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José Gil - palavras de aviso

por beatriz j a, em 05.01.19

 

José Gil: "O passado está a ser engavetado, digitalizado e virtualizado" (DN)

 

Até que ponto estaremos imunes?
A resposta generalizada será que sim, mas não se sabe exatamente apesar de os extremos do xadrez político estarem ocupados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP, pelo CDS, pelos sindicatos, ou seja, as reivindicações estão todas cobertas pelas estruturas institucionalizadas. Ora, o populismo nasce e floresce fora das instituições e contra elas, portanto terão de ser reivindicações que saem fora do discurso habitual dos sindicatos, dos partidos e do governo, para que qualquer coisa nasça, até porque se caracterizam por serem fenómenos que aparecem sem que saibamos como. O populismo atual vem rapidamente de uma cada vez maior sensibilização das classes médias baixas e não instruídas devido ao aumento do escrutínio dos media sobre as desigualdades ou a corrupção. Há um sentimento de injustiça que atravessa a sociedade e que faz que os políticos sejam cada vez menos reconhecidos e representativos, podendo observar-se uma onda latente de populismo possível na abstenção que é cada vez maior. Também pode acontecer, por exemplo, a propósito de uma exigência que não tem expressão política.

Pode dar um exemplo?
É fácil, basta pensar numa que seja intolerável no novo espaço público, o das redes sociais, como é o caso das mortes que estão a acontecer no país porque não houve cirurgias. Ou mortes psíquicas, que cada vez mais acontecem no corpo docente do ensino primário e secundário, em que os professores têm uma vida cada vez mais difícil. É intolerável que um português em cinco tenha perturbações psíquicas. Que povo é este? Suponhamos que tudo o que está nesse fundo da abstenção política emerge e ultrapassa os partidos políticos que não tiveram capacidade de fazer de certas situações uma reivindicação política que poderá provocar um movimento social do tipo coletes amarelos. Foi isso que aconteceu lá e poderá surgir aqui.

As novas tecnologias tornam possível o espaço público diferente, propício para dar expressão a injustiças

A falência económica da comunicação social e a forte emergência das redes sociais é uma combinação fatal?
Não é uma combinação, haverá um efeito que resulta de causas comuns, mas os efeitos são divergentes. Há um facto muito simples, é que até agora em países muitos pequenos e específicos, como o nosso, o espaço público era dominado pelos media e pela televisão, mas as novas tecnologias tornaram possível a criação de um outro espaço público muito particular, diferente e que se torna o terreno propício para dar expressão a uma injustiça: «Eu, cidadão anónimo, desprezado pelo sistema e pela injustiça das políticas, posso manifestar-me aqui.» Mesmo que isto signifique que o ignaro mais incongruente possa manifestar a ignorância com agressividade nesse espaço público. E este é um fenómeno novo para as elites.

(...)

O passado mostrado pela arte e pela cultura tem vindo a ser suplantado pela preocupação com a situação financeira e económica. Os pilares da educação mudaram?
Não é só a questão económica, o que se passa é, repito, uma erosão de tudo o que é a tradição. O passado está a ser engavetado, digitalizado e virtualizado, e cada vez menos lhe atribuímos uma realidade com peso. O passado é cada vez mais uma imagem que se transforma numa coleção de imagens enquanto objetos de consumo, apesar de não informarem nem sedimentarem a nossa pessoa e cada vez menos os comportamentos sociais. Um aluno sabe cada vez menos sobre o passado, nem lhe interessa saber, e isso é terrível, pois há uma erosão que vem da transformação do valor da realidade do passado e da transmissão pela tecnologia que traduz tudo em imagem. Tudo isso é metabolizado e instrumentalizado pelo capitalismo, que só conta cada vez mais com o que gera uma mais-valia.

É um tempo em que Botticelli vale tanto como Madonna?
Acaba-se a nossa relação com o passado e a maneira de «fruir» e «consumir» a própria arte. A introdução maciça no mercado da arte do valor de troca como parte do juízo estético é recente e transformou completamente a valoração do objeto de arte.

Como é que se confronta pessoalmente com esta mudança de paradigmas?
Não acho que haja mudança de paradigma, porque tal não existe para o nosso presente. Estamos a mudar de paradigma sem que tenhamos aquele para o qual queremos mudar. Isto em tudo, como é o caso da educação para a cidadania. Havia antes uma educação para a transmissão e acumulação na área das humanidades, agora é o da cidadania. O que é que os professores vão ensinar? E como vão formar turmas tumultuosas. Isto é uma coisa ridícula, porque quando não se dão meios nem se preparam os professores para a cidadania não há formação possível: ou seja, não há paradigma, tanto mais que a questão da cidadania leva a ponderar questões totais na sociedade.

publicado às 08:04


2019 - sinais de esperança

por beatriz j a, em 30.12.18

 

For example, in 2016, for the first time, the share of global energy that came from renewables passed 10%. According to the International Energy Agency, the world got nearly 25% of its electricity from renewables in 2017, and that number should jump to 30% within the next few years. (Note: Many of the figures cited in this story are from 2017 or 2016, but most were published in 2018 because it usually takes a year or two to gather and analyze global data.)

New data also show that, between 2016 and 2017, some 6.7 million additional sq km (2.6 million sq miles) of the world’s oceans were put under environmental protection. The majority of that is in national waters, meaning more countries are actively assisting in the global ocean conservation project. (About 260,000 sq km of land were also added.)

It’s a bit hard to contextualize how many endangered or threatened species we’ve been able to save, since their ranks grow as as humans explore more of the world and find new species we must assess. But the fact that we’ve been able to take an increasing number off these lists is encouraging. In 2018, the lesser long-nosed bat was delisted thanks largely to the efforts of tequila producers, whose agave plants the bats feed on.

Poverty/Income

It can be hard to assess global poverty rates, since context can vary dramatically. One way to look at it is by comparing the difference between what the average person makes a day, and the global poverty line of $1.90 a day (as determined by the World Bank). Based on that measure, global poverty is falling.

