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Agência Portuguesa CONTRA o Ambiente

por beatriz j a, em 14.07.19

 

Agência Portuguesa do Ambiente (APA) AUTORIZOU cortar o rio Sorraia em Samora Correia

No primeiro contacto que fizemos com o Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), para tentar compreender como é que se pôde cortar o caudal hidrológico do rio Sorraia, a resposta foi bem elucidativa:

– “Infelizmente não podemos fazer nada. Entramos em contacto com a Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira e eles enviaram-nos as licenças que foram passadas pela Agência Portuguesa do Ambiente. Já recebemos algumas queixas sobre este assunto, mas toda a responsabilidade deve ser solicitada à APA”, afirmou um elemento do SEPNA de Coruche.

 

Depois de alguma investigação que ainda não chegou ao fim, o “Ribatejo News” soube que Agência Portuguesa do Ambiente (APA), autorizou a Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, a cortar o rio Sorraia (leia-se autorizou a morte do maior rio do Ribatejo!) a cerca de um quilómetro e meio a montante da Ponte do Porto Alto. Objectivo: evitar que a água salgada das marés pudesse danificar os campos de arroz.

Tendo as licenças em seu poder até dia 17 de Setembro de 2019, a Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira, avançou com as obras sem ouvir o parecer de ambientalistas, deixando a jusante dessa “barreira” de pedras, saibro e rochas, toneladas de peixe da água doce que estão a morrer lentamente por causa dos efeitos da água salgada proveniente das marés.

Aliás o “Ribatejo News” acompanhou um grupo de cidadãos que solicitaram o anonimato, que têm vindo a salvar barbos, pimpões, tainhas, carpas e sarmões. Mas é necessário que o Ministério do Ambiente, os grupos ambientalistas e Ecologistas como “Os Verdes”, o partido PAN (Pessoas, Animais e Natureza), Associação Nacional de Conservação da Natureza Quercus, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável vão com alguma URGÊNCIA ao local, para ver a amputação que foi efectuada no rio Sorraia.

 

Este atentado ambiental no maior rio Ribatejano também requer a mobilização das populações ribeirinhas de Coruche, Benavente e Samora Correia, para se defender um dos afluentes mais interessantes do rio Tejo

Se não houver celeridade em destruir aquele dique que foi construído com o parecer favorável da APA, pela Associação de Beneficiários da Lezíria Grande de Vila Franca de Xira e não se devolver as marés naturais ao rio Sorraia, daqui a alguns dias podemos ser confrontados com uma mortandade de toneladas de peixes da água doce, que poderá ter efeitos catastróficos no que diz respeito à biodiversidade existente na Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET), situada a poucos quilómetros desta obra “monstruosa”.

A Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET) 

A Reserva Natural do Estuário do Tejo (RNET) abrange uma área de 14.416 hectares, que inclui uma extensa superfície de águas estuarinas, campos de vasas recortados por esteiros, mouchões, sapais, salinas e terrenos aluvionares agrícolas ( as chamadas Lezírias). Esta reserva insere-se na zona mais a montante do estuário, distribuindo-se pelos concelhos de Alcochete, Benavente e Vila Franca de Xira e não excedendo os onze metros de altitude e os 10 de profundidade.

Nas margens do estuário desenvolve-se o sapal, cuja comunidade florística vive sob a influência das águas trazidas pela maré. Região de grande produtividade a nível de poliquetas, moluscos e crustáceos, constitui uma autêntica maternidade para várias espécies de peixes, como é o caso do linguado e do robalo.

 

Das espécies consideradas sedentárias e tipicamente estuarinas, podemos salientar o caboz-de-areia e o camarão-mouro. Para peixes migradores como a lampreia, a savelha e a enguia, o estuário do rio Tejo é um local de transição entre o meio marinho e o fluvial.

O Sorraia que recebe no Porto Alto o rio Almansor e depois desagua no Tejo na Ponta da Erva, também faz parte da Reserva Natural do Estuário do Tejo e por isso mesmo esta obra devia ser evitada.

“É criminoso o que fizeram no rio Sorraia. Como é possível que se dê luz verde a umas obras desta envergadura que vão pôr em risco a própria saúde ambiental do rio. Actualmente existem técnicas hidráulicas que podem ser aplicadas de modo a evitar que a água salgada seja utilizada na agricultura e especialmente na rega dos canteiros de arroz. É vergonhoso e não dignifica o ambiente em Portugal o que foi feito aqui no rio Sorraia”, disse ao “Ribatejo News” António Mendes, um reformado que costuma dedicar-se à pesca do lagostim de água doce.

