Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau
A Igreja católica tem uma história de intervenção positiva ao nível da acção social. Aliás, se não fosse a acção da Igreja neste campo muitas pessoas estavam muito piores, porque o Estado demite-se completamente das suas obrigações sociais. A cáritas e outros serviços fazem muito do que o Estado devia fazer. É certo que essa é a missão da igreja e toda a sua razão de ser: a ajuda e a luta pelos que pouco ou nada têm.
O problema da igreja está em querer estender a sua influência a áreas que não são da sua competência. Coisas da vida privada das pessoas que nada têm a ver com a salvação da alma. Querem regular despoticamente a vida das pessoas e não se medem: defendem a igualdade perante Deus mas depois declaram as mulheres e os gays e outras pessoas como seres humanos de 2ª classe. Metem-se na vida sexual das mulheres a torto e a direito. São responsáveis por séculos de neuroses com as doutrinas sobre os pecados que obsessivamente inventam sobre o sexo. E, historicamente, mostram ter, enquanto instituição, uma grande ganância com o poder e o dinheiro, o que é absolutamente incompatível com tudo o que defendem.
Continuam a alimentar a crendice das pessoas com a consequente subserviência como se estivéssemos ainda na Idade das Trevas. A ideia da infalibilidade do Papa em matéria doutrinária não é um dogma mas uma crendice. É o que chamamos 'fé cega', aquela a que falta a 'luz' da razão esclarecida e esclarecedora.
Dogmas são verdades de fé. Embora sejam 'não racionais', na medida em que não relevam directamente da razão, não são irracionais, não negam os princípios da razão. Uma fé que contraria os princípios da razão (contradição, etc.) é uma fé irracional - é uma crendice sem fundamento.
A crença em Deus é um dogma. A existência de um Deus não repugna à razão. Agora a ideia do Papa ser infalível em matéria doutrinária contraria tudo o que sabemos da história da Igreja, dos Papas e da própria construção da doutrina, orientada por lutas de poder na época do grande sisma.
Acreditar nisso é uma crendice que repugna à razão esclarecida e autónoma. E no entanto, este e outros princípios são defendidos. Para quê? Para a manipulação subserviente das pessoas.
Terça feira uma jornalista perguntava a um convidado, numa estação de TV, logo após a missa do Terreiro do Paço, se este Papa não seria o último iluminista! Fiquei de boca aberta com a ignorância da jornalista. O Papa, um iluminista! O iluminismo, porque defendia a autonomia da razão, descartava a religião enquanto modelo de acção ética. O Kant daria dez voltas no túmulo se ouvisse a mulher a dizer aquela enormidade.
A igreja quer crendice, ignorância e obediência, não quer pessoas pensantes e autónomas.
Benjamin Black, O Segredo de Christine
"Quando ele olha para trás, para a sua infância, é o vazio que vê." Um vazio que, adivinha-se, é uma forma de ocultar sofrimentos e eventuais abusos. Quirke é médico patologista, "não está habituado a lidar com os vivos" e vive "fascinado pelo mistério mudo dos mortos"; trabalha num hospital de Dublin cujo nome - Sagrada Família - e cujo slogan - "It's a sin to tell a lie" ("É pecado mentir") - passariam despercebidos não fosse a história centrar-se à volta do pecado e do castigo, do crime e da mentira.
A ficção policial em que Quirke se move transporta o leitor para esse "período negro" da Dublin dos anos 50 em que tudo era permitido - matar, mentir, roubar, destruir vidas -, menos pecar. E em que o sexo era o único pecado.
"Eu queria escrever sobre esse período porque muito poucas pessoas escreveram sobre ele. É um período de grande falta de liberdade, em que estávamos totalmente controlados pela Igreja", explica John Banville. Para o escritor, a Dublin desse tempo em que ele ainda era criança, com "toda aquela culpa, todo aquele desejo sexual reprimido", é o cenário perfeito para quem quer escrever romances negros. "Percebemos agora a razão dessa obsessão da Igreja, dos bispos, dos padres, dos cardeais, com o pecado sexual. Eram eles que estavam obcecados com o sexo. Não nós."
