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A propósito da pseudo-questão dos Maias

por beatriz j a, em 20.07.18

 

 

Digo pseudo-questão porque, dizem-me os colegas de Português, há muito tempo que a obra não era obrigatória. O que era obrigatório era estudar Eça e dar uma das suas obras, mas não obrigatoriamente Os Maias. Embora, quase todos optassem por essa obra. Mas este post não é sobre isso mas sobre os artigos que tenho lido em defesa do 'fim' dos Maias a pretexto da obra ser longa, complicada e chata do ponto de vista dos alunos.

 

Este ano tinha uma turma do 11º ano que, apesar de ter lá quatro ou cinco alunos bastante bons, não era uma turma muito boa em termos de resultados gerais. No entanto, era interessada, para além de muito simpáica. Quando começaram a dar os Maias alguns queixaram-se de ter que ler o livro. No entanto, passado pouco tempo, quando chegava à aula estava a turma à porta e metade deles estavam a discutir as personagens dos Maias. À medida que iam lendo o livro desenvolviam empatia ou antipatia por várias personagens e discutiam os acontecimentos e o comportamento delas como quem discute o último capítulo de uma novela.

 

Os políticos e outros que escrevem sobre alunos e educação têm sempre pontos de vista prévios e mal informados sobre o que os alunos são e não são capazes. É evidente que neste tempo em que as crianças são, desde infância, incentivadas à imagem e desincentivadas ao texto escrito, é mais difícil pôr os alunos a ler livros que a ver filmes. No entanto, desde sempre, os alunos, no geral, acham 'uma chatice' tudo aquilo que aparece como obrigatório fazer. Daí não se segue que não sejam capazes de o fazer com ganhos na sua educação e que muitos deles não acabem interessados. A educação não tem que ser, nem deve ser, apenas sobre coisas que à partida parecem entusiasmantes ou excitantes. É preciso saber aprender a gostar das coisas ou até a ser capaz de as fazer mesmo sem gostar. Faz parte da educação do espírito para o trabalho e a para a vida.

 

Os miúdos a certa altura perguntaram-me se no meu tempo o livro era obrigatório e se tinha gostado dos Maias. Disse-lhes que sim, que era obrigatório e que na altura em que o tinha estudado, tinha levado imenso tempo a começar a lê-lo por causa daquelas páginas iniciais de descrições mas que uma vez começado tinha-o lido num instante e que hoje em dia é um livro que leio de vez em quando, pelo puro prazer de ver como ele apanhou tão bem um certo modo de ser provinciano e deslumbrado dos portugueses, de tal maneira que as suas personagens funcionam como modelos das pessoas reais: é assim que podemos, por exemplo, identificar quem é o Dâmaso do governo ou da vida pública ou do nosso local de trabalho. 

 

Há uns anos o programa de Filosofia incluia, obrigatoriamente, a leitura e análise de uma obra filosófica no 10º ano, outro no 11º ano. É claro que os alunos, antes de abordarem as obras, só de saberem que tinham que as ler, se queixavam mas depois acabavam por aprender bastante com elas. Hoje em dia, o programa espera e quer que os alunos tenham opiniões filosóficas originais (!!) o que me dá vontade de rir mas depois acha que é muito difícil pô-los a ler uma obra filosófica...

 

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publicado às 07:46


1 comentário

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De júlio farinha a 21.07.2018 às 12:39

A paixão e a competência do bom professor desperta a curiosidade e o interesse do aluno pela aprendizagem.

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no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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