Another thing to consider is quality of life. Electricity is essential to health, education, and general satisfaction. According to new data released this year, 87% of people around the world had access to electricity in 2017.

Education

Literacy rates have been steadily climbing for decades now, and though it seems incremental, even a fraction of a percentage point can make a huge difference. Considering there are some 5.5 billion adults alive today, the 0.23 percentage-point increase from 2015 to 2016 (the last year for which data are available) means about 11.5 million more people can read.

Public health

Probably the biggest invisible improvements the world sees year to year are essential indicators of overall global public health, like rates of infant mortality, maternal mortality, childhood stunting, and teen pregnancy. These are important, because they represent access the average person alive has to health care professionals, facilities, medicine, and more. All of these rates have been falling in the past few decades, in some cases dramatically.

Another good indicator of improving global health is rates of treatable infectious diseases, like tuberculosis and malaria. These have typically been much bigger problems in poorer parts of the world, but those care gaps continue to close.

Gender equality & LGBT rights

Another positive trend that can fly under the radar, especially in wealthier countries, is how the global gender gap in education continues to close. New data published this year show that, in 2016, there were 99.7 girls enrolled in primary and secondary school for every 100 boys. For comparison, in 1986 that number was 85.1. As with some of these other indicators, each year sees only what appears to be incremental improvement, but given the size of the global population, those tiny increases have outsized impact.

The 2018 US elections resulted in a historic new class of congressional representatives: at least 121 women will serve in Congress starting next year, accounting for just under 23% of Congress members. That, though, just brings the US in line with the global trend, in which women’s share of government seats passed 23% in 2016, and rose to nearly 24% in 2017.

There’s still much to do for women’s equality. There’s also much more to do for LGBTQ rights. But one encouraging trend is that countries continue to legalize same-sex marriage. In 2018, Costa Rica’s highest court ruled that laws banning same-sex marriage are unconstitutional, bringing the country in line with about 30 others that have done the same.

 

publicado às 09:09


O futuro adivinha-se negro na educação

por beatriz j a, em 15.12.18

 

Os professores e a nuvem negra

É urgente parar esta rampa deslizante de degradação, é urgente pararmos e pensarmos em conjunto a pegada negra (ou os buracos) que estamos a deixar para as futuras gerações numa componente que é crucial, a sua educação.

 

publicado às 05:10


OE 2019 - a chatice dos factos

por beatriz j a, em 31.10.18

 

 

As chamadas despesas excepcionais representam mais de 10 mil milhões de euros, de que não resultam quaisquer benefícios para o cidadão comum. Outrossim, vão directos para os grandes grupos financeiros e económicos. Aí estão inscritos 1750 milhões para os bancos, 4000 milhões para as participações de capital, 1200 milhões para a Parpública e 1518 milhões relativos a rendas de parcerias público-privadas rodoviárias, quando a UE (Eurostat) estimou que o seu valor actualizado não devia ser superior a 337 milhões.

Com a realidade a definir mais tarde, as aparências do OE 2019 são suficientes para perceber o papel da Educação nas prioridades de Costa e Centeno, que o Governo conta pouco e o ministro da Educação vale zero. Como referi antes, um orçamento é sempre um exercício previsional, cujo rigor só é sindicável quando, mais tarde, for cruzado com a respectiva execução. Assim, se a verba prevista para o ensino não superior cresce 248 milhões de euros quando comparada com a inicialmente prevista no orçamento anterior, já quando a comparamos com o que efectivamente se prevê gastar em 2018, o crescimento reduz-se a 82 milhões, isto é, três vezes menos. Se passarmos de valores absolutos para indicadores relativos, salta à vista que o OE 2019 coloca o peso da Educação a evoluir abaixo do que o crescimento económico permitiria. Com efeito, em percentagem do PIB, esse peso vai valer 3,10% em 2019, quando valia 3,14% em 2015, 3,72% em 2011 ou 5,1% em 2002.

 

(Santana Castilho)

 

publicado às 08:27


A chatice dos factos

por beatriz j a, em 27.10.18

 

 

Educação com menos 194 milhões para pagar salários de professores.

Sindicatos estupefactos com descida da verba para recursos humanos, Redução acontece apesar do descongelamento e da vinculação de milhares de docentes.

 

Gasta-se muito dinheiro com os salários, são eles que comem a riqueza do país, os descongelamentos dos professores vão levar-nos à falência... pois, pois, menos 194 milhões... mas a verba para os amigos/pessoais dos gabinetes e viagens dos governantes sobe imparavelmente... 

 

publicado às 08:56

 

As propinas e o mito dos almoços grátis

Mas se nesse mundo idílico de serviços gratuitos há sem dúvida generosidade, igualitarismo e preocupação social, há também um vício que tenta iludir uma questão essencial: quem paga tudo, seja sob a forma de propinas ou não, são em última instância os impostos dos cidadãos.

 

Pois, é essa mesma a questão:

- Se os que têm mais dinheiro pagassem os impostos devidos em vez de fugir ao fisco, este problema não se punha.

- Se os que têm mais dinheiro não desviassem 10 mil milhões para offshores, este problema não se punha.

- Se o regulador, o Governador do BP regulasse em vez de querer recusar-se a dizer quem desvia dinheiro para offshores à má fila, este problema não se punha.

- Se não desaparecessem todos os anos os dados das pessoas e empresas que desviam dinheiro para offshores sem pagar impostos, este problema não se punha.

- Se os governantes investissem na educação em vez de investires milhares de milhões de euros nos amigos banqueiros, este problema não se punha.

- Este problema põe-se porque são os que menos têm que pagam impostos brutais sobre o pouco que ganham e, também, pagam as propinas. E também pagam as subvenções, os carros de alta cilindrada, as segundas casas, as viagens, os tachos dos governantes, família e amigos, os bilhetes da bola, os almoços e jantares e tudo e mais alguma coisa das suas vidas privadas. Nesse meio é só almoços grátis... ah, mas se calhar isso é melhor investimento que apostar na educação das pessoas...

Há países nórdicos onde as propinas são praticamente gratuitas mas nesses países as pessoas todas pagam os impostos.