(excerto do artigo do jornal i)
“Muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre o celibato dos padres e a pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-me recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia”, afirmou Bertone.
Agora não é possível ler um jornal sem deparar com uma pérolazinha de sabedoria (não se sabe se de inspiração divina?) sobre pedofilia por parte, não dum qualquer zé-ninguém, mas do número dois, ou número três, ou algo do género, da Igreja. Desta vez para dizer que a culpa é dos homossexuais.
Quem também culpava muito os homossexuais disto e daquilo eram os nazis, que como se sabe acabaram a queimá-los no forno. Os muçulmanos também os matam.
Aqui no Ocidente gostávamos de nos gabar de sermos mais civilizados, e de dizer que isso se via no modo como tratávamos o nosso semelhante. Pois a Igreja, primeiro esconde os criminosos e até os pões perto de novas vítimas, e depois diz que a culpa é dos homossexuais. Sim, senhor! Grandes modelos de comportamento moral!
“Os padres postos em causa mais vezes foram transferidos, mas nunca houve sanções”, conta Devillé, lamentando a falta de apoio da hierarquia católica belga. “Foram muito poucos os padres que nos ajudaram.” Na maioria dos casos, explica, foi dito às vítimas que os seus casos tinham “infelizmente prescrito”. Houve até vítimas que acabaram acusadas de difamação.
“Tivemos o caso de um padre acusado três vezes de abusos e que de cada vez era transferido para um local onde não fosse conhecido, onde continuava a abusar”, conta o padre Devillé.
Quem é que precisa de uma instituição religiosa onde se pratica o crime sem pudor? Quantas centenas de vidas não teriam sido poupadas à destruição se estes indivíduos tivessem imediatamente entregue os criminosos à justiça? Quantas crianças inocentes são agora, também elas, pedófilas, por causa das acções da igreja? Quantas vidas têm estes tipos às costas?
Os pais a entregarem os filhos nas mãos de padres, nos colégios, nas catequeses, nos grupos de jovens, etc., sem saberem que estavam a pôr os cordeiros no covil dos lobos...
Quam precisa duma instituição destas? Os mesmos padres que acobertam crimes repugnantes entram depois no confessionário para absolver(!) os pecados dos outros, mandá-los fazer penitência, pregar-lhes sermões sobre inocência e bondade.
Os lugares mais altos da hierarquia da igreja estão pejados de lobos de pele de cordeiro. A metáfora do rebanho que tanto gostam é correcta, só a do pastor é que não: na verdade quem guarda o rebanho são os lobos.
A arrogância maldosa dos homens em todo o seu esplendor. Quem precisa disto?
Na igreja católica acham que tudo se resolve com uma confissão. 'Pois, opá, fui eu, sim, desculpa lá. Vou rezar um terço e duas avé marias. Ciao'. E pronto, está o assunto arrumado.
Parece que há um grupo de homens de apoio ao violador de telheiras que tem vindo a crescer no facebook. Apoio às vítimas desse criminoso, nada. Também há um grupo de apoio aos padres pedófilos, dentro da Igreja, a começar pelo Papa e mais altos responsáveis. Apoio às vítimas, nada. O exorcista mor do Vaticano -Gabriele Amorth- diz que as críticas à Igreja são obra do Diabo. Como diz uma cronista do NYT, o que a Igreja precisa não é de um exorcista, mas dum 'sexorcista'.
Estamos na semana da Páscoa, a mais importante do calendário católico. Nesta semana é obrigatório a confissão dos pecados e o arrependimento, mas a Igreja só se preocupa em acusar os outros e não mostra sinais de arrependimento. Não é que haja mais pedófilos entre os padres do que entre outros. Não é que acreditemos que a Igreja é imune aos crimes dos homens, mas acreditávamos que a Igreja fosse uma instituição do lado do bem, do lado da humildade, do lado da verdade, do arrependimento, da compaixão pelas crianças, do lado da justiça. Mas não é.
