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Das sociedades, dos homens e dos ratos

por beatriz j a, em 31.05.15

 

 

 

(excertos do discurso de Jimmy Reid (1932 - 2010), activista do sindicato Clydeside, no seu discurso inaugural como Reitor da Universidade de Glasgow em 1972. - podia ter sido dito hoje e aplica-se a quase todos os países do mundo actual [tradução minha])

 

"Alienação é a palavra correcta e precisa para descrever o maior problema social da Grã-Bretanha actual. As pessoas sentem-se alienadas pela sociedade. Nalguns círculos intelectuais é tratada como um novo fenómeno. No entanto, existe há anos. O que acredito é que está hoje-em-dia mais espalhado e penetrante do que alguma vez foi. Deixem-me definir o que entendo por alienação. É o grito dos seres humanos que se sentem vítimas de forças económicas cegas que estão para além do seu controlo. É a frustração das pessoas vulgares excluídas dos processos de decisão. O sentimento de desespero e impotência que invade as pessoas que sentem, justificadamente, que o que dizem não tem nenhum impacto real no desenho e determinação dos seus próprios destinos...

 

A sociedade com estes valores leva a outra forma de alienação. Aliena pessoas da Humanidade. 'Des-humaniza', parcialmente, algumas pessoas, torna-as insensitivas, implacáveis no modo como lidam com os seus semelhantes, auto-centradas e gananciosas. A ironia é que são estas mesmas que são consideradas normais e bem-ajustadas à sociedade. 

É minha sincera convicção que toda a pessoa totalmente ajustada à nossa sociedade actual necessita, mais do que qualquer outra, de análise e tratamento psiquiátricos.

 

Elas lembram-me a personagem da novela Catch 22, o pai do Major Major. Era um agricultor do Midwest Americano. Odiava coisas como seguros de saúde, serviços sociais, subsídios de desemprego ou direitos civis. No entanto, era um entusiasta das políticas agrícolas que pagavam aos agricultores para não produzirem. Do dinheiro que ganhou para não produzir alfafa ele comprou mais terreno para não produzir alfafa. Peregrinos vinham de todo país sentar-se a seus pés para aprender como ser um não-produtor de alfafa, de sucesso. A sua filosofia era simples. Os pobres eram pobres porque não trabalhavam o suficiente. Ele acreditava que o bom Deus lhe tinha dado dois braços fortes para que ele pudesse agarrar o máximo que pudesse para si próprio. É uma figura cómica. Mas pensem - não conhecem muitos como ele na Grã-Bretanha? Aqui na Escócia? Eu conheço. 

 

É fácil e tentador odiar essas pessoas. É errado, no entanto. Elas são tão produtos da nossa sociedade e da sua alienação como os pobres. São perdedoras. Perderam os elementos essenciais da nossa Humanidade comum. O ser humano é um ser social. A realização pessoal, real, para qualquer pessoa, está no serviço aos seus semelhantes, homens e mulheres... O desafio que enfrentamos é o de desenraízarmos tudo o que distorce e desvaloriza as relações humanas.

 

Deixem-me dar dois exemplos da experiência contemporânea para ilustarar este ponto.

Recentemente vi um anúncio na televisão. A cena é um banquete. Um cavalheiro, de pé, propõe um brinde. O seu discurso está cheio de frases como, 'Este espécime de corpo inteiro'. Sentado ao lado dele está uma jovem mulher cheia. A imagem que ela projecta não é de pompa mas de ridículo. Ela está babada acreditando que é o objecto do elogio do homem. Então, ele conclui  com uma piada cruel à mulher fazendo um trocadilho com o nome de uma marca de sherry. E todos riem. Um riso cruel. O ponto da publicidade é que os espectadores se identifiquem, não com a vítima mas com os que a atormentam. O outro exemplo é o de uma publicida com uma corrida de ratos onde estes são comparados aos seres humanos e se incentiva ao sucesso a qualquer custo.

 

Aos estudantes [da Glasgow University] faço este apelo. Rejeitem estas atitudes. Rejeitem os valores da falsa moralidade que subjaz a estas atitudes. Uma corrida de ratos é para ratos. Nós somos seres humanos. Rejeitem a pressão da sociedade para que anulem as vossas faculdades críticas sobre tudo o que se passa à vossa volta, para que mantenham o silêncio face à injustiça se isso prejudicar as vossas hipóteses de promoção e sucesso. É assim que se começa e antes de darem por isso são um membro de pleno direito da horda dos ratos. O preço a pagar é muito alto. Implica a perda da dignidade e espírito humano. 

 

O lucro é o único critério usado pelas instituições para avaliar a actividade económica. O vocabulário em voga é mais apropriado para um zoo humano que para uma sociedade humana. As estruturas de poder que emergiram desta abordagem ameaçam e minam os nossos direitos democráticos. Todo o processo tende para a centralização e concentração de poder em cada vez menos mãos. Os factos estão à vista para todos os que os querem ver.  Gigantes monopólios e consórcios dominam quase todos os ramos da economia. Os homens que controlam estes gigantes exercem um poder assustador sobre os seus semelhantes que é a negação da democracia.

 

O governo pelo povo, para o povo, é insignificante se não incluir decisões económicas pelo povo, para o povo. Isto não é uma mera questão económica. Na sua essência, é uma questão ética e moral, pois quem tomas as decisões económicas importantes na sociedade é quem determina as prioridades sociais nessa sociedade.

 

Nas suites olímpicas executivas, numa atmosfera onde o vosso sucesso é avaliado na medida em que podem maximizar os lucros, a tendência dominante é a de ver as pessoas como unidades de produção, entradas no livrinho da contabilidade. Para apreciar em toda a sua extensão a inhumanidade desta situação, é preciso ver a dor e o desespero nos olhos de um homem a quem dizem, sem aviso, que se tornou redundante, sem que haja alternativa à sua situação de emprego, com a perspectiva de, se for o caso de ter quarenta ou mais anos, passar o resto da vida no Centro de Desemprego. Alguém algures decidiu que ele é dispensável, desnecessário e que, portanto, deve ser deitado fora juntamente com a sucata industrial. 

 

Tudo o que é proposto pelas entidades organizativas é calculado para minimizar o papel das pessoas, para miniaturizá-las. Compreendo quão atractiva esta perspectiva deve aparecer aos olhos daqueles que estão no topo. Nós, peões nos seus jogos, podemos ser mudados de casa em casa até à casa dos Desajustados. 

 

Medir o progresso social puramente pelos ganhos materiais não chega. O nosso propósito tem de ser o enriquecimento de toda a qualidade de vida. Requer uma tranformação social e cultural do país. A restruturação das instituições do governo e, se necessário, a evolução de estruturas adicionais que envolvam as pessoas nos processos de tomada de decisão da sociedade. Os chamados, 'especialistas' dir-vos-ão que isso não acrescentaria eficiência aos processos. Pois eu estou disposto a sacrificar uma margem de eficiência pelos valores da participação das pessoas. E no longo prazo rejeito este argumento.

 

Para libertar todo o potencial das pessoas é preciso dar-lhes responsabilidade. Todos os recursos do Mar do Norte são poucos quando comparados com os das pessoas. Estou convencido que a grande massa de pessoas passa pela vida sem a mais leve suspeita do que poderiam ter contribuido para a sociedade. Isto é uma tragédia pessoal. Um crime social. O florescimento da personalidade e talento pessoais é pré-condição para o desenvolvimento de todos...

 

A minha conclusão é a de reafirmar que espero ser o espírito que permite este objectivo. É uma afirmação de fé na Humanidade. 

 

 

publicado às 12:04


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