 

publicado às 08:23

 

 

"L'école a évolué vers un service minimal qui ne réduit pas les inégalités"

 

Em França como em Portugal a democracia não fez atenuar as desigualdades sociais que continuam a ser o factor que mais pesa no sucesso escolar e da vida em geral. Em Portugal, após um breve período em que tal parecia poder acontecer inverteu-se a marcha e temos uma escola que cada vez menos cumpre esse papel. Não por acaso os alunos cada vez menos têm interesse, ou dinheiro, para continuar estudos universitários (nem o governo os quer lá...). É que a educação deixou de ser vista como uma meio de ascenção social. Pelo contrário, é um instrumento de perpetuação de desigualdades. E porquê?

 

Na semana passada estava a discutir a questão da justiça e da igualdade de oportunidades com as turmas do 11º ano, a propósito de J. Rawls e lancei esta questão, 'será que podemos reduzir as desigualdades de oportunidades que nos marcam à nescença ou estamos reduzidos a conformarmo-nos a uma lotaria social?' Os miúdos falaram imediatamente na educação como um aspecto crucial dessa questão e quando lhes perguntei, 'que tipo de educação ajuda a reduzir as desigualdades' responderam, uma educação que seja o mais parecida possível com a das crianças que nascem em famílias com dinheiro e educação superior. 'E que quer isso dizer, na prática?' Quer dizer ter acesso a disciplinas que proporcionem conhecimentos e experiências diversificadas e enriquecedoras. Enfim, não o disseram por estas palavras porque falaram sobretudo em exemplos, como, 'a escola puxar por nós e treinar-nos até ficarmos ao nível dos outros, estar rodeado de pessoas com conhecimentos e experiência de vida maior que a nossa, viajar, poder aprender música, desportos, etc., ter habituação a pessoas e coisas fora da experiência habitual, etc.'

 

Portanto, os adolescentes percebem que esta escola dos mínimos essenciais orientada para o que é poucochinho, prático e imediato os mantem no nível em que já estão. De facto, esta escola que separa a pedagogia da instrução como se fossem coisas antagónicas do género, ou o aluno tem aprendizagem autónoma ou o aluno tem instrução dirigida, não serve o propósito da justiça social.

No entanto, todas as reformas fazem esta falsa dicotomia e nenhum investe na educação. Desde logo acham indiferente para o futuro dos alunos que as escolas tenham professores proletarizados de baixa qualidade desde que isso poupe dinheiro. Acham indiferente que os currículos sejam incoerentes e esburacados até aos mínimos essenciais, despojados de qualidade pedagógica; pensam que tudo que não tem uma função prática, imediata, é inútil - há tempos uma daquelas pessoas que se acahm especialistas em educação só porque andaram à escola defendia que todas as disciplinas deviam ser, obrigatoriamente, laboratórios experimentais, a semana passada outro defendia que devia acabar-se com os livros em papel na escola...; tantos lhes faz como fez porque pensam que se pode instilar tecnicamente autonomia intelectual e pensamento crítico de um modo separado dos conteúdos do próprio conhecimento. Como se uma pessoa ignorante e intelectualmente destruturada pudesse ter autonomia intelectual e pensamento crítico... basta olhar para os nossos governantes... 

 

A suposta democratização do nosso ensino foi meramente quantitativa: enfiam-se todos na escola, à molhada, no menor número de turmas possível, com curriculos que se reduzam ao mínimo essencial com professores também nos mínimos possíveis e transforma-se a educação numa certificação baratuxa. Depois de isto ser aceite nas escolas aplica-se a mesma técnica ao ensino superior.

É por isso que a democracia falhou no seu papel essencial de justiça social e cada vez mais as pessoas estão votadas à sorte da lotaria social.

 

publicado às 05:59

 

 

... ninguém o conhece nem isso tem influência nenhuma sobre coisa alguma. Aliás, é do seu ministério que saem as informações com as quais elaboraram o relatório mas ele também não tem nada a ver com isso, ele trabalha no outro gabinete ao fundo do corredor... e trabalhar ao mesmo tempo no organismo que fornece a informação e no que faz relatórios sobre o seu organismo nem representa um conflito de intereses... às tantas ele nem é do ministério da educação... isto é uma cabala a aproveitar ele não ter poder para o prejudicar nos seus cargos paralelos de grande perito de educação básica e secundária e na sua missão de educar professorzinhos. Ah! Espera lá... ele dá aulas mas é numa universidade... ah, mas não faz mal, ele é o numinoso, logo ele é perito no que não faz...

 

Além disso, desde 2016 que o governante é um dos peritos convidados pela OCDE para colaborar num relatório sobre o Futuro da Educação 2030 que já foi, aliás, publicado. Mas ao contrário do que sucedeu quando João Costa foi eleito para presidir os peritos do TALIS, o Executivo anunciou o convite ao governante para perito através de uma nota no portal do Governo e de um comunicado de imprensa. 

 

O SOL falou com vários ex-ministros da Educação e em nenhum gabinete anterior um secretário de Estado em funções assumiu qualquer cargo na OCDE.       Já o porta-voz da OCDE disse ao SOL não ter informação disponível sobre o assunto.   

 

No entanto, o Ministério da Educação entende que «não há qualquer associação entre as funções desempenhadas pelo Secretário de Estado da Educação em comités e projetos da OCDE, dos quais participam outros decisores políticos com funções semelhantes e distintas».

 

É já longa a relação entre João Costa e a OCDE e há estudos de, pelo menos, 2012 que contam com a colaboração do atual governante, enquanto perito.   

 

 

publicado às 14:40

 

Anormalidades de um ano “normal”

Tiago Brandão Rodrigues, em registo que já constituiu padrão, disse várias tolices a propósito do início do ano-lectivo, a saber: “estão criadas todas as condições para que o ano escolar possa começar a tempo; pudemos fazer algo que não acontecia até 2016. Em 2016, 2017, e acreditamos que também em 2018, começámos com normalidade e tranquilidade os anos-lectivos e em Setembro; há pouco tempo tivemos anos-lectivos que se iniciaram em Outubro e Novembro”.

