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Começando pela ordem inversa porque o artigo tem imensa afirmação gratuita que dá trabalho a desmontar. 

 

Não sou sindicalizada, já o disse aqui várias vezes; não por não ser a favor de sindicatos fortes, que o sou, mas por não ter encontrado, até agora, nenhum sindicato que represente os professores. Aliás, já me fez falta mais que uma vez em que tive que representar-me sozinha ou recorrer a advogado em duas queixas que fiz, uma na DGE e outra na IGEC, que deram em nada, diga-se de passagem, que essa gente está toda feita para se cobrirem uns com os outros... mas adiante... apareceu agora um sindicato -o STOP- que é apartidário, cuja direcção são professores no activo e que está efectivamente a representar os professores e decidi que é um bom sindicato para me representar porque gosto da posição que defendem e do modo como a têm defendido, com transparência e seriedade e também penso que temos que lhes dar força, uma vez que os outros sindicatos representam-se mais a si mesmos que a nós e desbaratam, sem escrúpulos, o esforço das dezenas de milhares de professores que lutam pelos seus direitos mais básicos.

 

A minha esperança é que muita gente se filie neste sindicato e lhes dê força suficiente para que se tornem uma voz principal. Ficou visto com a força e adesão desta greve convocada aos anos de exame pelo STOP contra a vontade dos outros sindicatos, que os professores não se sentem representados pelos sindicatos tradicionais. Aqueles que passavam o tempo a dizer que 130 mil professores andavam às ordens do Nogueira, agora que viram os professores aderir com esta força e convicção a uma luta contra a vontade do Nogueira, estão estranhamente em silêncio... é um silêncio que diz tudo...

Estes sindicatos, há muito que deixaram de ser representativos -gostava de saber ao certo quantos sócios têm- e é preciso termos representantes que lutem por nós e por uma educação livre e de qualidade.

 

Quanto à 'luta inglória dos professores', apenas dizer duas ou três coisas: o autor pergunta-se como é que os professores perderam prestígio e estatuto e adiante três causas: 1. a massificação do ensino, sem condições para tal, no pós 25 de abril; isto é verdade, só que já passaram mais de quarenta anos e já não estamos no pós 25 de abril de modo que a questão deveria ser, 'porque não houve interesse em criar essas condições?'

Pessoalmente, estou convicta, embora sem dados que o sustentem, que o desinteresse dos governos pela profissão se deve ao facto de ser uma profissão maioritariamente de mulheres e, como tal, ser encarada como uma espécie de serviço menor de tomar conta de crianças que qualquer um pode fazer (aliás, este é o termo que, sintomaticamente, os dirigentes usam quando se referem aos alunos, na sua maioria adolescentes e jovens adultos), serviço associado mais a talentos materno/vocacionais que a critérios específicos de cientificidade pedagógica. Daí a desvalorização e até desprezo que mostram pela profissão e a abundância de opiniões completamente ignorantes sobre o tema: é que encaram os professores como uma espécie de extensão das mães/donas de casa que educam os filhos, só que num local próprio e não em casa. É a mesma razão que leva os dirigentes a desprezar a profissão de enfermagem: é uma profissão de mulheres, no imaginário das pessoas, 'anjos da guarda dos doentes', pessoas maternais que tomam conta de doentes.

 

2. os sindicatos terem partidarizado as lutas dos professores em vez de lutarem por essas melhorias - aqui estou inteiramente de acordo e é fácil citar factos que o mostram, desde logo a constante cedência de condições e salários dignos em troca benefícios em causa própria;

e, finalmente, 3. como consequência, as lutas dos professores estarem hoje 'totalmente deslocalizadas e desfocalizadas dos objetivos centrais da educação, das escolas e dos próprios professores.' Esta última frase nem tem sentido quando fala de 'lutas deslocalizadas' (que quer isto dizer? luta-se no local errado?) e erra quando diz que as lutas não se focam nos objectivos centrais da educação. Os professores lutam por muita coisa, desde reduzir o número de alunos por turma, democratizar a gestão da escola, reduzir a burocracia e aumentar o tempo de preparação lectivo, ter formação gratuita e dentro do horário de trabalho, etc. Mas estas lutas são um assunto separado do direito básico de não ser obrigado a andar a trabalhar para o boneco durante dez anos para que os políticos possam dar o dinheiro a banqueiros.

