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Da liberdade e da opressão

por beatriz j a, em 24.06.19

 

Antígona
 
“não conheces o decreto de Creonte sobre os nossos irmãos?  
A um glorifica, a outro cobre de infâmia.  
A Etéocles – dizem –  determinou dar,  
Baseado no direito e na lei, sepultura  
Digna de quem desce ao mundo dos mortos.  
Mas quanto ao corpo de Polinice, infaustamente morto,
Ordenou aos cidadãos, comenta-se,
Que ninguém o guardasse em cova nem o pranteasse,  
Abandoando sem lágrimas, sem exéquias, doce tesouro  
De aves, que o espreitam famintas.  
As ordens – propalam – do nobre Creonte, que ferem a ti  
E a mim, a mim, repito, são estas, que vem para cá
Com o propósito de anunciar as ordens aos que ainda não as conhecem  
Explicitamente. O assunto lhe é tão sério
Que, se alguém transgredir o decreto,  
Receberá sentença de apedrejamento dentro da cidade.  
É o que eu tinha a te dizer; mostrarás agora
Se é nobre ou, se embora filha de nobres, és vilã.
 
(SÓFOCLES, 2014, p. 8-9
 
 

Os gregos entendiam a sua liberdade como independência. Uma vez que só se pode ser totalmente independente nos juízos e acções se se tiver outro que cuide das necessidades da vida, sentiam-se compelidos a viver num mundo construído sobre a escravatura e a opressão das mulheres.

E embora alguns gregos vissem estas iniquidades como perturbadoras, a maioria tomava-as como inevitáveis, como 'o modo como as coisas são'. No entanto, Hegel via o desconforto implícito dos gregos consigo próprios surgir de modo dramático na arte.

 

O seu exemplo favorito era a tragédia de Sófocles, Antígona. Na peça, dois dos filhos de Édipo lutam pela herança do poder. Ambos morrem e o tio, Creonte, intervém para proibir que um deles tenha direito a ritual fúnebre; mas Antígona, sua sobrinha e irmã dos mortos, desobedece enterrando-o secretamente. Ela fá-lo porque é o seu dever de irmã fazê-lo, quer dizer, enterrar o irmão, mas sabendo que é também o seu dever obedecer a Creonte (sobretudo como jovem mulher).

Antígona é apanhada numa situação contraditória quanto aos seus deveres. Ela também tem o dever de não decidir por si própria acerca do que deve fazer - o seu estatuto na vida obriga-a a obedecer aos requerimentos que lhe fazem- e o coro, mais tarde, condena-a por esta tentativa injustificada de autonomia.

 

Antígona é apanhada no desejo de conseguir algo normalmente proibido às mulheres: ela quer liberdade, o que requer que seja reconhecida como igual. Mas, quem teria autoridade para a reconhecer como tal? Não um marido (não na Grécia Antiga). Não os seus filhos, se os tivesse. Nem os seus parentes. Nem a sua irmã. Só os seus irmãos o poderiam fazer e estão ambos mortos. No seu desejo de liberdade, Antígona tenta convocar esse reconhecimento dos seus irmãos mortos. Acaba mal, como se sabe, porque o tio descobre e manda enterrá-la viva numa gruta; e embora depois se arrependa e resolva libertá-la, ela já se tinha suicidado.

 

Através do seu desafio, Antígona representa o que correu mal com o ideal grego: o modo como instituiu um regime de igualdade para alguns homens mas o negou a outros. Ao desafiá-lo, Antígona também se tornou a voz dos excluídos exigindo inclusão e reconhecimento como iguais e, por conseguinte, igualmente livres. Se 'alguns são livres', diz ela, porque não eu também? Para uma audiência grega isto criava um desconfortável sentimento de que talvez todo o esquema social/político não fizesse sentido.

(baseado num excerto de The Spirit of History de Terry Pinkard)

 

O que causa espanto é que passados 2500 anos ainda esta questão não esteja resolvida, no que respeita à liberdade e igualdade de direitos, de facto e não apenas formal, das mulheres e que a sociedade continue construída em toda a espécie de esquemas para condicionar a sua [nossa] liberdade.

 

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publicado às 17:37



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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