 

Anos-lectivos a começarem em Novembro? Só quando o pequeno ministro era ainda mais pequeno e usava fraldas. Nunca há pouco tempo.  

Vejamos, agora, detalhes de um ano-lectivo que para o ministro começa com normalidade e tranquilidade, mas que para o vulgar dos mortais arranca com uma pesada dúvida: os sindicatos ameaçam com uma paralisação de aulas logo em Outubro.

 

É pouco chamar obscena à colocação de professores a 30 de Agosto, por parte de um Governo que, ao invés de os proteger, os agride desumanamente. Porque é desumano, até ao último dia das férias, muitos professores não saberem se têm trabalho ou se têm que ir para a fila de um qualquer fundo de desemprego; porque é inumano, depois disso, dar-lhes 72 horas para arranjarem alojamento e escola para os filhos, algures a dezenas ou centenas de quilómetros de casa, como se não tivessem família nem vida pessoal. Esta forma com que o Governo tratou os seus professores esteve ao nível da insensibilidade patenteada por quem o representa, quando afirmou que a desgraça de Monchique foi a "excepção que confirmou a regra do sucesso".

 

A coberto do Decreto-Lei de Execução Orçamental, o Governo cativou recentemente mais 420 milhões de euros de despesa pública, que se somam aos 1086 inicialmente previstos. E sobre quem recaiu boa parte destas cativações adicionais? Sobre as despesas relativas aos estabelecimentos de ensino básico e secundário, onde a cativação quintuplicou, passando de 4,9 para 25,1 milhões de euros, e sobre os serviços auxiliares de ensino, onde a cativação triplicou, passando de 7,2 para 23,9 milhões de euros.

 

No início do ano-lectivo passado, o ministro prometeu contratar mais 500 auxiliares, particularmente destinados ao pré-escolar. No início deste, os directores pedem-lhe que cumpra, porque destes funcionários auxiliares nem a sombra se viu. Em resposta aos directores, veio o Ministério da Educação dizer que os auxiliares serão colocados através do Acordo de Cooperação com as Autarquias, tendo sido já comunicado aos municípios com quantos mais cada qual pode contar. Só que subsiste um pequeno problema: há um movimento, que se começa a generalizar, de rejeição da transferência de competências, feita, assim o dizem, à revelia dos autarcas. Das 17 câmaras que constituem a Área Metropolitana do Porto, 11 vão decliná-las (Porto, Vila Nova de Gaia, Vila do Conde, Trofa, Matosinhos, Valongo, Vale de Cambra, Santa Maria da Feira, Paredes, Espinho e Póvoa de Varzim). A estas câmaras, noticiou a comunicação social, juntar-se-ão Braga, Setúbal, Sesimbra, Boticas, Palmela, Évora, Mafra, Barreiro, Moita, Sobral de Monte Agraço, Oeiras, Montijo e Odivelas. Do mesmo passo, o ano inicia-se com a crónica situação de centenas de assistentes operacionais em falta nas escolas, porque estão com baixas médicas prolongadas e não foram substituídos.

 

Lembram-se da Iniciativa Legislativa de Cidadãos para a contagem de todo o tempo de serviço dos professores? Depois de reunir 20.839 assinaturas, foi admitida a debate como projecto-lei e recebeu o número PJL/944/XIII/3. Após a admissão, estranhamente, os proponentes foram notificados de que 3555 assinaturas foram consideradas inválidas. Para corrigir a borrada pela qual são responsáveis, os serviços da AR, magnanimamente, concederam mais 90 dias, contados a partir de 8 de Agosto. Quando o prazo terminar a 9 de Novembro, o Orçamento do Estado para 2019 estará decidido. Quem acredita no Pai Natal considera normal o estrangulamento da iniciativa na secretaria. Eu não! Parabéns aos parlamentares e aos partidos que foram poupados ao incómodo. Bela chapelada!

 

Santana Castilho

 

publicado às 13:59

 

 

7 pontos sobre a alteração legislativa ao funcionamento dos C.T. :

1. O M.E. mais uma vez demonstra que, a 11 de julho (na reunião entre o Ministro e a Plataforma Sindical), apenas TENTOU GANHAR TEMPO para desmobilizar a classe docente numa greve histórica que o M.E. estava com muitas dificuldades em contrariar (por isso mesmo recorreu a várias ilegalidades, como por exemplo, a nota informativa de 11 de junho e o email da Dgest de 20 de julho, entre outros), e isto MESMO DEPOIS de 13 de julho, com apenas um sindicato nacional a manter o apoio aos colegas em luta;

2. O M.E. ao regulamentar através da Portaria n.º223-A/2018 está a demonstrar inequivocamente que, em junho e julho, agiu ILEGALMENTE e no “vale tudo” para tentar impor a sua vontade a qualquer preço, contrariando décadas de legislação consensual com AUTORITARISMO;

3. O M.E. mais uma vez DESCONSIDERA o papel central da avaliação no processo de ensino/aprendizagem, revelando um total desprezo pelos principais protagonistas do processo de aprendizagem e da avaliação (professores e alunos), para além de, uma vez por todas, assumir que a sua verdadeira preocupação é manter a sua prepotência a qualquer custo, mesmo que isso implique alterar a própria lei, sem consulta DEMOCRÁTICA dos agentes educativos;

4. PARADOXAL e IRONICAMENTE o Decreto-Lei n.º 55/2018 (6 de julho), assume como prioridade a “concretização de uma política centrada nas pessoas”, como princípios orientadores estabelece o “Reconhecimento dos professores enquanto agentes principais no desenvolvimento do currículo, com um papel fundamental na sua avaliação” (artº 4) e a finalidade da avaliação das aprendizagens “Informar e sustentar intervenções pedagógicas, reajustando estratégias que conduzam à melhoria das aprendizagens, com vistas à promoção do sucesso escolar” (artº 22). Já a Portaria n.º223-A/2018 (3 de agosto) - reafirmando o anteriormente decretado - , apesar de ter a competência de analisar e deliberar, ou seja, de se tratar de um órgão de natureza pedagógica BASILAR é, simultaneamente, equiparado a um órgão administrativo, independentemente da sua especificidade explícita, sendo desconsiderada a presença de todos os intervenientes;