Dos argumentos usa sempre o que lhe interessa mais: os padres são criminosos? É porque a Igreja é constituída por homens, não santos. Os padres criminosos não são entregues à justiça? É porque a Igreja é uma instituição divina que está acima dos homens e não lhes deve explicações!
A quantidade de casos de pedofilia entre padres que surgem por todo o lado é chocante, sobretudo pelo encobrimento que tiveram, que custou mais milhares de vítimas que poderiam, e deveriam, ter sido evitadas se, em vez de encobrir e tranferir padres de paróquia em paróquia, os tivessem denunciado e entregue à justiça. Porque o que este encobrimento diz é que a aparência de respeitabilidade pesou mais que a vida e o sofrimento das crianças. Ou seja, a questão foi ponderada e puseram num dos pratos da balança, a destruição da vida de crianças e no outro a aparência de respeitabilidade moral da Igreja e, o que mais pesou, foi esta última. Este 'comércio' com a vida e sofrimento das crianças é que é completamente imoral e inaceitável da parte duma instituição religiosa. Segundo os padrões da própria Igreja Católica, este não é um pecado venial, e as pessoas que o cometeram fizeram-no na plena consciência dos seus actos.
Quem é que acredita no Papa ou outros quando vêm agora dizer que não sabiam de nada quando houve danças de padres entre paróquias, documentos a defender o secretismo do assunto, etc?
A Igreja católica começa a parecer-se, demasiadamente, com a Muçulmana, no desprezo pela vida, sobretudo das crianças e das mulheres, e na luta pelo poder, a qualquer custo.
As palavras de Schoenborn, próximo de Bento XVI, surgem numa altura em que se multiplicam denúncias de abusos cometidos por padres. Ontem soube-se que a Justiça francesa está a investigar um padre, director da Rádio Cristã, por antigos crimes contra um menor.
Durante a homilia da missa crismal de ontem, que deu início às celebrações da Páscoa, o Papa não se referiu aos abusos, mas afirmou que os cristãos não devem aceitar leis injustas como o aborto. “Também hoje, é importante para os cristãos seguir o direito, que é o fundamento da paz. Também hoje, é importante para os cristãos não aceitar uma injustiça que é elevada a direito – por exemplo, quando se trata do assassinato de crianças inocentes ainda por nascer.”
A Igreja está cheia de pedófilos cujos crimes são acobertados, e até alimentados, uma vez que em muitos casos transferiam os padres de uma paróquia para outra, onde recomeçavam com outras crianças - mas o Papa, na homilía, só se lembra de chamar assassinas às mulheres...
Igreja concentrou-se em evitar o escândalo e não nas vítimas P
Altos responsáveis do Vaticano – incluindo o Papa Bento XVI – não tomaram medidas contra um padre que abusou de mais de 200 rapazes, noticia o “The New York Times”.
Isto é mesmo grave. É que não se trata de um ou outro padre pedófilos. Trata-se do Arcebispos e outros Bispos que, ao ocultarem uma série de crimes durante anos a fio, não só são cúmplice desses crimes (o Papa é uma dessas pessoas que encobriram milhares de crimes) como são traidores de tudo aquilo que representam e defendem, porque defendem, acima de tudo, uma ética, uma moral e uma virtude cristãs.
É muito diferente, no que respeita a este caso, serem talhantes ou médicos, por exemplo, do que serem padres, porque estes se assumem como modelos sociais do que deve ser o homem - sem complacências, já que ameaçam com o Inferno e a Eterna Danação. As pessoas ouvem o que eles dizem, fazem o que eles fazem. São guias espirituais e de conduta de milhares. São pessoas que julgam os seus semelhantes e, por isso, se põem acima deles em termos morais.
