não admira assim tanto. Quando lemos os comentários nas notícias dos jornais, são todos nestes termos muito ordinários. Ora, esses que comentam assim dessa maneira, são encarregados de educação de alguém. Ainda outro dia, aqui no blog uma pessoa anónima me deixou um comentário todo neste teor extremamente ordinário que fez-me lembrar a minha colega a contar como os alunos daquela turma falam aos professores. Portanto, se os pais falam assim e têm esta atitude perante os professores, não é de admirar que os filhos os imitem e façam o mesmo.

A questão é: estes alunos cujos pais têm este nível, são aos milhares e nenhuma aula de apoio, explicação, medida de recuperação de aprendizagem alguma vez funcionará com eles porque o problema deles não é falta de compreensão ou, como defendia, obscenamene, um artigo de jornal recente, a violênca contra professores dá-se porque estes são velhos e os alunos acham as aulas uma seca. Não, o problema destes alunos é a educação que trazem de casa e para a qual regressam a meio do dia ou ao fim do dia.

Os PIAs (processo individual do aluno) estão cheios de documentos reveladores. Nós vemos em muitos deles que os pais nunca ajudaram os filhos a fazer um trabalho de casa ou que nunca foram à escola saber deles, durante todos os anos do básico, desde que entraram para a escola. 

 

Não digo que estes alunos não possam, daqui a uns 10 anos, quando não tiverem 15 mas 25 anos e estiverem num emprego qualquer a ganhar miseravelmente (embora me pareça que nesses casos culpem os professores por não os terem transformado magicamente, como se nós tivéssemos uma varinha mágica que os transforma de pessoas agressivas e com desprezo pelo conhecimento em pessoas corteses e ávidas de conhecimentos), perceber que deviam ter aproveitado a oportunidade da escola mas neste momento, nenhuma explicação ou aula de apoio lhes corrige o comportamento sem o qual nenhuma aprendizagem é possível. E nestes casos nenhum professor, com mais ou menos estratégias os modifica por milagre. 

A única coisa que pode fazer-se é responsabilizá-los pelos seus comportamentos mas, para isso, seria preciso que o ME apoiasse os professores nas questões de disciplina, o que não faz; pelo contrário, o seu discuso é de vitimização destes alunos e de culpabilização dos professores, de modo que eles, os alunos, e os pais, sentem força para desrespeitar os professores.

 

Na educação não há milagres, tudo leva muito tempo a maturar e muitas vezes são necessárias certas experiências de vida transformadoras. No entretanto, o resto da turma não aprende nada porque aqueles não deixam. Os professores saem exaustos e stressados destas aulas e vão para as seguintes afectados, quer queiram quer não. 

Passar este alunos com estes comportamentos, embora a maioria, de facto, seja uma vítima dos pais que tem, é dizer-lhes que não há diferença nenhuma entre a agressão e a ofensa, e o esforço, o respeito e o trabalho. Entretanto estragou-se a oportunidade dos outros da turma poderem aprender e progredir.

 

Na quinta-feira passada um aluno veio ter comigo no fim da aula e disse-me, 'professora, queria saber como é que se faz queixa de um professor'. Disse-lhe que se tem um problema com um professor a primeira coisa que deve fazer é ir falar com o professor em questão para resolvê-lo. Perguntei-lhe qual era o problema. Disse-me que o professor x não lhe aceitou um trabalho, disse-lhe que não estava bom e mandou-o corrigir; ora, dizia-me o rapaz, se não está bom é porque o professor não me sabe ensinar e quero fazer queixa dele... esta ideia que os alunos têm de que são bons em tudo, que não precisam de esforçar-se, que a aprendizagem é um acto instantâneo da responsabilidade dos professores e não um processo lento e gradual que se passa no interior e necessita de correções e ainda, que se não conseguem atingir resultados a culpa é dos professores, releva de anos de endoutrinação do ME a alunos e pais com slogans de os alunos serem excelentes por natureza e só não progridem porque os professores não prestam.

 

Não compreendem os problemas, partem de pressupostos errados e irreais do ser humano e do seu desenvolvimento e depois, como as soluções com base nestes princípios não resultam e querem a todo o custo apresentar tabelas com percentagens de sucesso total, mandam passar toda a gente de qualquer maneira. Para fingir que isto é a sério, carregam os professores de aulas de apoio, explicações, medidas universais, parciais e o diabo a nove... 

 

Outro dia uma ignorante qualquer escrevia um artigo no jornal que é mais um pasquim de publicidade do Costacenteno que outra coisa, a dizer que até que enfim que alguém diz aos professores do secundários que os meninos (os meninos...) com educação especial têm tanto direito como os outros de estar ali. É que nem me lembro da última vez que estive um ano sem alunos com educação especial.

Mais, às vezes somos nós que temos que insistir com os pais para requererem para os filhos, as condições especiais a que têm direito porque a maioria dos pais não quer e tentam convencer os filhos a recusá-las. Rejeitam a ideia de alguém saber que os filhos têm uma doença ou uma incapacidade. Também há o inverso que é alguém da educação especial convencer os pais, desde a escola primária, que os filhos têm um problema e depois os miúdos crescerem a pensar que têm incapacidades, quando não as têm.

Mas é claro que o problema são os professores. Sempre. Porque é que estas pessoas todas não tiram 2 ou três anos para ir dar aulas aos 5ºs, 6ºs, 7ºs, 8ºs,9ºs, etc. anos que por aí andam a chamar palavrões aos professores ou a deixar unhas de pés nas aulas, antes de virem com conversas de quem pouco percebe de adolescentes e de aprendizagem. Talvez estes alunos não tivessem chegado assim ao fim se não lhes tivessem inculcado na cabeça que a educação e o sucesso são algo que lhes vem de fora como um presente e que está nas mãos dos professores.

 

A educação é como o voto: é um direito das pessoas e das famílias, sim, que o Estado providencia mas, também é um dever das famílias para com o Estado. E é isso que toda esta gente que traz a revolução no bolso não compreende.

 

publicado às 08:10


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