5. Assinale-se ainda que a sobredita legislação cria uma SIMULTANEIDADE de regulamentação para, entre outros, o funcionamento dos CT. Entre 2018/2019 e 2021/2022 serão incluídos todos os anos de escolaridade, o que significa que, durante 4 anos letivos, teremos a coexistência de REGRAS DIFERENTES para algo que se prevê idêntico na sua essência pedagógica;

6. Perante mais este vil ataque do M.E./governo, a classe docente - visando mormente a sua competência profissional e a seriedade do processo de avaliação dos alunos - OU DESISITE de uma Escola Pública de qualidade e livre para todos, OU começa a CONSTRUIR - coletiva e democraticamente - uma resposta a esta intentona no início do próximo ano letivo. Dia 8 setembro (sábado) ocorrerá um ENCONTRO NACIONAL de TODOS os professores onde decidiremos qual o rumo a tomar. A partir desta segunda-feira, 6 de agosto, iniciaremos uma sondagem para que, uma vez mais, democraticamente, se escolha o local desse Encontro Nacional a 8 de setembro;

7. Reafirmamos que, JURIDICAMENTE, mantemos o compromisso de acompanhar de perto, este mês, os múltiplos processos em curso. Ainda que o efetivo final do ano letivo se aproxime a passos largos, à luz da nova Portaria, o que aconteceu nos últimos meses está indiscutivelmente manchado de credibilidade e legalidade. Enquanto preparamos os próximos procedimentos, resta-nos procurar assegurar por todos os meios ao nosso alcance que, a Justiça - o terceiro Poder - possa efetivamente funcionar com independência, e a suspensão das ilegalidades aconteça com efeitos retroativos, como prevê a lei.

Um sindicato docente NÃO PODE, nem quer ir de férias, pelo menos no estado atual da dignidade da profissão docente!

JUNTOS SOMOS + FORTES e construímos novos caminhos!

S.TO.P. Sindicato de Tod@s @s Professor@s

- Decreto-Lei n.º 55/2018 (6 de julho): https://dre.pt/…/pesquisa/-/search/115652962/details/normal…
- Portaria n.º223-A/2018 (3 de agosto): https://dre.pt/…/gu…/home/-/dre/115886163/details/maximized…

 

publicado às 05:51

 

‘Find Your Passion’ Is Awful Advice

 

Tenho esta conversa/discussão com os alunos desde o 10º ano e continuo pelo 11º e 12º anos. Por dar uma disciplina que iniciam ali no 10º ano e por saber que a maioria, de início, vai achá-la difícil, até ganharem um certo à vontade nas metodologias próprias da disciplina, insisto muito nesta questão de terem que dar oportunidade a novos interesses e serem capazes de auto-motivarem-se para ultrapassar as dificuldades iniciais que sempre existem quando começamos algo completamente novo e que isso é importante para crescerem enquanto pessoas, para lidar com os problemas da própria vida, aumentarem as probabilidades de satisfação com a vida e evitarem ser pessoas que enformam o estereótipo 'trabalho/casa/futebol/telenovelas/trabalho...' ou 'trabalho/shopping/telenovelas/casa/trabalho...'

 

Não é fácil porque a maioria já vem muito formatada neste sentido de pensarem que as coisas, ou se gosta ou não se gosta delas definitivamente, logo à cabeça. As primeiras pessoas a desenvolver o interesse das crianças deviam ser os pais e os primeiros professores porque entre os seis e os dez anos as crianças interessam-se por tudo e estão completamente receptivas a desenvolver novos interesses. Na adolescência, quando começam a preocupar-se em comparar-se com os outros e se tornam muito conscientes e receosas de tudo o que entendem como 'defeitos' e 'incapacidades' é muito mais difícil fazer esse percurso.

 

Nas aulas tenho um nome para isto, chamo-lhe 'atitudes para a aprendizagem', tenho alguns testes de auto-diagnóstico para os alunos se avaliarem nos seus pontos fortes e fracos em diversas áreas formativas fundamentais para a aprendizagem positiva e que incentivo façam duas ou três vezes ao longo do ano para poderem ver a sua progressão e avalio-os eu mesma nas práticas de trabalho de investimento em sala de aula sem as quais não pode haver aprendizagem.

 

Eu própria sou um exemplo desta ideia de que as paixões de desenvolvem com persistência, conhecimentos e experiência, já que fui parar à educação por acaso, não era coisa que me interessasse muito, o que me interessava era a Filosofia, de início foi difícil, mas acabei por desenvolver um enorme gosto pela profissão. Na verdade, cada vez gosto mais do trabalho com os alunos nesta idade da adolescência em que os apanho.

 

O discurso dos governantes e opiniadores sobre os professores terem que ser pessoas que vão para a profissão com grande paixão pela educação, que devem ter espírito de missão, etc. (termos que fazem lembrar o que dizem às mulheres acerca de serem mães - lá está, penso que esta profissão é mal tratada por ser uma profissão maioritariamente de mulheres) não só é irreal (de facto, imensas pessoas que desde novas querem muito ser professores, quando chegam à realidade da profissão desiludem-se e desistem ou não são capazes de ultrapassar-lhes as dificuldades) e ignorante como é pernicioso no sentido de levarem as pessoas a duvidarem da sua capacidade de progredir enquanto professores pelo facto de não terem tido uma paixão de freira pela profissão. 

 

É por isso também que a avaliação de professores não pode ser uma acto de punição (esse desejo de punir professores e o discurso de ódio dos governantes contra os professores parece-me sempre muito freudiano) mas devia ser um trabalho que permitisse às pessoas crescer na profissão. Tantas medidas na educação são tomadas contra as possibilidades das pessoas crescerem e desenvolverem gosto pela profissão... tratam as pessoas como inimigos a abater, criam as piores condições possíveis, físicas, intelectuais e psicológicas, mostram grande ignorância no que respeita às dinâmicas dos alunos, individuais e grupais, em sala de aula, obrigando a práticas estéreis e anti-pedagógicas e depois esperam paixão pela actividade profissional e lealdade aos chefes...