Acho isto mesmo grave e se essas pessoas tivessem de facto uma moral cristã coerente e vivida, abandonavam os cargos e iam fazer penitência paraqualquer sítio.
|
A não comunicação de crimes à polícia, de modo a proteger o bom nome da Igreja, é uma das faltas apontadas neste trabalho aos quatro arcebispos, segundo conta hoje o jornal britânico "The Daily Telegraph". |
A banalidade com que a pedofilia é encarada pela Igreja Católica é chocante, mas não surpreendente, se pensarmos na sua frequência.
A Igreja é uma instituição que instiga o desprezo pelas mulheres e obriga ao celibato, por medo das mulheres, e proibe hipocritamente a homossexualidade, embora saiba que é prática corrente no seu seio.
Obrigados a uma anormal repressão da líbido e cheios de ideias de pecado e culpa e recalcamentos acabam por fertilizar o terreno das perversões. E quem atacam? Os mais vulneráveis, claro: as crianças.
Tudo isto é vergonhoso por parte duma instituição que prega o bem e o amor às crianças, e é indesculpável porque era evitável.
O encobrimento banal destes crimes pela hierarquia é revelador da mentalidade perversa da Igreja em tudo o que diz respeito ao sexo.
Cada vez é mais evidente que a Igreja condena muitas pessoas à neurose e a vidas de fingimento, repressão, recalcamento e perversão.
Esta semana é notícia cá no país um padre ter fugido com uma rapariga por quem se apaixonou: good for them!
O cardeal-patriarca de Lisboa repreendeu hoje bispos e padres que "se consideram com o direito de decidir pela sua cabeça" em vários domínios da Igreja Católica, considerando que isso fragiliza "a proposta cristã" e cria "divisões". D. José Policarpo notou também que, muitas vezes, o pastor aproxima-se de um gestor de empresas.
Quer dizer, os padres, mesmo que se encontrem divididos em certas questões, devem anular-se e fingir que estão unidos de modo que nada ponha em causa o lucro final da 'empresa', de que o bispo é gestor.
Estes discursos vão na linha do regresso à Idade Média, parte II, versão rasca (onde os muçulmanos já estão há uns séculos).
Santa Sé reage mal à carta assinada por 41 párocos a apoiar direito dos doentes terminais a recusarem tratamento, publicada dias após a morte da italiana Eluana. Os signatários são agora inquiridos pelos seus bispos. Seis meses depois. Um deles retractou-se. Outro insurge-se e fala na Inquisiçã.
"É inaceitável, digno do Santo Ofício!", desabafa. E questiona: "Porque não me comunicam a mim, directamente, a investigação e porque se retira a carta do contexto em que foi assinada?"
"A lei sobre o testamento biológico que o Governo e a maioria se preparam para votar bloqueia a liberdade de todos os protagonistas implicados no momento supremo da morte", afirma o texto.
Analisado o texto, cinco meses após a sua publicação, a Congregação para a Doutrina da Fé [ex-Santo Ofício ou ex-Inquisição] entendeu enviar agora uma carta aos bispos e superiores provinciais dos 41 signatários italianos. A missiva contém uma ordem muito clara: chamar os rebeldes, avaliar a sua ortodoxia e o seu grau de adesão à Igreja e ao Papa e, eventualmente, castigá-los.
A igreja costuma ter um argumento tipo 'pau de dois bicos' de que se serve muito. Quando quer impôr a vontade um (o Papa) sobre milhões diz que a igreja não é uma democracia, que é uma fé com doutrina (como se a doutrina não tivesse sido feita pelos homens); quando quer fugir às responsabilidades, como no caso da Inquisição diz: a igreja não é o Papa ou os bispos, a igreja somos todos nós, cada um é responsável pelas suas acções e se uns erraram não se pode culpar de um golpe toda a igreja (como se a inquisição não tivesse sido a política -não democrática- da igreja).
Desde quando é que a igreja tem legitimidade para castigar? Castigar? Quando muito pode dizer-lhes para irem embora se a maioria entender que aqueles padres já não estão de acordo com os princípios daquela fé. Agora, castigar? Como se os padres fossem putos?
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.