 

nquadramento histórico do Rio Sorraia

O rio Sorraia é um dos rios mais bonitos do Ribatejo. Nasce na freguesia do Couço (Santa Justa) e resulta da junção de duas ribeiras de Sor e o do Raia.

É o afluente português do rio Tejo com maior bacia hidrográfica (7730 km²). O rio Sorraia vai recebendo várias ribeiras ao longo do seu curso, sendo as principais as ribeiras de Erra, de Divor e de Juliano, e, junto a Porto Alto, recebe o rio Almansor.

Teve ao longo dos tempos um papel vital para a região e, segundo registos históricos, já romanos e árabes aqui se fixaram, usufruindo dele no campo agrícola e como meio de comunicação, para exportar os produtos cultivados nas férteis terras do Vale do Sorraia, onde desenvolveram engenhosos sistemas de irrigação que chegaram aos nossos dias.

 

Passa nas vilas de Coruche e de Benavente e desagua no rio Tejo na Ponta da Erva, próximo de Alcochete após percorrer cerca de 155 quilómetros.

Era até ao início do século XX navegável, tendo conhecido um significativo tráfego fluvial de escoamento de produtos agrícolas e florestais, nomeadamente cortiça, madeiras e cereais. Até 1870 o nome oficial deste rio era rio Amora.

Na segunda metade do século XX foi posto em ação o Plano de Irrigação do Vale do Sorraia, através da construção das Barragens de Montargil e Maranhão, conjuntamente com o Canal do Sorraia, visou um melhor aproveitamento dos recursos hídricos, para potenciar o rendimento agrícola da região, propósito que foi alcançado.

É preciso salvar o rio Sorraia porque ele é um paraíso ecológico
Foto: J.P/D.R

Só que nos últimos 50 anos o rio Sorraia tem sofrido várias intervenções que deixam muito a desejar em termos ambientais e ecológicos.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) deve ser responsabilizada pela mortandade de várias toneladas de peixe da água doce que ficaram impedidos de desovar no rio Sorraia

Mais do que um rio, o Sorraia deve ser olhado como um corredor ecológico e um ecossistema que deve ser preservado, uma vez que constitui um habitat para muitas espécies e algumas delas em extinção.

A defesa da biodiversidade existente num lugar que reúne todas as condições para se afirmar como um exemplo de habitat para alguma fauna e flora que importa preservar é um dever cívico, uma vez que o rio Sorraia é um património de todos nós. Ou pelo menos devia ser.

Actualmente, a questão do futuro da diversidade biológica coloca-se de forma insistente, uma vez que o homem pós-moderno tem vindo a destruir e modificar os ambientes naturais a um ritmo sem precedentes.

A fisiografia do rio, moldada pela natureza geológica das diversas formações que se apresentam ao longo do seu vale, o regime de caudais afluentes determinado pela pluviosidade, a riqueza mineralógica do material arrastado pelo rio, os campos férteis nas margens enriquecidos pela deposição de sedimentos, os abrigos naturais para as embarcações e as condições temperadas de um clima acolhedor proporcionaram, na realidade, que ao longo dos anos diversos povos viessem até ao rio Sorraia para se fixar e para desenvolver as atividades necessárias à sua sobrevivência.

Infelizmente nenhuns destes critérios foram tidos em conta e a “amputação” que foi feita no Sorraia, um quilómetro a montante da Ponte do Porto Alto, na freguesia de Samora Correia, constitui uma das maiores aberrações ambientais dos últimos tempos.

Uma obra absurda que está a pôr em causa a sobrevivência de algumas toneladas de peixe de água doce que podem morrer nas próximas semanas, caso o Ministério do Ambiente e as autoridades competentes não actuem em defesa do rio Sorraia.

Não se compreende que em pleno século XXI ainda se autorizem obras que podem pôr em causa uma das maiores reservas naturais na Europa do Sul.

Temos o DEVER de salvar o rio Sorraia. Ele é património ambiental de todos nós.

José Peixe (Texto e Fotos) – Jornalista (C.P 552 A)

 

publicado às 13:35



no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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