 

Não quer isto tudo dizer que não haja pessoas com grandes talentos e paixões desde muito novas, que as há mas, em primeiro lugar essas são uma minoria e, depois, mesmo essas, têm espaço para desenvolver interesses noutras áreas que não a da sua paixão.

Ainda ontem vi um pequeno documentário sobre uma rapariga que tem agora 12 anos mas que desenha e pinta desde os quatro anos com um talento parecido aos dos autistas 'savants'. A mãe dizia que ela na escola só frequenta as disciplinas que gosta e lhe interessam e que por isso não estuda matemática nem biologia e que acahava que todas as crianças só deviam estudar o que gostam. Achei um discurso tão pobre e fez-me pena a miúda, desde nova, tendo tanto talento, ser impedida de desenvolver-se integralmente e até de melhorar a sua arte com intersecção de conhecimentos de outras áreas.

A maioria dos miúdos, é na escola que tomam contacto com áreas de estudo e trabalho diversificados que lhes abrem portas de interesse e crescimento e um currículo reduzido ao essencial ou ao que 'se gosta' é um fechar de portas no período da vida em que mais interessa abri-las.

Se aplicarmos estas ideias à alimentação vemos como isto é pernicioso: se déssemos às crianças apenas o que gostam de comer e não as levássemos a comer comidas que à partida não gostam, os miúdos só comiam doces e batatas fritas em frente à TV e a videojogos. Aliás, hoje em dia muitos pais têm estas práticas e estes discursos com os filhos mas depois esperam, ao mesmo tempo e muito contraditoriamente, que eles na escola sejam alunos esforçados e trabalhadores ou que os professores os transformem, miraculosamente, em tais pessoas, capazes de investir em áreas que não são imediatamente aprazíveis. Depois dizem que os miúdos se aborrecem nas aulas. Pudera... 

 

publicado às 06:46

 

 

Começando pela ordem inversa porque o artigo tem imensa afirmação gratuita que dá trabalho a desmontar. 

 

Não sou sindicalizada, já o disse aqui várias vezes; não por não ser a favor de sindicatos fortes, que o sou, mas por não ter encontrado, até agora, nenhum sindicato que represente os professores. Aliás, já me fez falta mais que uma vez em que tive que representar-me sozinha ou recorrer a advogado em duas queixas que fiz, uma na DGE e outra na IGEC, que deram em nada, diga-se de passagem, que essa gente está toda feita para se cobrirem uns com os outros... mas adiante... apareceu agora um sindicato -o STOP- que é apartidário, cuja direcção são professores no activo e que está efectivamente a representar os professores e decidi que é um bom sindicato para me representar porque gosto da posição que defendem e do modo como a têm defendido, com transparência e seriedade e também penso que temos que lhes dar força, uma vez que os outros sindicatos representam-se mais a si mesmos que a nós e desbaratam, sem escrúpulos, o esforço das dezenas de milhares de professores que lutam pelos seus direitos mais básicos.

 

A minha esperança é que muita gente se filie neste sindicato e lhes dê força suficiente para que se tornem uma voz principal. Ficou visto com a força e adesão desta greve convocada aos anos de exame pelo STOP contra a vontade dos outros sindicatos, que os professores não se sentem representados pelos sindicatos tradicionais. Aqueles que passavam o tempo a dizer que 130 mil professores andavam às ordens do Nogueira, agora que viram os professores aderir com esta força e convicção a uma luta contra a vontade do Nogueira, estão estranhamente em silêncio... é um silêncio que diz tudo...

Estes sindicatos, há muito que deixaram de ser representativos -gostava de saber ao certo quantos sócios têm- e é preciso termos representantes que lutem por nós e por uma educação livre e de qualidade.

 

Quanto à 'luta inglória dos professores', apenas dizer duas ou três coisas: o autor pergunta-se como é que os professores perderam prestígio e estatuto e adiante três causas: 1. a massificação do ensino, sem condições para tal, no pós 25 de abril; isto é verdade, só que já passaram mais de quarenta anos e já não estamos no pós 25 de abril de modo que a questão deveria ser, 'porque não houve interesse em criar essas condições?'

Pessoalmente, estou convicta, embora sem dados que o sustentem, que o desinteresse dos governos pela profissão se deve ao facto de ser uma profissão maioritariamente de mulheres e, como tal, ser encarada como uma espécie de serviço menor de tomar conta de crianças que qualquer um pode fazer (aliás, este é o termo que, sintomaticamente, os dirigentes usam quando se referem aos alunos, na sua maioria adolescentes e jovens adultos), serviço associado mais a talentos materno/vocacionais que a critérios específicos de cientificidade pedagógica. Daí a desvalorização e até desprezo que mostram pela profissão e a abundância de opiniões completamente ignorantes sobre o tema: é que encaram os professores como uma espécie de extensão das mães/donas de casa que educam os filhos, só que num local próprio e não em casa. É a mesma razão que leva os dirigentes a desprezar a profissão de enfermagem: é uma profissão de mulheres, no imaginário das pessoas, 'anjos da guarda dos doentes', pessoas maternais que tomam conta de doentes.

 

2. os sindicatos terem partidarizado as lutas dos professores em vez de lutarem por essas melhorias - aqui estou inteiramente de acordo e é fácil citar factos que o mostram, desde logo a constante cedência de condições e salários dignos em troca benefícios em causa própria;

e, finalmente, 3. como consequência, as lutas dos professores estarem hoje 'totalmente deslocalizadas e desfocalizadas dos objetivos centrais da educação, das escolas e dos próprios professores.' Esta última frase nem tem sentido quando fala de 'lutas deslocalizadas' (que quer isto dizer? luta-se no local errado?) e erra quando diz que as lutas não se focam nos objectivos centrais da educação. Os professores lutam por muita coisa, desde reduzir o número de alunos por turma, democratizar a gestão da escola, reduzir a burocracia e aumentar o tempo de preparação lectivo, ter formação gratuita e dentro do horário de trabalho, etc. Mas estas lutas são um assunto separado do direito básico de não ser obrigado a andar a trabalhar para o boneco durante dez anos para que os políticos possam dar o dinheiro a banqueiros.