 

Ora, uma coisa são as condições de trabalho outra é o próprio direito a que se reconheça que as pessoas existiram durantes dez anos enquanto trabalhadores que cumpriram com os seus deveres. Ou este senhor, que não sei o que faz na vida, aceitaria como normal que o seu chefe o pusesse no tempo de há dez anos a ganhar o que então ganhava e lhe dissesse, 'olha, aqueles dez anos que trabalhaste, pois esquece-os, é como se tivesses hibernado'. Ahh..., já sei, na opinião do articulista, ele tem uma carreira porque tem mérito mas os 130 mil professores são todos medíocres sem mérito que não merecem carreira... aliás, o senhor fala muito na má qualidade dos novos professores só que esquece que quem está nas escolas somos nós, os antigos professores, porque a carreira está fechada a sangue novo e não deixam as pessoas reformar-se de modo que este seu argumento vale zero.

 

Quanto a isso do mérito (Os professores pertencem às escolas e às suas comunidades. É aí que ganham, ou não, prestígio e estatuto. É aí que devem ser avaliados e promovidos, ou não), sabendo nós como as escolas estão politizadas -a gestão da Rodrigues tinha esse objectivo- e ainda mais vão ficar quando as puserem no poder local e, sabendo nós como funciona o mérito na política, o que se anuncia é cada vez mais o sacrifício dos inocentes às mãos dos favores dos arregimentados políticos. Uma avaliação de professores tem que ser outra coisa diferente das avaliações de managers porque a escola é um local pedagógico mas já falei sobre isso noutros posts.

 

Quanto ao último parágrafo (As boas escolas do ensino superior são um bom exemplo. A carreira dos docentes é o resultado do que investigam, do que investem e dos resultados desse investimento. Não há hoje nenhuma razão para que as escolas dos primeiros níveis de ensino não adotem o mesmo figurino.) é não ter mesmo noção da realidade. No ensino superior os professores dão 6 ou 8 horas de aulas por semana e é por isso que têm tempo para investigar. Nós damos 16, 20, 22 ou mais horas de aulas por semana. Temos uma data de turmas de crianças ou adolescentes e jovens que requerem uma supervisão e acompanhamento que os alunos do ensino superior não precisam. Para além disso fazemos horas e horas infindáveis de serviço na escola desde dar apoios, atender pais, alunos, burocracias sem fim, planear visitas de estudo, exposições, concursos, projectos disto e daquilo... olhe, se conseguir que o ministro o oiça, peça-lhe para nos reduzir o número de turmas e de alunos por turma e aumentar o número de horas para trabalho e desenvolvimento pessoal. Por mim agradeço. Quanto ao resto, era bom que falasse dos assuntos com conhecimento ou dados que o sustentem visto estar a escrever num jornal nacional.

 

A inglória luta dos professores

Porque é que os professores perderam prestígio e estatuto, em contraciclo com o aumento da escolaridade obrigatória?

 

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publicado às 16:30


2 comentários

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De júlio farinha a 13.07.2018 às 02:39

Não é verdade que os professores tenham perdido prestígio e estatuto. As sondagens de opinião colocam os professores nos primeiros lugares dos mais respeitados. Os professores acham que têm direito a mais reconhecimento. Pedir não custa. O dito articulista gostaria de ver os professores sob a alçada dos caciques locais. Se calhar tem ligações no meio.
Quanto aos sindicatos, embora não me consiga calar em momentos dados, a coisa já não é assunto para mim. Tenho opinião. Só isso. O resto seria ingerência.
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De beatriz j a a 13.07.2018 às 08:02

Acho que talvez não tenhamos perdido a confiança dos pais mas é verdade que perdemos prestígio e estatuto social. Em geral a maioria das pessoas acha que qualquer um pode ser professor e que os professores são pessoas que não conseguiram fazer outras coisas.

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