 

Ora, uma coisa são as condições de trabalho outra é o próprio direito a que se reconheça que as pessoas existiram durantes dez anos enquanto trabalhadores que cumpriram com os seus deveres. Ou este senhor, que não sei o que faz na vida, aceitaria como normal que o seu chefe o pusesse no tempo de há dez anos a ganhar o que então ganhava e lhe dissesse, 'olha, aqueles dez anos que trabalhaste, pois esquece-os, é como se tivesses hibernado'. Ahh..., já sei, na opinião do articulista, ele tem uma carreira porque tem mérito mas os 130 mil professores são todos medíocres sem mérito que não merecem carreira... aliás, o senhor fala muito na má qualidade dos novos professores só que esquece que quem está nas escolas somos nós, os antigos professores, porque a carreira está fechada a sangue novo e não deixam as pessoas reformar-se de modo que este seu argumento vale zero.

 

Quanto a isso do mérito (Os professores pertencem às escolas e às suas comunidades. É aí que ganham, ou não, prestígio e estatuto. É aí que devem ser avaliados e promovidos, ou não), sabendo nós como as escolas estão politizadas -a gestão da Rodrigues tinha esse objectivo- e ainda mais vão ficar quando as puserem no poder local e, sabendo nós como funciona o mérito na política, o que se anuncia é cada vez mais o sacrifício dos inocentes às mãos dos favores dos arregimentados políticos. Uma avaliação de professores tem que ser outra coisa diferente das avaliações de managers porque a escola é um local pedagógico mas já falei sobre isso noutros posts.

 

Quanto ao último parágrafo (As boas escolas do ensino superior são um bom exemplo. A carreira dos docentes é o resultado do que investigam, do que investem e dos resultados desse investimento. Não há hoje nenhuma razão para que as escolas dos primeiros níveis de ensino não adotem o mesmo figurino.) é não ter mesmo noção da realidade. No ensino superior os professores dão 6 ou 8 horas de aulas por semana e é por isso que têm tempo para investigar. Nós damos 16, 20, 22 ou mais horas de aulas por semana. Temos uma data de turmas de crianças ou adolescentes e jovens que requerem uma supervisão e acompanhamento que os alunos do ensino superior não precisam. Para além disso fazemos horas e horas infindáveis de serviço na escola desde dar apoios, atender pais, alunos, burocracias sem fim, planear visitas de estudo, exposições, concursos, projectos disto e daquilo... olhe, se conseguir que o ministro o oiça, peça-lhe para nos reduzir o número de turmas e de alunos por turma e aumentar o número de horas para trabalho e desenvolvimento pessoal. Por mim agradeço. Quanto ao resto, era bom que falasse dos assuntos com conhecimento ou dados que o sustentem visto estar a escrever num jornal nacional.

 

A inglória luta dos professores

Porque é que os professores perderam prestígio e estatuto, em contraciclo com o aumento da escolaridade obrigatória?

 

publicado às 16:30

 

 

Pergunta será colocada, num inquérito online, pelas dez organizações sindicais de professores que convocaram a atual greve às avaliações. 

 

Não, obrigada. Uma coisa não tem que ver com outra. Uma coisa é termos trabalhado dez anos da nossa vida e serem apagados como se não tivéssemos trabalhado, feito as formações obrigatórias e estado no nosso posto de trabalho a cumprir os nossos deveres para com os alunos, os pais e o país; termos feito o nosso dever e serem-nos tiradas as possibilidades de nos podermos reformar no escalão correspondente aos anos de bom serviço prestado e irmos para a reforma com o salário mínimo ou pouco mais; outra diferente é poder querer-se uma reforma antecipada.

 

 

publicado às 13:04

 

 

Rise of the Autocrats - Liberal Democracy Is Under Attack

 

 

Yascha Mounk distingue em, The People vs. Democracy, a democracia do liberalismo. A democracia liberal, diz, tem duas componentes - 'democracia',  um conjunto de instituições eleitorais vinculativas que traduzem efectivamente as visões populares em políticas públicas e, 'instituições liberais' que são aquelas que protegem efectivamente o Estado de Direito e garantem os direitos individuais aos cidadãos. Uma sociedade é uma democracia liberal se combina instituições democráticas e liberais. Segue-se que algumas sociedades podem ser democráticas mas não liberais ou liberais mas não democráticas.

 

Em seu entender, a essência do populismo está em oferecer soluções fáceis a problemas complexos, aproveitando-se do facto dos eleitores não querem ouvir dizer que o mundo é complexo e que não há soluções imediatas para os seus problemas. Face a políticos que não sabem, eles mesmos, lidar com um mundo cada vez mais complexo, os eleitores estão dispostos a votar em alguém que lhes prometa uma solução simples e imediata, como construir um muro, por exemplo.

Sendo a resposta de construir um muro, uma resposta simples, o facto de não ter sido adoptada há mais tempo só pode dever-se a uma conspiração dos inimigos do povo (políticos corruptos, agentes estrangeiros) donde a única solução passa por eleger um homem honesto e dar-lhe poder para interpretar a voz do povo, em vez de deixar falar o próprio povo.  E é assim que as democracias se separam do liberalismo.

 

 

O liberalismo não democrático liga-se à ascensão da tecnocracia: especialistas, burocratas, lobistas, todos alimentam uma oligarquia que vai minando o liberalismo. Quando a tecnocracia se combina com a oligarquia, a influência dos eleitores começa a ser marginal e a mistura de ambas fertiliza o terreno para o populismo: é por as pessoas terem perdido a sua voz que o populista tem sucesso ao defender querer restaurar a sua voz. Segundo o autor, o populismo autoritário é a reação típica à oligarquia e à tecnocracia.

 

Acho que este livro responde ao artigo sobre a ascensão dos autocratas e ao ataque das democracias liberais: é que estas deixaram-se enredar numa tecnocracia oligárquica, em parte por os políticos serem pessoas muito ignorantes e impreparadas para estes problemas e não terem, nem políticas, nem visão, nem estofo para o mundo em que vivemos.

A crise na Filosofia não tem ajudado...

 

Durante um tempo, aqui em Portugal, pese embora todos os erros e  extremismos próprios das revoluções, o 25 de Abril possibilitou o surgir de um Estado democrático e liberal - as instituições democráticas funcionavam e aos pouco instituiu-se a defesa dos direitos dos cidadãos. Infelizmente, aquilo que nos ajudou economicamente, a entrada na UE, também nos prejudicou politicamente na medida em que fomos, e somos, pressionados à conformidade com uma oligarquia tecnocrata que abriu caminho aos populismos e autocracias por não ter cumprido as expectativas e nos está a arrastar para o mesmo mal que ataca os outros.

 

No entanto, temos hoje mais noção destes perigos do que havia há 30, 40 ou 100 anos. Isso deve-se, penso, à universalização da educação e aos efeitos positivos da globalização. Há uma consciência dos perigos que a situação actual carrega, pese embora não pareça haver soluções.

 

Como é que se resolve este problema, segundo o autor? Com essa capacidade que a razão tem de ser objectiva, de querer compreender, de resistir aos populismos, de falarmos uns com os outros, de nos juntarmos e de lutarmos pelos nossos direitos e pelos nossos valores democráticos e liberais  mesmo que impliquem sacrifício (segundo o autor, à medida que cresce a autocracia cada vez será mais difícil alguém tomar uma posição individual que a contrarie) pois os tempos estão difíceis e temos que saber erguer-nos à sua altura, nós o povo, já que as oligarquias cada vez menos nos representam.

 

post scriptum em três partes:

1ª, parece-me que a defesa da educação é a forma mais eficar de lutar contra os autocratas, os oligarcas, os tecnocratas e todos os que semeiam populismos. Um povo consciente e [filosoficamente] educado está mais preparado que um povo ignorante, sem defesas;

2ª, a luta dos professores é uma luta pelos direitos contra políticos submissos à oligarquia dos tecnocratas que nos arrastam para uma situação de apatia e desesperança na política, problema muito grave que já se vê há algum tempo no país e que ninguém aborda como se não existisse;

3ª o PCP mostrou, com a sua reacção negativa à iniciativa legislativa dos professores aquilo que é e sempre foi: um partido que defende a oligarquia como forma de governo e a marginalização da vontade popular.

 

publicado às 15:05


Em Portugal a mobilidade social é quase nula

por beatriz j a, em 16.06.18

 

 

...sabendo nós que esse é um dos indicadores mais importantes do estado de vitalidade das democracias e que essa mobilidade começa com a qualidade da educação pública... mas por cá o que se valoriza é a bola...

 

Sobra a Educação como um dos poucos elevadores sociais de que o país dispõe. Na escola. E em casa. Os dados da OCDE mostram que 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para se ser bem-sucedido na vida. Mas há o resto. Pais pouco participativos. Professores empurrados por falta de estímulo para a base da pirâmide, profissão de fé sem fé no futuro.

Ter paixão pela Educação, como decretou o Governo para a próxima legislatura, é valorizar quem ensina, para ter os melhores a ensinar. Mas é mais difícil do que na bola.

 

 

publicado às 04:29


Educação também é isto

por beatriz j a, em 15.06.18

 

 

Isto é lindo 🙂

 

publicado às 19:41

 

 

"Portugueses são invejosos, acham que os professores são privilegiados"

“Os portugueses querem um ensino público de qualidade, mas não querem pagar para os seus filhos terem uma educação decente”, começa por afirmar Joaquim Jorge acabando mesmo por acusar os pais de não apoiarem os protestos dos docentes.

“Os portugueses são muito invejosos e ciumentos, acham que os professores são uns privilegiados. O professor para atingir o topo da carreira precisa de 34 anos!”, refere o biólogo adiantando que esta luta pela contagem do tempo de serviço dos docentes só começou a ter importância para os portugueses devido à ameaça de greve às avaliações: “’aque-d’el-rei’ que os nossos filhos não vão ter notas e não podem passar de ano”.

Por isso mesmo, para Joaquim Jorge, “os professores são a classe mais mal-tratada de que há memória em Portugal. Não há respeito pela sua função, pelo seu trabalho individual”.

 

publicado às 15:39

 

 

Não é bem a mesma coisa que não saber situar Portugal no mapa como disse a comunicação social, por coincidência, no dia em que o ME queria fazer parecer que os professores não fazem nada e querem privilégios...

Quantos adultos educados no 'antigamente é que se aprendia', como gostam de dizer, seriam capazes, aos 10 anos de idade ou até em adultos, de situar Portugal ou outro local qualquer do mundo utilizando os pontos colaterais da rosa-dos-ventos? Se então lhe dissessem, 'olhe para noroeste', saberia para onde olhar?

 

 

publicado às 06:21


Criando gerações de príncipes e princesas

por beatriz j a, em 05.06.18

 

 

É por isso que acho que aquela campanha contra o tabaco, sendo completamente idiota, será imensamente eficaz porque apreende a realidade e a realidade é que uma quantidade ridícula de pais pensam e tratam as crianças como excepcionalismos com direitos a regalias (regalia vem de regal, que quer dizer, real, próprio dos reis) e desde que nascem só os tratam como princípes e princesas que devem viver uma permanente vida de sonho feliz e comportam-se como seus súbditos e advogados de defesa contra inimigos imaginários, os professores. Por conseguinte, vão rever-se nesta campanha.

 

 

publicado às 08:52


Já estivemos mais longe disto

por beatriz j a, em 04.06.18

 

 

Tudo é verdade

Os pais dizem o que é verdade

Os alunos constroem a sua verdade

Nada é verdade

Os professores são ditadores de falsas verdades

A educação é uma conversa de opiniões sem critérios

 

 

publicado às 12:32


no cabeçalho, pintura de Paul Béliveau. mail b.alcobia@sapo.pt

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